O ARAMAICO DA PESHITTA NÃO É O MESMO ARAMAICO DE YESHUA (1)
Introdução
Tem crescido, nos últimos anos, o número de judaizantes e defensores da chamada teoria da primazia semítica que sustentam que o Novo Testamento teria sido originalmente escrito em hebraico e/ou aramaico. Entre os argumentos apresentados está o fato de que a maioria dos escritores do Novo Testamento era de origem judaica e, principalmente, a alegação de que a Peshitta, escrita em aramaico-siríaco, não seria uma tradução, mas o próprio texto original do Novo Testamento.
Entretanto, uma afirmação dessa magnitude precisa ser examinada à luz das evidências linguísticas e textuais, e não simplesmente pressuposta a partir da identidade étnica dos autores ou da língua falada por Jesus e pelos primeiros discípulos.
O fato de Yeshua e seus contemporâneos falarem aramaico não significa, por si só, que o Novo Testamento tenha sido originalmente escrito em aramaico. Da mesma forma, o fato de existir uma antiga tradução siríaca do Novo Testamento não demonstra que ela seja o seu autógrafo original.
Por isso, nesta série vamos colocar a própria Peshitta sob análise, comparando seu aramaico-siríaco com o aramaico da Judeia e, sobretudo, examinando sua relação com o texto grego do Novo Testamento.
Nossa proposta não será simplesmente afirmar que a Peshitta é uma tradução. Vamos procurar as marcas linguísticas que permitam demonstrá-lo a partir do próprio texto.
E começaremos por uma questão fundamental:
O aramaico da Peshitta é realmente o mesmo aramaico que Yeshua falava?
A resposta deverá ser encontrada não em argumentos de autoridade, mas na própria evidência linguística.
Nesta série vamos investigar, através do próprio texto da Peshitta, uma questão importante: o aramaico da Peshitta é realmente o mesmo aramaico que era falado por Yeshua (Jesus) e seus contemporâneos na Judeia e na Galileia?
Nossa investigação será feita principalmente através da linguística comparativa, examinando escrita, vocabulário, morfologia, sintaxe e, sobretudo, as diferenças entre o aramaico judaico palestinense e o siríaco da Peshitta.
O argumento da série
Portanto, não queremos provar nossa tese apenas pela diferença dos alfabetos.A investigação seguirá várias camadas:
1. Escrita
Hebraico/aramaico judaico × escrita siríaca.
2. Fonologia
Diferenças de pronúncia e evolução dos sons.
3. Vocabulário
Palavras empregadas pela Peshitta que não correspondem necessariamente ao aramaico palestinense.
4. Morfologia
Formação de substantivos, verbos, pronomes e partículas.
5. Sintaxe
Construção das frases e ordem dos elementos.
6. Topônimos e antropônimos
Jerusalém, Betesda, Gólgota, Gabatá, Abadom etc.
7. Comparação com o grego
Especialmente nos lugares em que a Peshitta parece reproduzir construções características do texto grego.
É nessa última camada que poderemos testar seriamente a hipótese de que determinados elementos da Peshitta são resultado de tradução do grego, e não simplesmente características do aramaico falado por Yeshua.
1. Os alfabetos não são os mesmos
Primeiramente, é necessário observar que os sistemas de escrita são diferentes.
Aramaico/hebraico judaico
א ב ג ד ה ו ז ח ט י כ ל מ נ ס ע פ צ ק ר ש ת
Siríaco da Peshitta
ܐ ܒ ܓ ܕ ܗ ܘ ܙ ܚ ܛ ܝ ܟ ܠ ܡ ܢ ܣ ܥ ܦ ܨ ܩ ܪ ܫ ܬ
O alfabeto siríaco não é simplesmente o alfabeto hebraico quadrático utilizado nos manuscritos judaicos. Trata-se de uma tradição gráfica distinta, desenvolvida historicamente a partir da escrita aramaica de Edessa da Síria.
Entretanto, uma ressalva é necessária: alfabetos diferentes não significam necessariamente idiomas diferentes. Portanto, a diferença gráfica é apenas o primeiro elemento da investigação. A demonstração principal deverá vir da gramática e do vocabulário.
2. A Peshitta chama palavras aramaicas de “hebraico”
Um fenômeno particularmente interessante aparece no texto da Peshitta.
É compreensível que os escritores do Novo Testamento grego empreguem a expressão “em hebraico” para designar expressões que, linguisticamente, pertenciam ao ambiente aramaico judaico do período.
Isso ocorre, por exemplo, em:
- João 5:2
- João 19:13
- João 19:17
- João 19:20
- João 20:16
- Apocalipse 9:11
Mas surge uma questão:
Por que a Peshitta, escrita em siríaco, reproduz esse mesmo procedimento e chama de “hebraico” palavras que apresentam forma aramaica?
A hipótese que investigaremos nesta série é:
A Peshitta preserva, nesses lugares, a terminologia linguística do texto grego que está traduzindo.
Vejamos um exemplo.
3. Yōḥanan — João 5:2
O texto da Peshitta diz:
”ܐܝܼܬ݂ ܗ݈ܘܵܐ ܕܹ݁ܝܢ ܬ݁ܲܡܵܢ ܒ݁ܐܘܿܪܹܫܠܸܡ ܕ݁ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܚܕ݂ܵܐ ܕ݁ܡܲܥܡܘܿܕ݂ܝܼܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܒܹ݁ܝܬ݂ܚܸܣܕ݁ܵܐ ܘܐܝܼܬ݂ ܗ݈ܘܵܐ ܒ݁ܵܗ ܚܲܡܫܵܐ ܐܸܣܛܘܝܼܢ“ (João 5:2 PeshED+)
Transliteração
ʾīṯ hwā dēn tamān b-ʾŌrēšlem dukṯā ḥdā d-maʿmūḏīṯā d-mitqaryā ʿeḇrāyīṯ bēṯ-ḥesdā, w-ʾīṯ hwā bāh ḥamšā ʾesṭūyīn.
Tradução literal
“Havia, porém, ali em Jerusalém um lugar de banho/batismo que era chamado em hebraico Betesda, e havia nele cinco pórticos.”
A expressão que nos interessa é:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂
ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico / hebraicamente”
Observe o fenômeno:
o texto da Peshitta está escrito em siríaco, mas diz que o nome é chamado “em hebraico”.
Esse fenômeno merece investigação porque a forma linguística de ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ pertence ao próprio siríaco, enquanto sua referência é à língua hebraica.
