אוֹצַר מֵימְרַיָּא דְּתַרְגּוּמַיָּא
ʾŌtsar Mēmrayyā dᵉTargūmayyā
Tesouro das Palavras dos Targumim
Comentários em cada versículo. — Parte 1
MEMRA מימרא
🌌 Gênesis 1:1–5 em Aramaico no Targum Neofiti
”¹ מלקדמין בחכמה ברא דיי שכלל ית שמיא וית ארעא :“
”² וארעא הוות תהיא ובהיא וצדי [וצדיה] מן בר נש ומן בעיר וריקנא מן כל פלחן צמחין ומן אילנין וחשוכא פריס על אפי תהומא ורוח דרחמין מן קדם יי הוה מנשבא על אפי מיא ׃“
”³ ויאמר אלהים: ואמר ממ(רא) [נ״א ממרה] דיי יהוי נהור והות נהור כגזירת ממריה ׃“
”⁴ וגלי קדם יי ית נהורא ארום טב הוא ואפשר ממרא דיי entre נהורא לבין חשוכא ׃“
”⁵ וקרא ממרא דיי לנהורא איממ׳ ולחשוכא קרא לליא והוא רמש והוה צפר סדר עבד בראשית יום קדמאיי ׃“
Obs.: A nota crítica נ״א significa נוסח אחר (Nusaḥ ʾAḥer = no verso 3 indica uma variante fundamental: ממרה (Mēmrēh = "seu Memra", "Sua Palavra"). Portanto, o copista registra duas leituras:
1a. ממרא (Memrā) – reconstrução editorial da abreviação ממ, ou ממרה (Mēmrēh);
2a. ממריה (Memaryah) – que morfologicamente sugere o nome teofórico Memar-Yah (Memra + Yah), conferindo à "Palavra" uma identidade divina pessoal e intrínseca ao Nome Sagrado.
Análise Verso a Verso
A partir de agora, todos os textos aramaicos serão apresentados com vocalização massorética — recurso raro em estudos do Neofiti, pois facilita a leitura, a transliteração e o estudo do texto aramaico para quem já conhece a vocalização massorética.
Texto Vocalizado:
”¹ מִלְּקַדְמִין בְּחָכְמָה בְּרָא דַּייָ שִׁכְלֵל יָת שְׁמַיָּא וְיָת אַרְעָא :“
Transliteração:
”¹ Milqadmin bəḤokhmāh Bərāᵓ da-YəYă Shikhlēl Yāth Shᵊmayyāᵓ wəYāth ᵓarᶜāᵓ.”
Tradução literal:
”¹ No princípio, com sabedoria, o Filho de Adonai [YaHWeH] formou os céus e a terra.”
Comentário:
O Targum Neofiti amplia o texto hebraico ao acrescentar a expressão "com sabedoria" (בְּחָכְמָה = bəḤokhmāh) e apresenta uma leitura peculiar de בְּרָא דַּייָ (Bərā daYəYā = daYHWH), que significa literalmente: Filho de Adonai (YHWH), distinta da encontrada em outros targumim. Esta compreensão identifica o Agente Criador como o Filho de Deus, estabelecendo a base para a cristologia do Novo Testamento desde a primeira palavra da Torá. Essa formulação introduz, desde o primeiro versículo, um importante tema teológico que será desenvolvido ao longo da narrativa da criação. Detalhes mais abaixo em "Comentário Exegético".
”² וְאַרְעָא הֲוַת תַּהְיָא וּבַהְיָא, וְצַדְיָא [וְצַדְיֵהּ] מִן בַּר נָשׁ וּמִן בְּעִיר, וְרֵיקָנָא מִן כָּל פְּלַחַן צִמְחִין וּמִן אִילָנִין, וַחֲשׁוֹכָא פְּרִיס עַל אַפֵּי תְהוֹמָא, וְרוּחַ דְּרַחֲמִין מִן קֳדָם יְיָ הֲוָה מְנַשְּׁבָא עַל אַפֵּי מַיָּא ׃“
Transliteração:
”² Wəʾarʿā hăwath tahyā ūvah·yā, wətsadyā [wəstadyēh] min bar nāsh ūmin beʿīr, wərēqānā min kol pəlaḥan tsimḥīn ūmin ʾīlānīn; waḥăshōkhā pərīs ʿal appē tehomā; wərūaḥ deraḥamīn min qodām Adonai hawā mənaSHəvā ʿal appē mayyā.
