Copiado do WhatsApp, mas ainda em construção
*ALFABETOS SEMITAS*
*Introdução*
O termo “*semítico*” pode se referir a uma *família linguística*, mas, neste estudo, o nosso foco não são propriamente as línguas semíticas, e sim os *sistemas de escrita empregados para registrá-las*.
É importante, portanto, distinguir três conceitos:
*Língua semítica →* refere-se à língua pertencente à família semítica, como hebraico, aramaico, fenício, árabe, ugarítico, acádio, geʿez, entre outras.
*Sistema de escrita →* refere-se ao conjunto de sinais e às regras utilizadas para representar uma língua por escrito.
*Alfabeto →* é um tipo específico de sistema de escrita no qual os sinais representam, predominantemente, unidades consonantais e/ou vocálicas da língua.
Assim, uma *língua semítica não possui necessariamente um único sistema de escrita*, e um mesmo sistema de escrita pode ser utilizado para registrar línguas diferentes.
Este estudo concentra-se principalmente na *história e na comparação das escritas semíticas*, observando suas formas gráficas, a ordem das letras, seus nomes tradicionais e suas correspondências fonéticas.
Entre as tradições aqui apresentadas estão o *Ugarítico, Fenício, Paleo-hebraico, Samaritano, Aramaico Imperial, Hebraico Quadrado, Siríaco, Nabateu, Árabe, Mandaico e Geʿez*, entre outras.
Também será necessário distinguir *descendência linguística de descendência gráfica*. Duas línguas podem ser parentes linguísticas sem utilizar a mesma escrita, enquanto duas escritas podem apresentar relações históricas mesmo quando utilizadas para línguas diferentes.
Por essa razão, a sequência apresentada neste estudo não deve ser entendida como uma única linha evolutiva na qual cada alfabeto simplesmente se transforma no seguinte. Em muitos casos, estamos diante de *ramificações, influências, adaptações e desenvolvimentos paralelos*.
Um exemplo particularmente importante é a tradição aramaica. A escrita aramaica desenvolveu diversas ramificações gráficas, entre elas as tradições que deram origem ou contribuíram para o desenvolvimento de formas como o *hebraico quadrado, o siríaco e o nabateu*. A tradição nabateia, por sua vez, possui papel importante na história da formação da escrita árabe.
Da mesma maneira, o *Ugarítico* deve ser tratado separadamente: embora seja uma escrita alfabética utilizada para uma língua semítica, seus sinais são *cuneiformes* e não constituem simplesmente uma etapa gráfica da escrita fenícia.
O *Geʿez*, por sua vez, pertence à história das escritas semíticas do Chifre da África e apresenta uma característica diferente: desenvolveu-se em direção a um sistema *abugida** , no qual os sinais consonantais são modificados para representar diferentes vogais.
> ( * ) Abugida – Um sistema de escrita abugida (também chamado de alfassilabário ou alfabeto silábico) é um tipo de escrita em que cada símbolo base representa uma consoante acompanhada de uma vogal padrão (chamada de vogal inerente, geralmente o som /a/). Mais detalhes: Wikipedia – Abugida https://share.google/IYzptKg583wcwbVfo
Portanto, ao comparar essas tradições, procuraremos observar não apenas “*qual letra corresponde a qual letra*”, mas também:
*forma gráfica → nome da letra → valor fonético → ordem alfabética → estrutura do sistema → relação histórica entre as escritas.*
Dessa maneira, podemos observar como antigos sinais e valores consonantais foram preservados, modificados, adaptados e reorganizados ao longo de muitos séculos, sem confundir a história das *línguas semíticas* com a história das *escritas utilizadas* para registrá-las.
*OS ALFABETOS*
*1. Alfabeto Fenício/Alfabeto Páleo-hebraico*
O alfabeto fenício desenvolveu-se a partir da antiga *tradição alfabética cananeia*, cuja origem remonta às primeiras *escritas alfabéticas semíticas conhecidas como Proto-Sinaítico/Proto-Canaanita*. Os fenícios conservaram e adaptaram esse sistema, estabilizando progressivamente as formas gráficas e a ordem das letras.
*E há uma distinção muito importante*
*Proto-Sinaítico ≠ Fenício*
Veja a diferença:
*Proto-Sinaítico:*
sinais ainda fortemente *pictográficos*, derivados/adaptados de formas egípcias, empregados para representar sons de uma língua semítica por princípio acrofônico. O corpus é pequeno e algumas identificações continuam discutidas.
*Fenício:*
uma escrita *linear e plenamente alfabética*, já bastante convencionalizada, utilizada pelos povos fenícios e posteriormente difundida por grande parte do Mediterrâneo.
A transformação não aconteceu de uma geração para outra. Houve um *longo período de desenvolvimento das formas proto-cananeias*. É justamente por isso que alguns especialistas preferem falar em “*Early Alphabetic” (alfabeto inicial)* para abranger essas primeiras manifestações, em vez de imaginar um único “alfabeto Proto-Sinaítico” perfeitamente definido que posteriormente foi simplesmente transmitido aos fenícios.