4. Betesda
O nome aparece na Peshitta como:
ܒܹܝܬ݂ ܚܸܣܕ݁ܵܐ
Bēṯ ḥesdā
A expressão corresponde a aramaica:
בֵּית חֶסְדָּא
Bēṯ ḥesdāʾ
“Casa da Misericórdia.”
O elemento בֵּית / ܒܹܝܬ݂ significa “casa”, enquanto חֶסֶד / ܚܸܣܕ݁ܵܐ está relacionado ao conceito de “misericórdia, bondade, benevolência”.
Portanto, temos uma expressão de aparência claramente semítica e próxima às formações aramaicas/hebraicas.
Mas aqui está o ponto que deverá ser investigado:
Se o texto chama o nome de “hebraico”, por que a forma preservada na Peshitta apresenta características próprias do aramaico/siríaco?
5. O nome da Cidade Santa
Outro detalhe muito interessante aparece imediatamente no mesmo versículo acima.
O texto da Peshitta Oriental traz:
ܐܘܿܪܸܫܠܸܡ
ʾŌrešlem
enquanto a tradição siríaca ocidental apresenta:
ܐܽܘܪܺܫܠܶܡ
ʾūrīšlem
Comparemos com o hebraico bíblico:
יְרוּשָׁלַיִם
Yərūšālayim
“Jerusalém”.
Temos, portanto, uma diferença fonológica e morfológica interessante entre a forma hebraica e as formas encontradas no siríaco.
A questão não é simplesmente saber se um falante siríaco poderia pronunciar o nome “Jerusalém” dessa maneira. A questão é muito mais ampla:
Por que a tradição siríaca apresenta uma forma própria do nome, diferente da forma hebraica tradicional יְרוּשָׁלַיִם?
Esse será um dos elementos que examinaremos ao longo da série.
5. O Nome do Pórtico
João 19:13 — Gabatá
Continuando nossa investigação sobre o aramaico da Peshitta, chegamos agora a João 19:13, um texto particularmente interessante para demonstrar que o siríaco da Peshitta não deve ser simplesmente identificado com o aramaico judaico falado por Yeshua e seus contemporâneos.
Confira o texto:
”¹³ ܟ݁ܲܕ݂ ܫܡܲܥ ܕܹ݁ܝܢ ܦ݁ܝܼܠܲܛܘܿܣ ܗܵܕ݂ܹܐ ܡܸܠܬ݂ܵܐ ܐܲܦ݁ܩܹܗ ܠܝܼܫܘܿܥ ܠܒ݂ܲܪ ܘܝܼܬ݂ܸܒ݂ ܥܲܠ ܒ݁ܝܼܡ ܒ݁ܕ݂ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܪܨܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ ܕ݁ܟ݂ܹܐܦ݂ܹܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܦ݂ܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ“
(João 19:13 — PeshED+)
Transliteração acadêmica:
Kaḏ šəmaᶜ dēn Pīlāṭōs hāḏē mellṯā, appqēh ləYišōᶜ ləḇar, wīṯeḇ ᶜal bīm bəḏōkkəṯā dəmeṯqaryā reṣīp̄tā dəkēp̄ē ᶜeḇrāyīṯ dēn meṯamrā Gəp̄īp̄tā.
Transliteração simplificada:
Kadh sh'maʿ dēn Pīlāṭōs hādhē melthā, appqēh l-Yishōʿ l-var, w-īthev ʿal bīm b-dōkthā d-mithqaryā retsīpftā d-khēfē ʿevrāyīth dēn methamrā G'fīftā.
Obs.: ḇ (aspirado) = bh, v; ḏ (aspirado) = dh; p̄ (aspirado) = ph (f); š = sh; ṯ (aspirado) = th.
Tradução literal
“Mas, quando Pilatos ouviu essa palavra, trouxe Yeshua para fora e sentou-se no tribunal, no lugar que é chamado Pavimento de Pedras; em hebraico, porém, é chamado Gəpīp̄tā.”
Observe a expressão:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”
E imediatamente depois:
ܓ݁ܦ݂ܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ — Gəp̄īp̄tā
“Gabatá/Gfifta”
Aqui encontramos um detalhe linguístico extremamente importante.
O que o grego diz?
O texto grego de João 19:13 apresenta:
ὃ λέγεται Ἑβραϊστὶ Γαββαθᾶ
ho légεται Hebraïstì Gabbathá
“que é chamado em hebraico Gabatá.”
Temos, portanto:
Ἑβραϊστί — Hebraïstí
“em hebraico”
Γαββαθᾶ — Gabbathá
“Gabatá”
A Peshitta conserva a mesma estrutura:
ܥܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”
seguido de:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ — Gəpīp̄tā
A questão linguística
O nome relacionado ao grego Γαββαθᾶ (Gabbathá) corresponde a uma forma aramaica judaica tradicionalmente reconstruída como:
גַּבְּתָא
Gabbəṯā / Gabthā
Entretanto, observe o que acontece na Peshitta.
Em vez de simplesmente conservar a forma judaica גבתא, encontramos:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
Gəp̄īp̄tā
Ou seja, o tradutor siríaco transmite o nome segundo o sistema fonológico e morfológico do siríaco, e não do aramaico judaico.
Temos, portanto, uma diferença significativa:
Aramaico judaico:
גבתא
Gabbəṯā
Grego:
Γαββαθᾶ
Gabbathá
Peshitta:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
Gəpīp̄tā
Não estamos simplesmente diante de uma diferença de alfabeto. A forma do vocábulo sofreu uma adaptação linguística ao sistema siríaco.
E surge uma pergunta importante
Se a Peshitta fosse simplesmente o mesmo aramaico falado por Yeshua e seus contemporâneos, por que encontramos uma forma siríaca como:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ — Gəpīp̄tā
em vez de simplesmente preservar a forma judaica:
גבתא — Gabbəṯā?
Esse é precisamente o tipo de evidência que devemos examinar ao longo desta série.
Não estamos afirmando que o siríaco e o aramaico judaico sejam línguas sem qualquer relação. Pelo contrário: ambos pertencem à grande família das línguas aramaicas.
A questão é outra:
São exatamente a mesma variedade de aramaico?
João 19:13 indica que a resposta é não.
A questão fica ainda mais interessante
O texto da Peshitta diz que ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ (Gəpīp̄tā) é chamado:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂
ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”.
Portanto, temos um fenômeno muito interessante:
Texto grego:
“em hebraico” → Γαββαθᾶ
Peshitta:
“em hebraico” → ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
O tradutor siríaco está transmitindo para seu próprio sistema linguístico um nome semítico associado ao ambiente judaico.