Tradução literal:
”² E a terra era desolada e vazia; desprovida de filho de homem e de animais; vazia de todo cultivo de plantas e de árvores. As trevas estavam estendidas sobre a face do abismo, e o Espírito de misericórdia, da presença do SENHOR, soprava sobre a face das águas.”
Comentário:
Diferentemente do texto hebraico, o Neofiti descreve a terra como desprovida de seres humanos, animais e vegetação, enfatizando seu estado de desolação. Além disso, qualifica o Espírito como "Espírito de misericórdia" (רוּחַ דְּרַחֲמִין = rūaḥ deraḥămīn), destacando a ação benevolente de Deus já no início da criação.
”³ וַאֲמַר אֱלָהִים: וַאֲמַר מֵימְרָא דַּיְיָ יְהֵי נְהוֹר, וַהֲוַת נְהוֹר כִּגְזֵירַת מֵימְרֵיהּ׃“
Transliteração:
”³ Waʾămar ʾĚlāhîm. Waʾămar Mēmrā d'Adonai (d'YY): yəhē nəhôr; wahăwat nəhôr kigəzērath Mēmaryāh.
Tradução literal:
”³ E disse Deus. E disse o Memra do SENHOR: "Haja luz." E houve luz segundo o decreto de Memar-Yah.”
Comentário:
O Targum Neofiti identifica explicitamente o agente da palavra criadora como o Memra do SENHOR, ampliando o hebraico "E Deus disse". Também acrescenta que a luz surgiu "conforme o decreto " (Gəzērāh = decreto irrevogável) do Memra, ressaltando a eficácia e a da Palavra divina na obra da criação. O termo Memaryah reforça a hipótese de um nome teofórico que personifica a Palavra Criadora.
”⁴ וּגְלֵי קֳדָם יְיָ יַת נְהוֹרָא אֲרוּם טַב הוּא, וְאַפְשַׁר מֵימְרָא דַּיְיָ בֵּין נְהוֹרָא לְבֵין חֲשׁוֹכָא׃“
Transliteração:
”⁴ Uglē qodām Adonai yat nəhōrā, arūm ṭav hūʾ; wəʾafshar Mēmrā d'Adonai bēn nəhōrā ləvēn ḥăshōkhā.
Tradução literal:
⁴ E tornou-se manifesto diante do SENHOR que a luz era boa; e o Memra do SENHOR separou a luz das trevas.
Comentário:
Em vez de afirmar simplesmente que Deus viu que a luz era boa, o Neofiti diz que isso "tornou-se manifesto diante do SENHOR", evitando uma descrição antropomórfica (ou seja, evitando o antropomorfismo de Deus "olhando" algo novo). A ação de separar as esferas cósmicas é atribuída diretamente ao Memra. Em seguida, atribui ao Memra a separação entre a luz e as trevas, destacando sua atuação direta na ordenação da criação.
”⁵ וּקְרָא מֵימְרָא דַּיְיָ לִנְהוֹרָא אִימָמָא, וְלַחֲשׁוֹכָא קְרָא לֵילְיָא; וַהֲוָה רְמַשׁ, וַהֲוָה צַפְרָא, סֵדֶר עֲבַד בְּרֵאשִׁית יוֹם קַדְמָאִי ׃“
Transliteração:
”⁵ Uqərā Mēmrā d'Adonai linhōrā ʾīmāmā; wəlaḥăshōkhā qərā lēlyā; wahăwā rəmash, wahăwā tsafrā, sēder ʿăvad bərēshīth yōm qadmāy.”