Essa é somente uma ilustração didática da possível derivação alfabética e da correspondência gráfica ao longo do tempo:
*𓃾* ➙ ܐ ➙ א ➙ 𐤀
_boi → ʾĀlep → ʾÁlef → ʾālap_
Depois o A (alfa Grego) e o A (latino):
*𓃾* ➙ ܐ ➙ א ➙ 𐤀 ➙ A ➙ A
_sinal pictográfico → Fenício ʾĀlep → Hebraico ʾÁlef → Siríaco Alap → transliteração grega e latina._
O alfabeto fenício é um dos sistemas de escrita mais importantes da história humana, criado por volta de 1050 a.C. na região da Fenícia (atual Líbano, Síria e norte de Israel). Ele funcionava de forma fonética e simplificada para atender às necessidades do comércio marítimo. O sistema era um _abjad_ (ou consonantário), composto por 22 símbolos que representavam exclusivamente sons consonantais sem nenhuma vogal. Os textos eram escritos e lidos no sentido da direita para a esquerda (assim como hebraico, o aramaico, o siríaco, o árabe, etc..
*Legado Histórico*
O alfabeto fenício, desenvolvido a partir das antigas tradições alfabéticas cananeias, relacionadas às primeiras escritas alfabéticas conhecidas como proto-sinaíticas, revolucionou a comunicação no Mediterrâneo e serviu de base para diversas escritas alfabéticas posteriores, tanto no Ocidente quanto no Oriente, incluindo as tradições grega, latina, aramaica e outras.
*Alfabeto Fenício:*
*𐤀 𐤁 𐤂 𐤃 𐤄 𐤅 𐤆 𐤇 𐤈 𐤉 𐤊 𐤋 𐤌 𐤍 𐤎 𐤏 𐤐 𐤑 𐤒 𐤓 𐤔 𐤕*
*Nomes das letras:*
Alap ( *𐤀* ), Bēt ( *𐤁* ), Gāmal ( *𐤂* ), Dālat ( *𐤃* ), Hē ( *𐤄* ), Wāw ( *𐤅* ), Zayin ( *𐤆* ), Ḥēt ( *𐤇* ), Ṭēt ( *𐤈* ), Yōd ( *𐤉* ), Kāp ( *𐤊* ), Lāmad ( *𐤋* ), Mēm ( *𐤌* ), Nūn ( *𐤍* ), Sāmek ( *𐤎* ), ʿAyin ( *𐤏* ), Pē ( *𐤐* ), Ṣādē ( *𐤑* ), Qōp ( *𐤒* ), Rēsh ( *𐤓* ), Šīn ( *𐤔* ), Tāw ( *𐤕* ).
Obs.: O alfabeto Fenício e o alfabeto Paleo-hebraico, embora possam permanecer como título comparativo, mas historicamente não são exatamente a mesma escrita, pois há algumas poucas diferenças entre os dois sistemas.
*2. Alfabeto Samaritano:*
*ࠀ ࠁ ࠂ ࠃ ࠄ ࠅ ࠆ ࠇ ࠈ ࠉ ࠊ ࠋ ࠌ ࠍ ࠎ ࠏ ࠐ ࠑ ࠒ ࠓ ࠔ ࠕ*
*Nomes correspondentes ao nomes das letras Paleo-hebraicas:*
Ālef ( *ࠀ* ), Bēt ( *ࠁ* ), Gāmal ( *ࠂ* ), Dālat ( *ࠃ* ), Hē ( *ࠄ* ), Wāw ( *ࠅ* ), Zāyin ( *ࠆ* ), Ḥēt ( *ࠇ* ), Ṭēt ( *ࠈ* ), Yōt ( *ࠉ* ), Kāf ( *ࠊ* ), Lāmed ( *ࠋ* ), Mēm ( *ࠌ* ), Nūn ( *ࠍ* ), Sāmek ( *ࠎ* ), ʿAyin ( *ࠏ* ), Pē ( *ࠐ* ), Ṣādē ( *ࠑ* ), Qōf ( *ࠒ* ), Rēsh ( *ࠓ* ), Šīn ( *ࠔ* ), Tāw ( *ࠕ* ).
*Os Nomes Próprios das Letras Samaritanas:*
Alaf ( *ࠀ* ), Bit ( *ࠁ* ), Gaman ( *ࠂ* ), Dalat ( *ࠃ* ), IY ( *ࠄ* ), Baa ( *ࠅ* ), Zen ( *ࠆ* ), It ( *ࠇ* ), Tit ( *ࠈ* ), Yut ( *ࠉ* ), Kaaf ( *ࠊ* ), Labat ( *ࠋ* ), Mim ( *ࠌ* ), Nun ( *ࠍ* ), Singaat ( *ࠎ* ), In ( *ࠏ* ), Fi ( *ࠐ* ), Tsaadiy ( *ࠑ* ), Quf ( *ࠒ* ), Rish ( *ࠓ* ), Shan ( *ࠔ* ), Taaf ( *ࠕ* ).