Isso é perfeitamente compatível com a tese de que estamos diante de uma tradução siríaca de um texto grego que já continha termos semíticos judaicos.
Conclusão
João 19:13 nos fornece uma importante peça para nossa investigação.
A Peshitta:
- está escrita em siríaco;
- emprega ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ (ʿeḇrāyīṯ) para “em hebraico”;
- reproduz o nome aramaico-judaico Gabatá através da forma siríaca ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ (Gəpīp̄tā);
- não simplesmente preserva a forma aramaica judaica גבתא (Gabbəṯā).
Portanto, João 19:13 constitui mais uma evidência de que não devemos identificar automaticamente o aramaico-siríaco da Peshitta com o aramaico judaico falado por Yeshua.
E ainda há outros textos muito mais reveladores.
6. O LUGAR DA CRUCIFICAÇÃO
João 19:17 — Calvário / Gólgota
Continuando nossa investigação sobre o aramaico da Peshitta, chegamos agora a João 19:17.
Este versículo é particularmente importante porque apresenta novamente a fórmula “em hebraico”, mas agora podemos observar com clareza a diferença entre o vocabulário siríaco empregado pela Peshitta e o nome semítico judaico transmitido pelo texto.
Confira:
”ܟ݁ܲܕ݂ ܫܩܝܼܠ ܙܩܝܼܦ݂ܹܗ ܠܕ݂ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ“
(João 19:17 — PeshED+)
Transliteração acadêmica:
Kaḏ šəqīl zəqīpēh ləḏōkkəṯā dəmiṯqaryā Qarqap̄ṯā, ʿeḇrāyīṯ dēn meṯʾamrā Gāgōltā.
Transliteração simplificada:
Kadh shqīl zəqīpēh l-dōkthā dəmithqaryā Qarqapfthā, ʿevrāyīth dēn methʾamrā Gāgōltā.
Tradução literal
“E, levando a sua cruz, foi para o lugar que é chamado Crânio; em hebraico, porém, é chamado Gāgūltā.”
Observe novamente a expressão:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”
E depois:
ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ — Gāgūltā
“Gólgota”
O “Crânio” em siríaco
Antes de apresentar o nome “Gólgota”, a Peshitta utiliza:
ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ
Qarqapfthā
“Crânio” / “lugar do crânio”
Essa é uma forma pertencente ao vocabulário siríaco.
A raiz está relacionada ao conceito de crânio, cabeça, e encontramos formas cognatas nas demais línguas aramaicas.
Portanto:
Peshitta: ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ — Qarqapfthā
“Crânio”
Mas o versículo continua:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ
ʿeḇrāyīṯ dēn methʾamrā
“mas em hebraico é chamado...”
E então aparece:
ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ
Gāgōltā
“Gólgota”
Compare as formas
Aqui está o ponto que queremos observar:
Siríaco da Peshitta:
ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ
Qarqafthā
“Crânio”
Forma aramaico-judaica:
גָּלְגֹּתָּא
Galgôtā / Golgôtā
“Gólgota”
Grego:
Γολγοθᾶ
Golgothá
“Gólgota”
Temos, portanto, três formas linguísticas relacionadas, mas não idênticas.
Grego → Γολγοθᾶ (Golgothá)
Aramaico judaico → גָּלְגֹּתָּא (Galgôtā)
Peshitta → ܓܵܓܘܿܠܬܵܐ (Gāgōltā)
E o detalhe mais importante é que a Peshitta utiliza seu próprio vocabulário siríaco para traduzir o significado:
ܩܪܩܦܬܐ — Qarqap̄tā
“Crânio”
e depois preserva/adapta o nome:
ܓܓܘܠܬܐ — Gāgōltā
“Gógolta”
O que isso demonstra?
Mais uma vez encontramos a mesma estrutura que observamos em João 19:13.
O grego apresenta:
“o lugar chamado Crânio, que em hebraico é chamado Gólgota.”
E a Peshitta reproduz essa estrutura:
“o lugar chamado Crânio, mas em hebraico é chamado Gāgūltā.”
Isso é extremamente significativo.
Se o texto da Peshitta fosse simplesmente o próprio aramaico judaico de Yeshua, esperaríamos que o vocabulário e as formas linguísticas correspondessem naturalmente ao aramaico judaico.
Entretanto, encontramos:
ܩܪܩܦܬܐ — Qarqap̄tā
como o termo siríaco para “Crânio”, enquanto o nome judaico é apresentado separadamente como:
ܓܓܘܠܬܐ — Gāgūltā.
Assim, o próprio texto estabelece uma distinção entre o vocabulário siríaco utilizado pelo tradutor e o nome semítico que ele apresenta como “em hebraico”.
João 19:17 — comparação com as versões hebraicas
1. Hebraico moderno — MHB (1976/1991)
וּכְשֶׁהוּא נוֹשֵׂא אֶת צְלָבוֹ יָצָא אֶל הַמָּקוֹם הַנִּקְרָא גָּלְגֹּתָּא, כְּלוֹמַר מְקוֹם הַגֻּלְגֹּלֶת׃
U-khešehū nōśē ʾet-ṣlavō yāṣā ʾel ha-māqōm ha-niqrāʾ Gālgōttā, kelōmar məqōm ha-gulgōlet.
Literalmente:
“E, quando ele carregava sua cruz, saiu para o lugar chamado Gālgōttā, isto é, lugar do crânio.”
Aqui encontramos algo interessante.
O tradutor moderno não reproduz a construção “em hebraico”, o que é lógico, pois o texto está em hebraico. Em vez disso, ele utiliza:
כְּלוֹמַר — kelōmar
“isto é”, “quer dizer”.
Assim, o tradutor interpreta Γολγοθᾶ e explica o significado:
מְקוֹם הַגֻּלְגֹּלֶת
məqōm ha-gulgōlet
“lugar do crânio.”
2. Delitzsch — 1877/1998
A tradução de Franz Delitzsch é muito mais interessante para nossa investigação:
וַיִּשָּׂא אֶת־צְלוּבוֹ וַיֵּצֵא אֶל־הַמָּקוֹם הַנִּקְרָא מְקוֹם הַגֻּלְגֹּלֶת וּבִלְשׁוֹנָם גָּלְגָּלְתָּא׃
Vayyiśśā ʾet-ṣlūvō vayēṣēʾ ʾel-ha-māqōm ha-niqrāʾ məqōm ha-gulgōlet, u-vilšōnām Gālgaltā.
Literalmente:
“E levou a sua cruz e saiu para o lugar chamado lugar do crânio, e na língua deles, Gālgaltā.”
