O ARAMAICO DA PESHITTA NÃO É O MESMO ARAMAICO DE YESHUA (1)
Introdução
Tem crescido, nos últimos anos, o número de judaizantes e defensores da chamada teoria da primazia semítica que sustentam que o Novo Testamento teria sido originalmente escrito em hebraico e/ou aramaico. Entre os argumentos apresentados está o fato de que a maioria dos escritores do Novo Testamento era de origem judaica e, principalmente, a alegação de que a Peshitta, escrita em aramaico-siríaco, não seria uma tradução, mas o próprio texto original do Novo Testamento.
Entretanto, uma afirmação dessa magnitude precisa ser examinada à luz das evidências linguísticas e textuais, e não simplesmente pressuposta a partir da identidade étnica dos autores ou da língua falada por Jesus e pelos primeiros discípulos.
O fato de Yeshua e seus contemporâneos falarem aramaico não significa, por si só, que o Novo Testamento tenha sido originalmente escrito em aramaico. Da mesma forma, o fato de existir uma antiga tradução siríaca do Novo Testamento não demonstra que ela seja o seu autógrafo original.
Por isso, nesta série vamos colocar a própria Peshitta sob análise, comparando seu aramaico-siríaco com o aramaico da Judeia e, sobretudo, examinando sua relação com o texto grego do Novo Testamento.
Nossa proposta não será simplesmente afirmar que a Peshitta é uma tradução. Vamos procurar as marcas linguísticas que permitam demonstrá-lo a partir do próprio texto.
E começaremos por uma questão fundamental:
O aramaico da Peshitta é realmente o mesmo aramaico que Yeshua falava?
A resposta deverá ser encontrada não em argumentos de autoridade, mas na própria evidência linguística.
Nesta série vamos investigar, através do próprio texto da Peshitta, uma questão importante: o aramaico da Peshitta é realmente o mesmo aramaico que era falado por Yeshua (Jesus) e seus contemporâneos na Judeia e na Galileia?
Nossa investigação será feita principalmente através da linguística comparativa, examinando escrita, vocabulário, morfologia, sintaxe e, sobretudo, as diferenças entre o aramaico judaico palestinense e o siríaco da Peshitta.
O argumento da série
Portanto, não queremos provar nossa tese apenas pela diferença dos alfabetos.A investigação seguirá várias camadas:
1. Escrita
Hebraico/aramaico judaico × escrita siríaca.
2. Fonologia
Diferenças de pronúncia e evolução dos sons.
3. Vocabulário
Palavras empregadas pela Peshitta que não correspondem necessariamente ao aramaico palestinense.
4. Morfologia
Formação de substantivos, verbos, pronomes e partículas.
5. Sintaxe
Construção das frases e ordem dos elementos.
6. Topônimos e antropônimos
Jerusalém, Betesda, Gólgota, Gabatá, Abadom etc.
7. Comparação com o grego
Especialmente nos lugares em que a Peshitta parece reproduzir construções características do texto grego.
É nessa última camada que poderemos testar seriamente a hipótese de que determinados elementos da Peshitta são resultado de tradução do grego, e não simplesmente características do aramaico falado por Yeshua.
1. Os alfabetos não são os mesmos
Primeiramente, é necessário observar que os sistemas de escrita são diferentes.
Aramaico/hebraico judaico
א ב ג ד ה ו ז ח ט י כ ל מ נ ס ע פ צ ק ר ש ת
Siríaco da Peshitta
ܐ ܒ ܓ ܕ ܗ ܘ ܙ ܚ ܛ ܝ ܟ ܠ ܡ ܢ ܣ ܥ ܦ ܨ ܩ ܪ ܫ ܬ
O alfabeto siríaco não é simplesmente o alfabeto hebraico quadrático utilizado nos manuscritos judaicos. Trata-se de uma tradição gráfica distinta, desenvolvida historicamente a partir da escrita aramaica de Edessa da Síria.
Entretanto, uma ressalva é necessária: alfabetos diferentes não significam necessariamente idiomas diferentes. Portanto, a diferença gráfica é apenas o primeiro elemento da investigação. A demonstração principal deverá vir da gramática e do vocabulário.
2. A Peshitta chama palavras aramaicas de “hebraico”
Um fenômeno particularmente interessante aparece no texto da Peshitta.
É compreensível que os escritores do Novo Testamento grego empreguem a expressão “em hebraico” para designar expressões que, linguisticamente, pertenciam ao ambiente aramaico judaico do período.
