O Aramaico Falado por Jesus Não é o Mesmo da Peshitta
Uma análise histórica e linguística sobre as diferenças entre o aramaico do século I e o siríaco da Peshitta
Hoje em dia, cresce o número de pessoas que passaram a acreditar no falso ensino de que o Novo Testamento não foi escrito originalmente em grego, mas em aramaico, e que a Peshitta*, escrita em aramaico-siríaco, preservaria a forma original do Novo Testamento. Essa defesa é chamada de "Primazia Aramaica" (ou Primazia da Peshitta). Essa teoria é defendida isoladamente por algumas igrejas orientais (como a Igreja Assíria do Oriente) e por alguns teólogos minoritários, mas carece de respaldo científico.
(*) Peshitta (Siríaco clássico: ܦܫܝܼܛܬܵܐ [Pshīṭta - no dialeto oriental]) ou ܦܫܺܝܛܬܳܐ [Pshīṭtō - no dialeto ocidental ]). O nome é derivado do siríaco mappaqtâ pshîṭtâ (ܡܦܩܬܐ ܦܫܝܛܬܐ), significando literalmente "a versão simples". É a versão padrão da Bíblia para as igrejas da tradição de língua siríaca (ܠܫܢܐ ܣܘܪܝܝܐ - "L'shana Suryaya"). Confira.: https://pt.wikipedia.org/wiki/Peshitta
O Grego como Idioma Original do Novo Testamento
- Língua franca: O grego koiné era o idioma universal do comércio, da cultura e da escrita na bacia do Mediterrâneo durante o Império Romano.
- Evidência física: Todos os milhares de manuscritos sobreviventes mais antigos do Novo Testamento (como os fragmentos de papiro do século II e III) estão em grego.
- A Peshitta é uma tradução: Os estudos textuais provam que o Novo Testamento da Peshitta, compilado por volta do século V d.C., é na verdade uma tradução feita a partir de manuscritos gregos anteriores.
Além do mais, o aramaico falado pelo Senhor Jesus e por seus contemporâneos não é o mesmo aramaico-siríaco da Peshitta, pois essa própria designação (aramaico-siríaco) revela que este é um dialeto do aramaico que era falado na Síria nos primeiros séculos da era cristã.
Existe uma diferença linguística e histórica crucial entre o aramaico galileu/judaico do século I — falado na Judeia nos dias de Jesus — e o dialeto siríaco oriental posteriormente empregado na tradição da Peshitta. Infelizmente, essa distinção costuma ser ignorada ou obscurecida em materiais de divulgação popular e em algumas edições comerciais da Bíblia Peshitta.
Eu já tratei desse assunto no meu primeiro estudo postado em meu Blog:
01 — O Novo Testamento NÃO Foi Escrito em Hebraico e/ou Aramaico
http://cacerege.blogspot.com.br/2011/09/o-novo-testamento-nao-foi-escrito-em.html
Uma observação importante: há muitos exemplos concretos de diferenças linguísticas entre o aramaico falado por Jesus e o aramaico-siríaco da Peshitta: vocabulário, ortografia, morfologia e pronúncia, conforme demonstraremos mais abaixo.
A Diferença entre os Dialetos
O aramaico não era uma língua única, mas um conjunto de dialetos que evoluíram em regiões e épocas diferentes:
- O Aramaico Galileu (Ocidental): Este foi o dialeto real falado por Jesus, seus discípulos no século I. Era uma variante ocidental da língua, com sotaque e vocabulário próprios da Galileia com diferença de sotaque do aramaico falado na Judeia. Confira em Mateus 26:73.
- O Aramaico-Siríaco (Aramaico Oriental): Este é o idioma da Peshitta. Ele se desenvolveu séculos depois, na região de Edessa (antiga Mesopotâmia, hoje Turquia/Síria). É uma variante oriental do aramaico que se tornou a língua literária e litúrgica do cristianismo na Ásia a partir dos séculos II e III d.C.
Por que a Peshitta não é o "original" de Jesus?
- Geografia e Tempo: O siríaco da Peshitta reflete a cultura e a linguagem do norte da Mesopotâmia de séculos após a crucificação, e não a Jerusalém ou a Galileia do ano 30 d.C.
- Base de Tradução: A grande maioria dos historiadores e peritos textuais concorda que o Novo Testamento da Peshitta foi traduzido a partir de manuscritos gregos antigos, e não escrito diretamente a partir do aramaico falado na Judeia.
Portanto, embora a Peshitta seja uma ferramenta histórica fantástica para entender o cristianismo oriental, ela representa uma evolução posterior da língua.
Você estuda a história dos manuscritos bíblicos ou tem interesse específico no aramaico galileu do século I? Se quiser, podemos explorar as poucas frases em aramaico ocidental que foram preservadas diretamente no texto grego dos Evangelhos (como Talitha cumi ou Eloí, Eloí, lamá sabactâni). [6, 7]
Muitas palavras em aramaico no Novo Testamento são traduzidas na Peshitta para o Aramaico-siríaco.
Esse é o argumento definitivo (a chamada "prova fumegante") que os linguistas e historiadores usam para demonstrar que a Peshitta é uma tradução posterior, e não o texto original.
Quando os Evangelhos gregos preservaram as palavras exatas de Jesus no aramaico palestino/galileu do século I, os tradutores da Peshitta (séculos mais tarde) precisaram "traduzir" ou adaptar esses termos para que os leitores de aramaico-siríaco da Mesopotâmia pudessem entender.
Exemplos Práticos dessa "Tradução" dentro da Peshitta
Podemos ver isso claramente em passagens famosas onde o texto grego translitera o dialeto de Jesus, e a Peshitta modifica o termo:
- "Golgota" (Marcos 15:22):
- O grego traz Golgotha (baseado no aramaico ocidental Gulgaltā).
- A Peshitta altera a grafia para a forma siríaca oriental: Gagoultha.
- "Boanerges" (Marcos 3:17):
- Jesus chama Tiago e João de Boanerges ("Filhos do Trovão"), refletindo a pronúncia galileia.
- Na Peshitta, o termo é reformulado para o siríaco clássico como Bnay Regshi.
- "Cephas" / Cefas (João 1:42):
- O nome dado a Pedro vem do aramaico ocidental Kēpā (Rocha).
- Embora a raiz seja idêntica, a Peshitta adapta a pronúncia e a gramática para o padrão do siríaco literário (Keepha).
Se a Peshitta fosse o registro original direto das falas de Jesus na Galileia, ela não precisaria adaptar ou explicar termos aramaicos que já deveriam estar no seu próprio dialeto. Isso prova que os tradutores siríacos estavam lendo o texto em grego e vertendo-o para a sua própria língua nativa.
Vamos analisar como a Peshitta traduziu a famosa frase da cruz ("Eloí, Eloí, lamá sabactâni")