Aqui temos uma escolha tradutória muito significativa:
וּבִלְשׁוֹנָם
u-vilšōnām
“e na língua deles”
Delitzsch não traduz simplesmente como “em hebraico”.
Ele utiliza לָשׁוֹן — lāšōn, “língua/idioma”, com o sufixo plural:
לְשׁוֹנָם — lišōnām
“a língua deles / na língua deles”.
Isso é importante porque Delitzsch está conscientemente reproduzindo a ideia de que Γολγοθᾶ é uma expressão pertencente à língua dos judeus, sem necessariamente identificar essa língua como hebraico bíblico.
3. Agora comparemos com a Peshitta
A Peshitta:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ
ʿeḇrāyīṯ dēn metʾamrā Gāgūltā
“mas em hebraico é chamado Gāgūltā.”
Compare:
Grego
Ἑβραϊστὶ ... Γολγοθᾶ
Hebraïstì ... Golgothá
“em hebraico ... Gólgota”
Peshitta
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ... ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ
ʿeḇrāyīṯ ... Gāgūltā
“em hebraico ... Gāgūltā”
Delitzsch
וּבִלְשׁוֹנָם ... גָּלְגָּלְתָּא
u-vilšōnām ... Gālgaltā
“na língua deles ... Gālgaltā”
Aqui temos uma diferença extremamente instrutiva.
5. Uma observação ainda mais importante
Há uma pequena observação em relação ao termo גֻּלְגָּלְתָּא (Gulgaltā) e “Gólgota”.
É melhor distinguir:
גֻּלְגֹּלֶת
gulgōlet
“crânio”, em hebraico
de
גָּלְגָּלְתָּא
Gālgaltā
a forma aramaica/siríaca do nome tradicionalmente transliterado como Gólgota.
Isso evita confundir o substantivo comum “crânio” com o topônimo Gólgota.
E é exatamente isso que João faz:
“o lugar chamado Crânio ... Gólgota.”
Ou seja, primeiro apresenta o significado e depois o nome.
6. O resultado para nossa investigação
João 19:17 está ficando ainda mais interessante.
Temos:
Grego:
Ἑβραϊστί → Γολγοθᾶ
“em hebraico → Gólgota”
Peshitta:
ܥܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ → ܓܓܘܠܬܐ
“em hebraico → Gāgūltā”
Delitzsch:
וּבִלְשׁוֹנָם → גָּלְגָּלְתָּא
“na língua deles → Gālgaltā”
A comparação é muito sugestiva:
A Peshitta preserva a categoria “em hebraico”, enquanto uma tradução hebraica posterior como a de Delitzsch pode expressar a mesma ideia de maneira mais linguisticamente neutra: “na língua deles”.
Isso não prova, isoladamente, que a Peshitta seja uma tradução do grego. Mas torna a hipótese muito mais interessante, porque a Peshitta não parece estar simplesmente reproduzindo um texto originalmente aramaico palestinense; ela reproduz uma construção que corresponde diretamente à formulação grega.
E agora temos um excelente gancho para João 19:20, onde a situação ficará ainda mais difícil para a teoria da primazia siríaca:
“em hebraico, em grego e em latim.”
Ali poderemos perguntar:
Como um suposto Novo Testamento originalmente aramaico explicaria a maneira como a Peshitta apresenta essas três línguas?
7. Yōḥanan (João) 20:16 — “Rabuli”: uma palavra “em hebraico” explicada pela Peshitta
Chegamos a mais uma passagem particularmente interessante para nossa investigação sobre a natureza linguística da Peshitta. Em João 20:16 encontramos novamente a expressão “em hebraico”, seguida de uma palavra que a própria Peshitta precisa interpretar para seu leitor.
1. O texto da Peshitta
”¹⁶ ܐܵܡܲܪ ܠܵܗ ܝܼܫܘܿܥ ܡܲܪܝܲܡ ܘܸܐܬ݂ܦ݁ܲܢܝܲܬ݂ ܘܵܐܡܪܵܐ ܠܹܗ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܪܲܒ݁ܘܿܠܝܼ ܕ݁ܡܸܬ݂ܸܐܡܲܪ ܡܲܠܦ݂ܵܢܵܐ“ (João 20:16 PeshED+)
Transliteração
Āmar lāh Yīshōʿ: Maryam, weʾettpanīyath w-āmrā leh ʿebrāyīth: Rabbolī, d-metheʾmar Malpānā.
Tradução literal
“Yisho lhe disse: ‘Mariam!’ E ela se voltou e lhe disse, em hebraico: ‘Rabboli’, que é dito/interpretado ‘Mestre’.”
Releia: “Ela se voltou e lhe disse, em hebraico: “Rabuli” ( ܪܲܒܘܼܠܝ ), que quer dizer: “Mestre” (ܡܲܠܦܵܢܵܐ = malpānā’).
Ora, רַבּוּנִי (Rabbuni) ou רבּוֹנִי (Rabboni) é a palavra aramaica equivalente à hebraica רַבִּי (Rabbi), mas o tradutor da Peshitta a translitera para o seu idioma siriaco como "Rabulli" (trocando o Nun [N] pelo Lamad [L]) mas, por ser uma palavra que não faz o menor sentido em seu idioma Aramaico-siríaco, mas fazia na língua aramaica de Yeshua, ele a traduz para o seu idioma: "Malfono" (conforme pronúncia do siríaco ocidental) ou "Malpana" (siríaco oriental).
O texto contém três elementos fundamentais:
- ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ = “em hebraico”
- ܪܲܒܘܼܠܝ — Rabūlī = “Rabuli”
- ܡܲܠܦܵܢܵܐ — Malpānā = “mestre, instrutor”
2. A forma “Rabuli”
A palavra ܪܲܒܘܼܠܝ é particularmente interessante. Ela corresponde à forma que encontramos no texto grego de João:
Ῥαββουνί — Rhabbouní
No ambiente semítico, encontramos a conhecida forma:
רַבּוּנִי — Rabbūnī / רַבּוֹנִי — Rabbonī
Trata-se de uma forma relacionada ao hebraico רַבִּי — Rabbī, “meu mestre”, “meu rabino”, apresentando a característica forma ampliada -ūnī / -ōnī.
A Peshitta, entretanto, apresenta:
ܪܲܒܘܼܠܝ — Rabūlī
Aqui encontramos uma diferença significativa: a forma siríaca apresenta ܠ — lamad, enquanto as formas semíticas normalmente associadas a Rabbūnī / Rabbonī apresentam נ — nun.