Isso ocorre, por exemplo, em:
- João 5:2
- João 19:13
- João 19:17
- João 19:20
- João 20:16
- Apocalipse 9:11
Mas surge uma questão:
Por que a Peshitta, escrita em siríaco, reproduz esse mesmo procedimento e chama de “hebraico” palavras que apresentam forma aramaica?
A hipótese que investigaremos nesta série é:
A Peshitta preserva, nesses lugares, a terminologia linguística do texto grego que está traduzindo.
Vejamos um exemplo.
3. Yōḥanan — João 5:2
O texto da Peshitta diz:
”ܐܝܼܬ݂ ܗ݈ܘܵܐ ܕܹ݁ܝܢ ܬ݁ܲܡܵܢ ܒ݁ܐܘܿܪܹܫܠܸܡ ܕ݁ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܚܕ݂ܵܐ ܕ݁ܡܲܥܡܘܿܕ݂ܝܼܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܒܹ݁ܝܬ݂ܚܸܣܕ݁ܵܐ ܘܐܝܼܬ݂ ܗ݈ܘܵܐ ܒ݁ܵܗ ܚܲܡܫܵܐ ܐܸܣܛܘܝܼܢ“ (João 5:2 PeshED+)
Transliteração
ʾīṯ hwā dēn tamān b-ʾŌrēšlem dukṯā ḥdā d-maʿmūḏīṯā d-mitqaryā ʿeḇrāyīṯ bēṯ-ḥesdā, w-ʾīṯ hwā bāh ḥamšā ʾesṭūyīn.
Tradução literal
“Havia, porém, ali em Jerusalém um lugar de banho/batismo que era chamado em hebraico Betesda, e havia nele cinco pórticos.”
A expressão que nos interessa é:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂
ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico / hebraicamente”
Observe o fenômeno:
o texto da Peshitta está escrito em siríaco, mas diz que o nome é chamado “em hebraico”.
Esse fenômeno merece investigação porque a forma linguística de ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ pertence ao próprio siríaco, enquanto sua referência é à língua hebraica.
4. Betesda
O nome aparece na Peshitta como:
ܒܹܝܬ݂ ܚܸܣܕ݁ܵܐ
Bēṯ ḥesdā
A expressão corresponde a aramaica:
בֵּית חֶסְדָּא
Bēṯ ḥesdāʾ
“Casa da Misericórdia.”
O elemento בֵּית / ܒܹܝܬ݂ significa “casa”, enquanto חֶסֶד / ܚܸܣܕ݁ܵܐ está relacionado ao conceito de “misericórdia, bondade, benevolência”.
Portanto, temos uma expressão de aparência claramente semítica e próxima às formações aramaicas/hebraicas.
Mas aqui está o ponto que deverá ser investigado:
Se o texto chama o nome de “hebraico”, por que a forma preservada na Peshitta apresenta características próprias do aramaico/siríaco?
5. O nome da Cidade Santa
Outro detalhe muito interessante aparece imediatamente no mesmo versículo acima.
O texto da Peshitta Oriental traz:
ܐܘܿܪܸܫܠܸܡ
ʾŌrešlem
enquanto a tradição siríaca ocidental apresenta:
ܐܽܘܪܺܫܠܶܡ
ʾūrīšlem
Comparemos com o hebraico bíblico:
יְרוּשָׁלַיִם
Yərūšālayim
“Jerusalém”.
Temos, portanto, uma diferença fonológica e morfológica interessante entre a forma hebraica e as formas encontradas no siríaco.
A questão não é simplesmente saber se um falante siríaco poderia pronunciar o nome “Jerusalém” dessa maneira. A questão é muito mais ampla:
Por que a tradição siríaca apresenta uma forma própria do nome, diferente da forma hebraica tradicional יְרוּשָׁלַיִם?
Esse será um dos elementos que examinaremos ao longo da série.
5. O Nome do Pórtico
João 19:13 — Gabatá
Continuando nossa investigação sobre o aramaico da Peshitta, chegamos agora a João 19:13, um texto particularmente interessante para demonstrar que o siríaco da Peshitta não deve ser simplesmente identificado com o aramaico judaico falado por Yeshua e seus contemporâneos.