Tradução literal:
”⁵ E chamou o Memra do SENHOR à luz "Dia"; e às trevas chamou "Noite". Houve tarde e houve manhã: a ordem da obra no princípio, o primeiro dia."
Comentário:
O Targum Neofiti continua apresentando o Memra do SENHOR como o agente das ações criadoras, atribuindo-lhe a nomeação do Dia e da Noite. A conclusão do versículo introduz o conceito de Sēder ʿăvad bərēšīth (ordem da obra do princípio) enfatizando a organização progressiva da criação, ou seja, estabelece a ordem e o tempo, nomeando a realidade.
Obs.: ts =ṣ; ḥ = hh.
Comentário Exegético:
Diferentemente do texto hebraico, que inicia dizendo: No princípio criou Deus (Elohim), o Targum de Onkelos, por exemplo, seguindo de perto o texto hebraico, mas empregando o Bigrama como abreviação do Sagrado Tetragrama, diz: No princípio criou o SENHOR (בְּקַדְמִין בְּרָא יְיָ = Bəqadmîn bərāʾ YHWH ). Já o Targum Neofiti apresenta uma leitura distinta, na qual aparece a preposição ד antes do Bigrama יי, formando דַּייָ (d'Adonay, "de Adonai"). Assim sendo, nessa forma textual, o termo antecedente בְּרָא (Bərāʾ ) possa ser entendido como a forma enfática de בַּר (bar, "filho"), resultando na leitura "o Filho de Adonai". Assim sendo, o Agente Criador dos céus e da terra é o Filho de Adonai, o Filho de Deus. Nos versículos 3 a 5, esse Filho de Adonai passa a ser identificado como o Memra (a Palavra) de Adonai (SENHOR), por meio de quem a obra da criação continua sendo realizada.
A tradução crítica de Martin McNamara da série The Aramaic Bible, baseada na edição de Alejandro Díez Macho, trás assim o texto:
1. From the beginning ¹ with wisdom a the Memra² of the Lord³ created and perfected the heavens and the earth.
Tradução:
1. Desde o princípio¹ , com sabedoria, o Memra² do Senhor³ criou e aperfeiçoou os céus e a terra.
E em nota de rodapé número 2 assim está escrito (já traduzido do inglês):
Notas, Capítulo 1
¹ “Desde o princípio com sabedoria”: dupla tradução do TH br’syt, como "princípio" e "sabedoria". Sobre a criação do mundo por meio da/na sabedoria, cf. Pv 8,22; 3,19; Sb 9,9; Sl 104,24. A tradição rabínica, ao identificar a sabedoria com a Torá, fala de Deus criando o mundo por meio da Torá; "princípio" = Torá; Gen. R. 1, 1.4: "No princípio, por meio da Torá, Deus criou..." Veja também Levine, 1974, 4. Para comentários sobre Nf Gn 1,1-2.4a, veja Muñoz León, 1974A, 164-167.
² “O Memra do Senhor”; o texto do Nf [Neofiti] tem: “o Filho do Senhor”, br'dYYY (veja o Aparato, nota b), leitura que provavelmente se deve a uma correção tardia, talvez até do século XVI. Contudo, na tradição cristã, desde os tempos mais antigos, a palavra inicial de Gênesis foi entendida como significando “no Filho” (= Jesus, a Palavra); veja Jerônimo, Heb[raicae] quaest[iones] in Gen 1:1 (CCL 72, p. 3), citando a Altercação de Jasão e Papisco, bem como Tertuliano e Hilário. O Targum Palestinense original provavelmente dizia: "Desde o princípio, em sabedoria, a Memra do Senhor criou." Veja também 2 Esdras 6:38,43: “No princípio” (a tradução latina: “Desde o princípio") da criação tu pronunciaste a Palavra... e a tua Palavra aperfeiçoou (isto é, executou, completou) a obra.” Sobre a possível relação entre 2 Esdras e o Targum Palestinense, veja D. Muñoz León, 1974B, 1975, especialmente 1975, pp. 52–61; o mesmo autor, 1974A (Dios Palabra), pp. 162–164. Sobre a Memra e a criação, vê ja D. Muñoz León, na mesma obra (1974A), pp. 607–611; R. Hayward, 1974 e 1981. Sobre o uso, no Neofiti, de Memra dYYY como tradução do Texto Hebraico (TH) 'Elohim e YHWH, e sobre a possibilidade de um desenvolvimento nessa utilização, veja B. Barry Levy, Targum Neophyti 1. A Textual Study, vol. 1: Introduction, Genesis, Exodus (1986), pp. 41–43.