Por isso, metodologicamente, é melhor não dizer simplesmente que o tradutor “trocou o Nun pelo Lamad”. O mais seguro é afirmar que ܪܲܒܘܼܠܝ representa uma adaptação/transmissão siríaca do vocábulo semítico conservado na tradição textual.
3. O detalhe decisivo: a Peshitta traduz a palavra
Entretanto, existe um detalhe ainda mais importante.
Depois de apresentar ܪܲܒܘܼܠܝ — Rabūlī, a Peshitta acrescenta:
ܕ݁ܡܸܬ݂ܦܲܫܲܩ ܡܲܠܦܵܢܵܐ
d-metpaššaq Malpānā
Literalmente:
“que é interpretado: Mestre.”
O verbo ܡܸܬ݂ܦܲܫܲܩ pertence à raiz relacionada ao ato de interpretar, explicar ou traduzir. Portanto, o leitor da Peshitta recebe primeiro o termo ܪܲܒܘܼܠܝ e, em seguida, uma explicação do seu significado por meio de ܡܲܠܦܵܢܵܐ.
4. “Mestre” em siríaco
A palavra utilizada para explicar Rabuli é:
ܡܲܠܦܵܢܵܐ — Malpānā
Na pronúncia tradicional do siríaco oriental, Malpānā; no siríaco ocidental, Malphōnō.
O termo está relacionado à raiz siríaca ܐܠܦ, ligada à ideia de ensinar, instruir. Portanto, ܡܲܠܦܵܢܵܐ é um termo perfeitamente compreensível para o leitor siríaco e funciona como uma explicação semântica de ܪܲܒܘܼܠܝ.
5. Compare as formas
| Tradição | Forma | Sentido |
|---|---|---|
| Hebraico | רַבִּי — Rabbī | Meu mestre / meu rabino |
| Aramaico | רַבּוּנִי / רַבּוֹנִי — Rabbūnī / Rabbonī | Meu mestre |
| Grego | Ῥαββουνί — Rhabbouní | Rabuni / meu mestre |
| Peshitta | ܪܲܒܘܼܠܝ — Rabūlī | Termo explicado como “Mestre” |
| Siríaco | ܡܲܠܦܵܢܵܐ — Malpānā / Malphōnō | Mestre / instrutor |
6. O que isso demonstra?
O ponto mais importante não é simplesmente a diferença entre Nun e Lamad. O dado mais significativo está na estrutura da frase.
A Peshitta diz que Maria falou “em hebraico” e apresenta então ܪܲܒܘܼܠܝ. Em seguida, precisa explicar ao leitor siríaco o significado desse termo:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ → ܪܲܒܘܼܠܝ → ܡܸܬ݂ܦܲܫܲܩ → ܡܲܠܦܵܢܵܐ
Isto é:
“em hebraico” → “Rabuli” → “que é interpretado” → “Mestre”.
Portanto, temos novamente na Peshitta uma distinção entre a língua que o texto identifica como “hebraico” e a língua siríaca na qual o texto está sendo transmitido ao leitor.
7. João 20:16 dentro do padrão do Evangelho
João 20:16 não deve ser analisado isoladamente. O Evangelho de João apresenta repetidamente a expressão “em hebraico” quando introduz determinados nomes ou expressões:
- João 5:2 — ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — “em hebraico”
- João 19:13 — ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — “em hebraico”
- João 19:17 — ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — “em hebraico”
- João 19:20 — ܥܸܒ݂ܪܳܐܝܺܬ݂ — “em hebraico”
- João 20:16 — ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — “em hebraico”
Assim, João 20:16 acrescenta mais uma peça ao conjunto de evidências que estamos examinando. Não estamos diante de uma ocorrência isolada, mas de uma fórmula recorrente na tradição textual siríaca do Evangelho.
8. Uma observação fundamental sobre a Peshitta
Se a Peshitta fosse simplesmente o registro direto da fala original de Yeshua e de seus contemporâneos em aramaico palestino, esperaríamos que esses elementos linguísticos fossem apresentados de maneira natural para uma comunidade que falasse a mesma língua.
Entretanto, o texto siríaco apresenta uma fórmula explicativa: “em hebraico... que é interpretado...”. Isso mostra que o tradutor ou transmissor siríaco está preocupado em explicar ao seu leitor o significado de um termo preservado de uma tradição linguística anterior.
Esse fenômeno é especialmente significativo quando considerado juntamente com os demais exemplos encontrados no Evangelho de João.
9. Conclusão
João 20:16 apresenta um fenômeno linguístico que merece atenção:
ܪܲܒܘܼܠܝ — Rabūlī
é introduzido como uma expressão dita “em hebraico” e imediatamente interpretado para o leitor siríaco por:
ܡܲܠܦܵܢܵܐ — Malpānā / Malphōnō
Portanto, o texto não se comporta simplesmente como uma transcrição direta da fala palestina de Maria. Ele apresenta sinais de transmissão, adaptação e explicação linguística para um público siríaco.
É justamente esse tipo de evidência que precisa ser levado em consideração quando se afirma que a Peshitta seria o próprio texto original do Novo Testamento. A questão não pode ser decidida apenas por argumentos teológicos ou tradicionais; deve ser investigada também por meio da linguística, da morfologia, da sintaxe e da crítica textual.
E há ainda um detalhe particularmente interessante: o verbo ܡܸܬ݂ܦܲܫܲܩ, “é interpretado / é explicado / é traduzido”. Esse verbo merece uma análise própria, pois ele pode nos ajudar a compreender melhor como a tradição siríaca trabalha com termos provenientes de outra língua.
Essa será a próxima etapa da investigação.
Finalizando:
8. Vejamos Guilyana (Apocalipse) 9:11 como foi traduzido na Peshitta:
“E eles tinham um rei sobre si, o anjo do abismo; e seu nome, em hebraico é Abaddu; e em Aramayit, seu nome é Share' (ܫܵܪܹܐ = despedido, solto, tirado, lançado).”
Pelo fato de a palavra siríaca SHARE não fazer o menor sentido no contexto, os principais tradutores da Peshitta para o inglês readaptaram a última parte tendo como base o grego:
John W. Etheridge (1849): “…but in Javanith his name is Apolon.” (“Javanith” é a forma siríaca adaptada de Yavanith para "grego");
James Murdock (1851): “…and in Greek, his name is Apollyon.”;
George M. Lamsa (1933): “...but in Greek his name is A-pollyon.”;
Somente a Janet Magiera (2006) preservou a mensagem como está escrita em siríaco: <<...and in Aramaic, his name is "Breaker." >> (Da mesma forma a tradução holandesa de Egbert Nierop e em afrikâner de Pad van Waarheid.