Confira o texto:
”¹³ ܟ݁ܲܕ݂ ܫܡܲܥ ܕܹ݁ܝܢ ܦ݁ܝܼܠܲܛܘܿܣ ܗܵܕ݂ܹܐ ܡܸܠܬ݂ܵܐ ܐܲܦ݁ܩܹܗ ܠܝܼܫܘܿܥ ܠܒ݂ܲܪ ܘܝܼܬ݂ܸܒ݂ ܥܲܠ ܒ݁ܝܼܡ ܒ݁ܕ݂ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܪܨܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ ܕ݁ܟ݂ܹܐܦ݂ܹܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܦ݂ܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ“
(João 19:13 — PeshED+)
Transliteração acadêmica:
Kaḏ šəmaᶜ dēn Pīlāṭōs hāḏē mellṯā, appqēh ləYišōᶜ ləḇar, wīṯeḇ ᶜal bīm bəḏōkkəṯā dəmeṯqaryā reṣīp̄tā dəkēp̄ē ᶜeḇrāyīṯ dēn meṯamrā Gəp̄īp̄tā.
Transliteração simplificada:
Kadh sh'maʿ dēn Pīlāṭōs hādhē melthā, appqēh l-Yishōʿ l-var, w-īthev ʿal bīm b-dōkthā d-mithqaryā retsīpftā d-khēfē ʿevrāyīth dēn methamrā G'fīftā.
Obs.: ḇ (aspirado) = bh, v; ḏ (aspirado) = dh; p̄ (aspirado) = ph (f); š = sh; ṯ (aspirado) = th.
Tradução literal
“Mas, quando Pilatos ouviu essa palavra, trouxe Yeshua para fora e sentou-se no tribunal, no lugar que é chamado Pavimento de Pedras; em hebraico, porém, é chamado Gəpīp̄tā.”
Observe a expressão:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”
E imediatamente depois:
ܓ݁ܦ݂ܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ — Gəp̄īp̄tā
“Gabatá/Gfifta”
Aqui encontramos um detalhe linguístico extremamente importante.
O que o grego diz?
O texto grego de João 19:13 apresenta:
ὃ λέγεται Ἑβραϊστὶ Γαββαθᾶ
ho légεται Hebraïstì Gabbathá
“que é chamado em hebraico Gabatá.”
Temos, portanto:
Ἑβραϊστί — Hebraïstí
“em hebraico”
Γαββαθᾶ — Gabbathá
“Gabatá”
A Peshitta conserva a mesma estrutura:
ܥܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”
seguido de:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ — Gəpīp̄tā
A questão linguística
O nome relacionado ao grego Γαββαθᾶ (Gabbathá) corresponde a uma forma aramaica judaica tradicionalmente reconstruída como:
גַּבְּתָא
Gabbəṯā / Gabthā
Entretanto, observe o que acontece na Peshitta.
Em vez de simplesmente conservar a forma judaica גבתא, encontramos:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
Gəp̄īp̄tā
Ou seja, o tradutor siríaco transmite o nome segundo o sistema fonológico e morfológico do siríaco, e não do aramaico judaico.
Temos, portanto, uma diferença significativa:
Aramaico palestinense:
גבתא
Gabbəṯā
Grego:
Γαββαθᾶ
Gabbathá
Peshitta:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
Gəpīp̄tā
Não estamos simplesmente diante de uma diferença de alfabeto. A forma do vocábulo sofreu uma adaptação linguística ao sistema siríaco.
E surge uma pergunta importante
Se a Peshitta fosse simplesmente o mesmo aramaico falado por Yeshua e seus contemporâneos, por que encontramos uma forma siríaca como:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ — Gəpīp̄tā
em vez de simplesmente preservar a forma judaica:
גבתא — Gabbəṯā?
Esse é precisamente o tipo de evidência que devemos examinar ao longo desta série.
Não estamos afirmando que o siríaco e o aramaico judaico sejam línguas sem qualquer relação. Pelo contrário: ambos pertencem à grande família das línguas aramaicas.
A questão é outra:
São exatamente a mesma variedade de aramaico?
João 19:13 indica que a resposta é não.
A questão fica ainda mais interessante
O texto da Peshitta diz que ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ (Gəpīp̄tā) é chamado:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂
ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”.
Portanto, temos um fenômeno muito interessante:
Texto grego:
“em hebraico” → Γαββαθᾶ
Peshitta:
“em hebraico” → ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
O tradutor siríaco está transmitindo para seu próprio sistema linguístico um nome semítico associado ao ambiente judaico.
Isso é perfeitamente compatível com a tese de que estamos diante de uma tradução siríaca de um texto grego que já continha termos semíticos judaicos.
Conclusão
João 19:13 nos fornece uma importante peça para nossa investigação.