3. "o Senhor"; o Texto Hebraico (HT) traz: "Deus" (Elohim). O Neofiti e os targuns em geral traduzem o Elohim do Texto Hebraico por "o Senhor", escrito de diversas formas no manuscrito do Neofiti (YYY, YY etc.). Veja a nota 2 ao Pseudo-Jônatas (vol. IB desta série).
(Destaque em negrito acrescentados)
O ponto mais importante da nota:
“the text of Nf has: 'the son of the Lord,' br'dYYY”
Traduzindo literalmente:
“O texto do Neofiti tem: 'o Filho do Senhor', br'dYYY.”
O próprio Martin McNamara reconhece que o manuscrito do Neofiti realmente contém a leitura "ברא דיי" ("o Filho do Senhor"). Entretanto, ele entende que essa leitura não pertence ao texto original do Targum, mas seria resultado de uma correção tardia, possivelmente do século XVI, influenciada pela tradição cristã. Por isso, ele reconstrói o texto original como:
"Desde o princípio, em sabedoria, a Memra do Senhor criou."
Em outras palavras, McNamara não nega que o manuscrito diga "o Filho do Senhor"; ele apenas argumenta, com base em crítica textual, que essa leitura seria secundária e que a forma original do Targum seria "a Memra do Senhor".
Essa distinção é fundamental para a discussão: uma coisa é o que o manuscrito preservado efetivamente lê ("o Filho do Senhor") ; outra é a hipótese crítica (ou: opinião própria) sobre o que o texto original teria dito antes de uma suposta alteração.
A partir do versículo 3, temos exemplos importantes da teologia do Memra (מֵימְרָא) nos Targumim.
No verso 3, enquanto o texto hebraico diz simplesmente:
וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים ...
"E disse Deus...", o Targum Neofiti explicita o agente da fala divina:
וַאֲמַר מֵימְרָא דַּיי ...
"E disse o Memra do SENHOR..."
Além disso, o Targum acrescenta uma frase explicativa:
כגזירת ממריה
"conforme o decreto de Memaryah".
Essa expansão enfatiza que a criação acontece pela autoridade eficaz da Palavra divina estabelecendo um paralelo com o Logos do Evangelho de João. O substantivo גְּזֵירָה (gəzērāh), no verso 3, significa "decreto", "determinação", "ordem irrevogável". Assim, não apenas o Memra pronuncia a ordem, mas sua própria determinação é a causa imediata da existência da luz.
Como podemos observar em nossa pesquisa, a forma ממריה pode ser entendida morfologicamente como Memra + יה (Yah) = Mēmaryāh. Essa proposta baseia-se na forma consonantal preservada pelo manuscrito e constitui uma hipótese filológica distinta da interpretação tradicional.
Essa é justamente uma das questões filológicas que merece estudo cuidadoso à luz dos manuscritos, especialmente porque o Neofiti preserva diversas leituras antigas que, em alguns casos, diferem das edições críticas posteriores. Além disso, neste versículo não encontramos a forma מֵימְרֵהּ (Mēmrēh)= "seu Memra" , "sua Palavra", mas sim ממריה (Mēmaryāh), que pode soar como um nome teofórico, tornando essa discussão ainda mais relevante do ponto de vista textual, morfológico e exegético.