A palavra hebraica אֲבַדּוֹן, ('ǎḇhaddōn) significa; “destruição”, “ruína” ou “lugar de destruição”, e, substantivada: “o destruidor”, tendo afinidades com o copta ABBATON, e tendo o mesmo significado a palavra grega Απολλυων (APOLLIŌN). No Antigo Testamento há somente cinco ocorrências nos livros poéticos: Jó 26:6; 28:22; 31:12; Salmo 88:11 e Prevérbios 15:11.
Agora a pergunta: como a Peshitta, a exemplo do grego, chama de “hebraico” às palavras aramaicas nestes textos se são palavras aramaicas? Resposta: Por ser uma tradução livre do grego.
É compreensível os escritores do NT grego chamarem de “hebraico” às palavras aramaicas, por ter sido o idioma usado pelos judeus da época que chamavam o “seu aramaico” de “hebraico” (Yuhhanan [João] 5:2; 19:13; 19:17, 20; 20:16; Guilyana {Apoc.} 9:11), mas é meio estranho a Peshitta também chamar de “hebraico” às palavras aramaicas nestes textos citados!
Além do mais, se o NT tivesse sido escrito originalmente em hebraico não faria também sentido um texto escrito em hebraico dizer que tais e tais palavras significam tal e tal em hebraico! É o mesmo que dizer em português: “Eu sentei no sofá (que em português significa "estofado").” “Eu ganhei um automóvel (que em português significa "carro").”
Porque explicar uma palavra que não resta dúvidas em português e dizer que é assim que se chama neste idioma?
Então qual a base para a nova tese de que o Novo Testamento foi escrito em aramaico ou mesmo em hebraico?
O principal argumento é que os escritores do NT foram judeus escrevendo para judeus, logo, teriam que escrever no idioma dos mesmos. Embora haja lógica nesta tese, não condiz com a realidade, pelo este motivo principal: as boas novas de Yeshua por ter uma mensagem universal, não poderiam ter sido escritas em aramaico, pois este idioma há séculos deixou de ser uma língua universal sendo suplantada pela língua grega que continuou a ser um idioma internacional falado em todo o império romano que substituiu o império grego, mas não conseguiu suplantar sua cultura e seu idioma. A Peshitta foi escrita em siríaco (um dialeto do aramaico) e o seu tipo de letras não era usado pelos judeus do tempo do Novo Testamento, e muito menos pelos escritores do mesmo e como se pode ver nos argumentos acima.
Ao pesquisar sobre a Peshitta, encontrei no site “Ensinando de Sião”, judaico-messiânico, algo que corrobora o que tenho escrito sobre a Peshitta:
http://www.ensinandodesiao.org.br/pdf/peshita.pdf
Vide também:
http://biblicvs.carissimus.com/Trb/BibliaLamsa.htm = “Muitos eruditos sustentam que as fontes do novo testamento e as tradições orais dos primeiros cristãos estavam em aramaico, entretanto a Peshitta parece ter sido influenciada pela leitura bizantina da tradição grega do manuscrito e está em um dialeto Sírio que é muito mais novo do que aquele que era contemporâneo a Jesus.”
Outros:
http://simceros.ning.com/profiles/blogs/como-a-peshitta-chegou-ate-nos
http://www.olharreformado.com/2010/12/primazia-aramaica-verdadeiro-nome-de.html
http://solascriptura-tt.org/Bibliologia-Traducoes/1asTraducoesSustentamTR-Helio.htm
8. Guilyana (Apocalipse) 9:11 — “Hebraico”, “Aramaico” e a tradução siríaca
Chegamos agora a uma passagem particularmente importante para nossa investigação. Depois de examinarmos João 5:2; 19:13; 19:17; 19:20 e 20:16, encontramos outro exemplo interessante na tradição textual siríaca de Apocalipse 9:11.
Antes, porém, precisamos fazer uma importante precisão histórica: Apocalipse não fazia parte da Peshitta original do Novo Testamento. A Peshitta tradicional continha 22 livros do Novo Testamento, não incluindo 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. Esses cinco livros foram incorporados posteriormente nas tradições siríacas, inicialmente na versão Philoxeniana e, posteriormente, na revisão Harkleana. 1
Portanto, quando tratarmos de Apocalipse 9:11, estaremos falando de uma tradição siríaca posterior, e não do núcleo original da Peshitta. Essa distinção é fundamental para uma investigação historicamente rigorosa.
O texto grego
O texto grego de Apocalipse 9:11 apresenta uma oposição linguística bastante clara:
ὄνομα αὐτῷ Ἑβραϊστὶ Ἀβαδδών καὶ ἐν τῇ Ἑλληνικῇ ὄνομα ἔχει Ἀπολλύων
ónoma autō̂ Hebraïstì Abaddṓn kai en tē̂ Hellēnikē̂ ónoma ékhei Apollýōn
Literalmente:
“Seu nome em hebraico é Abaddon, e em grego tem o nome Apollyon.”
O grego, portanto, estabelece explicitamente duas formas linguísticas:
Ἑλληνικῇ → Ἀπολλύων
“em grego → Apollyon”
Essa distinção é importante porque Ἀπολλύων está relacionado ao verbo grego ἀπόλλυμι, “destruir”, “fazer perecer”, “arruinar”. Assim, Apollyon funciona como uma forma grega semanticamente correspondente a Abaddon.
Abaddon no hebraico bíblico
O nome אֲבַדּוֹן — ʾĂḇaddōn, ʾĂvaddōn — está relacionado à raiz hebraica אבד, que transmite a ideia de perecer, destruir ou ser destruído.
O substantivo אֲבַדּוֹן pode designar “destruição”, “ruína” ou “lugar de destruição”. No contexto de Apocalipse 9:11, o nome passa a funcionar como designação pessoal do anjo do abismo.
No Antigo Testamento, Abaddon ocorre cinco vezes: Jó 26:6; Jó 28:22; Jó 31:12; Salmo 88:11 e Provérbios 15:11.