A Peshitta:
- está escrita em siríaco;
- emprega ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ (ʿeḇrāyīṯ) para “em hebraico”;
- reproduz o nome aramaico-judaico Gabatá através da forma siríaca ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ (Gəpīp̄tā);
- não simplesmente preserva a forma aramaica judaica גבתא (Gabbəṯā).
Portanto, João 19:13 constitui mais uma evidência de que não devemos identificar automaticamente o aramaico-siríaco da Peshitta com o aramaico judaico falado por Yeshua.
E ainda há outros textos muito mais reveladores.
6. O LUGAR DA CRUCIFICAÇÃO
João 19:17 — Calvário / Gólgota
Continuando nossa investigação sobre o aramaico da Peshitta, chegamos agora a João 19:17.
Este versículo é particularmente importante porque apresenta novamente a fórmula “em hebraico”, mas agora podemos observar com clareza a diferença entre o vocabulário siríaco empregado pela Peshitta e o nome semítico judaico transmitido pelo texto.
Confira:
”ܟ݁ܲܕ݂ ܫܩܝܼܠ ܙܩܝܼܦ݂ܹܗ ܠܕ݂ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ“
(João 19:17 — PeshED+)
Transliteração acadêmica:
Kaḏ šəqīl zəqīpēh ləḏōkkəṯā dəmiṯqaryā Qarqap̄ṯā, ʿeḇrāyīṯ dēn meṯʾamrā Gāgōltā.
Transliteração simplificada:
Kadh shqīl zəqīpēh l-dōkthā dəmithqaryā Qarqapfthā, ʿevrāyīth dēn methʾamrā Gāgōltā.
Tradução literal
“E, levando a sua cruz, foi para o lugar que é chamado Crânio; em hebraico, porém, é chamado Gāgūltā.”
Observe novamente a expressão:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”
E depois:
ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ — Gāgūltā
“Gólgota”
O “Crânio” em siríaco
Antes de apresentar o nome “Gólgota”, a Peshitta utiliza:
ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ
Qarqapfthā
“Crânio” / “lugar do crânio”
Essa é uma forma pertencente ao vocabulário siríaco.
A raiz está relacionada ao conceito de crânio, cabeça, e encontramos formas cognatas nas demais línguas aramaicas.
Portanto:
Peshitta: ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ — Qarqapfthā
“Crânio”
Mas o versículo continua:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ
ʿeḇrāyīṯ dēn methʾamrā
“mas em hebraico é chamado...”
E então aparece:
ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ
Gāgōltā
“Gólgota”
Compare as formas
Aqui está o ponto que queremos observar:
Siríaco da Peshitta:
ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ
Qarqafthā
“Crânio”
Forma aramaico-judaica:
גָּלְגֹּתָּא
Galgôtā / Golgôtā
“Gólgota”
Grego:
Γολγοθᾶ
Golgothá
“Gólgota”
Temos, portanto, três formas linguísticas relacionadas, mas não idênticas.
Grego → Γολγοθᾶ (Golgothá)
Aramaico judaico → גָּלְגֹּתָּא (Galgôtā)
Peshitta → ܓܵܓܘܿܠܬܵܐ (Gāgōltā)
E o detalhe mais importante é que a Peshitta utiliza seu próprio vocabulário siríaco para traduzir o significado:
ܩܪܩܦܬܐ — Qarqap̄tā
“Crânio”
e depois preserva/adapta o nome:
ܓܓܘܠܬܐ — Gāgōltā
“Gógolta”
O que isso demonstra?
Mais uma vez encontramos a mesma estrutura que observamos em João 19:13.
O grego apresenta:
“o lugar chamado Crânio, que em hebraico é chamado Gólgota.”
E a Peshitta reproduz essa estrutura:
“o lugar chamado Crânio, mas em hebraico é chamado Gāgūltā.”
Isso é extremamente significativo.
Se o texto da Peshitta fosse simplesmente o próprio aramaico palestinense de Yeshua, esperaríamos que o vocabulário e as formas linguísticas correspondessem naturalmente ao aramaico palestinense.
Entretanto, encontramos:
ܩܪܩܦܬܐ — Qarqap̄tā
como o termo siríaco para “Crânio”, enquanto o nome palestinense é apresentado separadamente como:
ܓܓܘܠܬܐ — Gāgūltā.
Assim, o próprio texto estabelece uma distinção entre o vocabulário siríaco utilizado pelo tradutor e o nome semítico que ele apresenta como “em hebraico”.