Observação
A teologia do Targum Neofiti em Gênesis 1 é uma ponte perfeita para o prólogo de João. Observe a progressão trinitária implícita na exegese targúmica:
• 1:1 — o Filho de Deus (Bərā) cria os céus e a terra;
• 1:2 — o Espírito de misericórdia (Ruaḥ) paira sobre as águas;
• 1:3 — o Memra (Logos) ordena: "Haja luz";
• 1:4 — o Memra separa a luz das trevas;
• 1:5 — o Memra nomeia o Dia e a Noite.
Os versículos 1, 3, 4, 5 formam uma unidade literária muito interessante no Targum Neofiti. O sujeito das ações criadoras passa a ser explicitamente o Filho, o Memra que a Palavra viva do SENHOR.
No verso 2, diferentemente do hebraico רוּחַ אֱלֹהִים ("Espírito de Deus"), o Targum Neofiti qualifica esse Espírito como "Espírito de misericórdia" (ou "Espírito de benignidade"), ressaltando a benevolência divina já no início da criação. Esse detalhe é importante porque, enquanto nos versículos 3–5 o protagonismo é atribuído ao Memra, no versículo 2 o agente destacado é o Espírito de misericórdia (רוּחַ דְּרַחֲמִין = Rūaḥ d'raḥămîn). Assim, a sequência do Neofiti apresenta uma progressão
Assim, o Targum atribui ao Memra três funções fundamentais da criação: falar, ordenar e nomear. Essa progressão é um dos aspectos mais marcantes da teologia do Memra no início do Targum Neofiti e estabelece um paralelo notável com a apresentação do Logos em João 1:1–3, onde todas as coisas vêm à existência por meio do Logos, da Palavra.
No texto hebraico de Gênesis 1, a fórmula é simplesmente:
וַיְהִי־עֶרֶב וַיְהִי־בֹקֶר יוֹם אֶחָד
"Houve tarde e houve manhã: primeiro dia."
Já o Neofiti amplia essa fórmula para algo como:
וַהֲוָה רְמַשׁ וַהֲוָה צַפְרָא, סֵדֶר עֲבַד בְּרֵאשִׁית יוֹם קַדְמָאִי Literalmente:
"Houve tarde e houve manhã: a ordem da obra do princípio, o primeiro dia."
O acréscimo סֵדֶר עֲבַד בְּרֵאשִׁית (sēder ʿăvad bərēʾšîṯ) é muito significativo.
1a. סֵדֶר (sēder) = ordem, sequência, arranjo.
2a. עֲבַד (ʿăvad) = obra, trabalho, aquilo que foi realizado. 3a. בְּרֵאשִׁית (bərēʾšîṯ) = princípio, começo.
Em vez de simplesmente contar os dias, o Targum enfatiza que cada dia corresponde a uma etapa ordenada da obra da criação.
Esta "ordem da obra no princípio" (Sēder) demonstra que a criação é um ato planejado e executado pela Palavra Viva. A reutilização do marcador Bərēshīth ao final de cada dia no Neofiti serve como um lembrete constante: tudo o que existe subsiste por meio d'Ele.
Isso combina muito bem com outra característica do Neofiti: ele gosta de tornar explícito aquilo que o hebraico apenas sugere.
Observe a progressão:
• não apenas "Deus disse", mas "o Memra disse";
• não apenas "foi", mas "conforme o decreto do Memra";
• não apenas "viu", mas "foi manifesto diante do SENHOR";
• não apenas "primeiro dia", mas "a ordem da obra no princípio, primeiro dia".
Tudo isso mostra um estilo interpretativo típico dos targumistas.
Esse é exatamente o tipo de detalhe que muitas vezes passa despercebido nas traduções desse texto aramaico, mas se torna evidente quando se acompanha cuidadosamente o texto aramaico verso a verso.