A forma siríaca
Na tradição textual siríaca encontremos:
”¹¹ ܘܐܝܼܬ݂ ܥܠܲܝܗܘܿܢ ܡܲܠܟ݁ܵܐ ܡܲܠܲܐܟ݂ܹܗ ܕ݁ܲܬ݂ܗܘܿܡܵܐ ܕ݁ܲܫܡܹܗ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܥܲܒ݂ܲܕ݁ܘܿ ܘܲܐܪܡܵܐܝܼܬ݂ ܫܡܵܐ ܠܹܗ ܐܝܼܬ݂ ܫܵܪܹܐ“ (Revelação 9:11 PeshED+)
Segmentação:
ܘܐܝܼܬ݂ ܥܠܲܝܗܘܿܢ ܡܲܠܟ݁ܵܐ
W-ʾīṯ ᶜəlayhon malkā
“E havia sobre eles um rei”
ܡܲܠܲܐܟ݂ܹܗ ܕ݁ܲܬ݂ܗܘܿܡܵܐ
malʾakēh da-ṯəhōmā
“o seu anjo do abismo”
ܕ݁ܲܫܡܹܗ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܥܲܒ݂ܲܕ݁ܘܿ
dashmēh ʿevrāyīṯ ʿăvaddō
“cujo nome, em hebraico, é Abaddō”
ܘܲܐܪܡܵܐܝܼܬ݂ ܫܡܵܐ ܠܹܗ ܐܝܼܬ݂ ܫܵܪܹܐ
w-Armāyīṯ shmā leh ʾīṯ Shārē
“e em aramaico, há para ele o nome Share.”
Observação
A frase fica particularmente interessante:
ܥܒܪܐܝܬ ܥܒܕܘ
ʿeḇrāyīṯ ʿăḇaddū
“em hebraico, Abaddu”
Versus
ܘܐܪܡܐܝܬ ... ܫܪܐ
w-Aramāyīṯ ... Šārē
“e em aramaico ... Šārē”
Ou seja, por não fazer parte originalmente da Peshitta, o próprio texto siríaco faz uma distinção explícita entre “hebraico” e “aramaico”. Esse é justamente o ponto que merece entrar com destaque na nossa análise de Apocalipse 9:11.
Logo, aqui temos um fenômeno particularmente interessante. O texto siríaco não apresenta simplesmente o nome grego Ἀπολλύων — Apollyōn. Em seu lugar aparece ܫܵܪܹܐ — Šārē/Shārē, termo siríaco relacionado ao campo semântico de soltar, libertar, deixar ir, despedir ou remover.
Assim, a tradição siríaca estabelece uma correspondência semântica própria para o nome, em vez de simplesmente reproduzir a forma grega Apollyon.
“Shārē” ou “Apollyon”?
É justamente aqui que encontramos um detalhe textual interessante. Algumas traduções inglesas da tradição siríaca não preservam simplesmente a forma Shārē. Em vez disso, apresentam novamente Apollyon, acompanhando o texto grego.
Entre as traduções históricas frequentemente citadas encontram-se:
- John W. Etheridge (1849): “...but in Javanith his name is Apolon.”
- James Murdock (1851): “...and in Greek, his name is Apollyon.”
- George M. Lamsa (1933): “...but in Greek his name is A-pollyon.”
- Janet Magiera (2006): preserva a leitura siríaca traduzindo a última parte como “in Aramaic, his name is ‘Breaker’” (Em aramaico, seu nome é 'Rompedor'.
O contraste é significativo: quando uma tradução inglesa apresenta Apollyon, ela está tornando a passagem siríaca compatível com a forma encontrada no grego. Quando preserva Breaker, está traduzindo o sentido do vocábulo siríaco Shārē.
Uma questão ainda mais importante: “em hebraico”
Agora chegamos ao ponto central de nossa investigação.
O texto siríaco apresenta a expressão:
ܥܒܪܐܝܬ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”.
E imediatamente apresenta:
ܥܒܕܘ — ʿăḇaddū
uma forma siríaca correspondente ao nome Abaddon.
Depois, o texto introduz:
ܐܪܡܐܝܬ — Aramāyīṯ
“em aramaico”.
E então apresenta:
ܫܵܪܹܐ — Shārē
Portanto, a própria tradição siríaca faz uma distinção entre “hebraico” e “aramaico”.
A pergunta inevitável
Isso nos leva à pergunta que orienta toda esta investigação:
Se determinadas palavras são aramaicas, por que os textos anteriores as apresenta como “hebraico”?
No texto grego do Novo Testamento, essa maneira de falar é perfeitamente compreensível dentro do contexto histórico judaico do século I. O termo grego Ἑβραϊστί — Hebraïstí podia funcionar como uma designação da linguagem judaica, mesmo quando a expressão transmitida apresentava características aramaicas.
Isso explica por que encontramos no Evangelho de João:
- João 5:2 — “em hebraico”
- João 19:13 — “em hebraico”
- João 19:17 — “em hebraico”
- João 19:20 — “em hebraico”
- João 20:16 — “em hebraico”
Mas quando encontramos a mesma fórmula em uma tradução siríaca, surge uma questão adicional: por que uma tradução escrita em siríaco continua reproduzindo a distinção linguística “em hebraico”?
O mesmo fenômeno em João 20:16
O exemplo que acabamos de analisar é particularmente esclarecedor:
ܐܵܡܲܪ ܠܵܗ ܝܼܫܘܿܥ ܡܲܪܝܲܡ ܘܸܐܬ݂ܦ݁ܲܢܝܲܬ݂ ܘܵܐܡܪܵܐ ܠܹܗ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܪܲܒ݁ܘܿܠܝܼ ܕ݁ܡܸܬ݂ܸܐܡܲܪ ܡܲܠܦ݂ܵܢܵܐ
Āmar lāh Yīšōʿ Maryam, weʾetpanīyat w-āmrā leh ʿeḇrāyīṯ Rabbolī, d-metʾemar Malpānā.
Literalmente:
“Jesus lhe disse: ‘Maria!’ E ela se voltou e lhe disse em hebraico: ‘Rabboli’, que é dito/interpretado ‘Mestre’.”
Aqui temos novamente a sequência:
“em hebraico” → termo semítico → interpretação em siríaco.
O mesmo padrão aparece em diferentes passagens e merece ser explicado por uma teoria de transmissão textual.
Se o Novo Testamento tivesse sido escrito originalmente em hebraico...
Existe ainda uma questão lógica que merece consideração.
Se um documento tivesse sido originalmente escrito em hebraico e seu autor estivesse simplesmente escrevendo em hebraico para leitores que conhecessem hebraico, seria necessário explicar repetidamente que determinadas palavras são “em hebraico”?
Imagine alguém escrevendo em português:
“Eu sentei no sofá, que em português significa ‘estofado’.”
Ou:
“Eu ganhei um automóvel, que em português significa ‘carro’.”
Evidentemente, isso seria uma construção bastante estranha se tanto o autor quanto seus leitores estivessem utilizando normalmente o português.
Da mesma maneira, quando um texto apresenta uma palavra e imediatamente informa que ela significa determinada coisa “em hebraico”, isso pode funcionar como uma indicação de que o autor está transmitindo uma expressão que precisa ser identificada linguisticamente para seus leitores.
Mas isso prova sozinho que a Peshitta foi traduzida do grego?
Aqui precisamos ser cuidadosos.
Uma única passagem não é suficiente para demonstrar que toda a Peshitta foi traduzida do grego. Uma comunidade siríaca poderia, em princípio, utilizar expressões tradicionais como “em hebraico” independentemente do grego.
O argumento se torna muito mais significativo quando observamos o conjunto das evidências: a Peshitta reproduz repetidamente fórmulas linguísticas correspondentes às do texto grego, adapta nomes e expressões à sua própria morfologia e fonologia e, em diversos casos, fornece explicações semânticas ao leitor siríaco.
Além disso, a investigação textual moderna reconhece que o Novo Testamento da Peshitta está intimamente relacionado à tradição grega e que seus Evangelhos frequentemente apresentam afinidades com o texto bizantino. Isso não significa que cada leitura da Peshitta seja uma cópia mecânica de um único manuscrito grego; o texto siríaco possui também leituras próprias e elementos herdados das antigas tradições siríacas. 2
“Os escritores eram judeus; portanto, tinham que escrever em aramaico ou hebraico”
Esse é um dos principais argumentos utilizados pelos defensores da chamada primazia aramaica: os escritores do Novo Testamento eram judeus e escreviam para comunidades inicialmente compostas por judeus; portanto, o Novo Testamento teria necessariamente sido escrito em aramaico ou hebraico.
O argumento possui uma certa plausibilidade inicial, mas não é suficiente para estabelecer a língua original dos documentos.
O cristianismo do século I surgiu dentro de um ambiente multilíngue. O aramaico tinha enorme importância no ambiente judaico, mas o grego continuava sendo uma língua internacional de comunicação no Mediterrâneo oriental e no mundo romano.
Por isso, ser judeu não implica automaticamente escrever em hebraico ou aramaico. A língua de composição de um documento depende também do público, da região, da finalidade literária e das redes de comunicação utilizadas pelo autor.
A Peshitta e o siríaco
Outro ponto frequentemente ignorado é que siríaco não é simplesmente “o aramaico de Jesus”. O siríaco é uma variedade literária do aramaico oriental que desenvolveu uma tradição escrita própria em Edessa e posteriormente se tornou a principal língua literária do cristianismo siríaco.
Portanto, embora o siríaco pertença à família aramaica e compartilhe muitas características com outras variedades aramaicas, não podemos simplesmente transportar uma forma siríaca para a Palestina do século I e afirmar que ela representa literalmente a maneira como Yeshua falou.
A própria história das versões siríacas demonstra uma relação complexa com o texto grego. A tradição acadêmica considera o Novo Testamento da Peshitta uma tradução siríaca do grego, normalmente situada no início do século V, embora a história textual seja mais complexa e conserve elementos de tradições siríacas anteriores. 3
Um dado histórico decisivo: Apocalipse não pertence à Peshitta original
Precisamos voltar à ressalva feita no início.
O fato de Apocalipse 9:11 existir em uma edição siríaca não significa que ele faça parte da Peshitta original. A Peshitta do Novo Testamento possuía 22 livros. Apocalipse foi acrescentado posteriormente na tradição siríaca, inicialmente na versão Philoxeniana de 507–508, e a tradição Harkleana de 616 revisou profundamente esse material em conformidade com o grego. 4
Portanto, Apocalipse 9:11 não deve ser usado como se fosse uma testemunha da Peshitta original. Ele é, entretanto, uma testemunha importante da história posterior da transmissão do Novo Testamento em siríaco.
Conclusão da investigação
Depois de examinarmos João 5:2; 19:13; 19:17; 19:20; 20:16 e, como testemunho posterior da tradição siríaca, Apocalipse 9:11, podemos formular uma conclusão mais cuidadosa.
Não é correto afirmar que simplesmente pelo fato de existirem tradições aramaicas antigas o Novo Testamento tenha necessariamente sido escrito originalmente em aramaico. Da mesma maneira, não é correto considerar a Peshitta simplesmente como uma gravação das palavras originais de Yeshua.
A Peshitta é uma testemunha extremamente importante da história textual do Novo Testamento, mas precisa ser estudada dentro da história das versões siríacas, de suas diferentes camadas textuais e de sua relação com o grego.
E encontramos um fenômeno particularmente significativo: a tradição siríaca utiliza expressões como ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ — “em hebraico” para introduzir palavras e nomes de origem semítica, ao mesmo tempo em que o próprio texto está sendo transmitido em siríaco.
Em João 20:16, Maria diz:
ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܪܲܒ݁ܘܿܠܝܼ
ʿeḇrāyīṯ Rabbolī
“em hebraico: Rabboli”
e o texto imediatamente acrescenta:
ܕ݁ܡܸܬ݂ܸܐܡܲܪ ܡܲܠܦ݂ܵܢܵܐ
d-metʾemar Malpānā
“que é dito/interpretado: Mestre”.
Esse tipo de construção é exatamente o que devemos investigar quando alguém afirma que o texto siríaco seria simplesmente o original aramaico do Novo Testamento.
A evidência linguística precisa falar por si mesma.
A Peshitta não perde sua importância por ser uma tradução. Pelo contrário: como testemunha antiga, ela é extremamente valiosa para a crítica textual. Mas uma tradução antiga continua sendo uma tradução, e sua existência não transforma automaticamente sua língua de chegada na língua original do documento que ela transmite.
Fontes e leituras complementares
Para esta investigação, também consultei materiais que discutem a origem, a transmissão e a relação da Peshitta com o texto grego.
- Bruce M. Metzger — estudos sobre as primeiras traduções do Novo Testamento e as versões siríacas.
- Sebastian P. Brock — estudos sobre a tradição siríaca e a história da Bíblia em siríaco.
- Estudos sobre a Peshitta e suas relações com as tradições textuais grega, siríaca antiga, Philoxeniana e Harkleana.
Também podem ser consultados os materiais anteriormente indicados no estudo, incluindo o artigo disponibilizado pelo site Ensinando de Sião e os demais textos sobre a origem e transmissão da Peshitta.
Assim encerramos esta etapa da investigação: o Novo Testamento possui uma história textual multilíngue, e a Peshitta deve ser estudada como parte dessa história — não colocada automaticamente no lugar do texto original.