Note que o Targum parece retomar deliberadamente a expressão de Gênesis 1:1, como um refrão:
"...a ordem da obra no princípio, primeiro dia."
"...a ordem da obra no princípio, segundo dia."
"...a ordem da obra no princípio, terceiro dia."
e assim sucessivamente.
É um recurso literário elegante, pois mantém diante do leitor que cada etapa pertence à grande obra realizada no princípio (bərēʾšîṯ), em vez de simplesmente encerrar cada dia com uma contagem cronológica, como faz o texto hebraico. Essa é uma característica estilística do Neofiti que merece ser destacada em nesse estudo.
Conclusão
Não é de estranhar que muitas autoridades religiosas, bem como muitas pessoas do povo, tenham crido no Senhor Jesus (ver João 12:42), não apenas por causa de seus milagres, mas também porque, nas sinagogas, após a leitura do texto hebraico da Lei e dos Profetas, as Escrituras eram explicadas por meio dos Targumim na língua aramaica, compreendida pelo povo. Assim, o conceito do Memra já lhes era familiar. Em grego, esse termo corresponde ao Lógos e, em latim, ao Verbum (Verbo).
Por isso, não soou estranho quando o apóstolo João escreveu, no prólogo de seu Evangelho:
"E o Verbo se fez carne e habitou (tabernaculou) entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai." (João 1:14)
As pessoas acostumadas a ouvir as Escrituras explicadas em aramaico nas sinagogas já estavam familiarizadas com expressões como o Memra (Palavra, Verbo, Lógos), a Shekiná (Habitação, Presença Divina, Tabernáculo), a Yeqará (Glória) e outras expressões características da tradição targúmica.
E assim podemos ver que João 1:14 reúne, em um único versículo, três conceitos centrais da teologia targúmica:
• Ὁ Λόγος (Lógos) → מֵימְרָא (Memra);
• ἐσκήνωσεν (eskēnōsen, "tabernaculou, habitou") → שכינה (Shekiná);
• δόξα (dóxa, "glória") → יְקָרָא (Yeqará).
Ou seja, João não fala apenas do Logos. No mesmo versículo aparecem também ideias que correspondem à Shekiná e à Yeqará, três conceitos muito presentes na linguagem dos Targumim.
À luz do Targum Neofiti (e também pelos outros Targumim) podemos comprovar que o Memra não aparece apenas como uma figura literária, mas como o agente da criação, da revelação e da ação divina. Essa antiga tradição aramaica fornece um importante pano de fundo para compreender por que o Evangelho de João identifica o Logos eterno com Jesus Cristo, o Verbo/Memra que se fez carne.
O Memra, o Verbo, antes de se fazer carne, criou todas as coisas do universo, pois está escrito: 🌌
”¹ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ² Ele estava no princípio com Deus. ³ Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez..” (João 1:1-3)
Também o apóstolo Paulo:
”¹⁵ Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; ¹⁶ Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. ¹⁷ Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (Colossenses 1:15-17)
Deus Pai fala ao Deus Filho:
”⁸ Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de equidade é o cetro do seu reino. … ¹⁰ Ainda: No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; ¹¹ eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual veste; ¹² também, qual manto, os enrolarás, e, como vestes, serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim.” (Hebreus 1:8,10-12)
À luz da tradição targúmica, a leitura de Gênesis 1:1 preservada pelo Targum Neofiti não soaria estranha aos judeus do primeiro século que creram em Yeshua:
Por: 𝓛𝓾𝓲𝓼 𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮, 𝓒𝓱𝓪𝓽𝓖𝓟𝓣 &̷ 𝓜𝓪𝓷𝓾𝓼 𝓐𝓘 ܠܘܝܣ - לואיס - 𐤋𐤅𐤀𐤉𐤎 - ࠋࠅࠀࠉࠔ - Ⲗⲟⲩⲓⲥ - Λουίς✍🏼 ܞ ☧ ✞
Manaus-AM, (Dom.- Qui.) 19-23/Jul/2026.
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