*3. Alfabeto Aramaico imperial:*
*𐡀 𐡁 𐡂 𐡃 𐡄 𐡅 𐡆 𐡇 𐡈 𐡉 𐡊 𐡋 𐡌 𐡍 𐡎 𐡏 𐡐 𐡑 𐡒 𐡓 𐡔 𐡕*
*Nomes das letras:*
Alap ( *𐡀* ), Bēt ( *𐡁* ), Gāmal ( *𐡂* ), Dālat ( *𐡃* ), Hē ( *𐡄* ), Waw ( *𐡅* ), Zayn ( *𐡆* ), Ḥēth ( *𐡇* ), Ṭēth ( *𐡈* ), Yōḏ ( *𐡉* ), Kāp ( *𐡊* ), Lāmaḏ ( *𐡋* ), Mīm ( *𐡌* ), Nūn ( *𐡍* ), Semkaṯ ( *𐡎* ), ʿĒ ( *𐡏* ), Pē ( *𐡐* ), Ṣāḏē ( *𐡑* ), Qōp ( *𐡒* ), Rēsh ( *𐡓* ), Shīn ( *𐡔* ), Taw ( *𐡕* ).
*4. Alfabeto Hebraico Quadrado:*
*א ב ג ד ה ו ז ח ט י כ ל מ נ ס ע פ צ ק ר ש ת*
*Nomes das letras:*
Álef ( *א* ), Bēt ( *ב* ), Guímel ( *ג* ), Dálet ( *ד* ), Hē ( *ה* ), Wāw ( *ו* ), Záyin ( *ז* ), Ḥēt ( *ח* ), Ṭēt ( *ט* ), Yōd ( *י* ), Kāf ( *כ* ), Lāmed ( *ל* ), Mēm ( *מ* ), Nūn ( *נ* ), Sāmek ( *ס* ), ʿÁyin ( *ע* ), Pē ( *פ* ), Ṣādē ( *צ* ), Qōf ( *ק* ), Rēsh ( *ר* ), Shīn ( *ש* ), Tāw ( *ת* ).
*5. Alfabeto Siríaco:*
*ܐ ܒ ܓ ܕ ܗ ܘ ܙ ܚ ܛ ܝ ܟ ܠ ܡ ܢ ܣ ܥ ܦ ܨ ܩ ܪ ܫ ܬ*
*Nomes das letras:*
Alap ( *ܐ* ), Bēth ( *ܒ* ), Gāmal ( *ܓ* ), Dālat ( *ܕ* ), Hē ( *ܗ* ), Waw ( *ܘ* ), Zayn ( *ܙ* ), Ḥēth ( *ܚ* ), Ṭēth ( *ܛ* ), Yōḏ ( *ܝ* ), Kāp ( *ܟ* ), Lāmaḏ ( *ܠ* ), Mīm ( *ܡ* ), Nūn ( *ܢ* ), Semkaṯ ( *ܣ* ), ʿĒ ( *ܥ* ), Pē ( *ܦ* ), Ṣāḏē ( *ܨ* ), Qōp ( *ܩ* ), Rēsh ( *ܪ* ), Shīn ( *ܫ* ), Taw ( *ܬ* ).
*6. Alfabeto Nabateu:*
*𐢀 𐢁 𐢂 𐢃 𐢄 𐢅 𐢆 𐢇 𐢈 𐢉 𐢊 𐢋 𐢌 𐢍 𐢎 𐢏 𐢐 𐢑 𐢒 𐢓 𐢔 𐢕*
*Nomes das letras:*
Alap ( *𐢀* ), Bēt ( *𐢁* ), Gāmal ( *𐢂* ), Dālat ( *𐢃* ), Hē ( *𐢄* ), Waw ( *𐢅* ), Zayn ( *𐢆* ), Ḥēth ( *𐢇* ), Ṭēth ( *𐢈* ), Yōḏ ( *𐢉* ), Kāp ( *𐢊* ), Lāmaḏ ( *𐢋* ), Mīm ( *𐢌* ), Nūn ( *𐢍* ), Semkaṯ ( *𐢎* ), ʿĒ ( *𐢏* ), Pē ( *𐢐* ), Ṣāḏē ( *𐢑* ), Qōp ( *𐢒* ), Rēsh ( *𐢓* ), Shīn ( *𐢔* ), Taw ( *𐢕* ).
A escrita nabateia é especialmente importante para a história da escrita porque está entre as tradições aramaicas e o desenvolvimento da escrita árabe.
*7. Alfabeto Árabe (na mesma ordem semítica correspondente às anteriores acima, e não todas as letras):*
*⇐ ا ب ج د ه و ز ح ط ي ك ل م ن س ع ف ص ق ر ش ت*
*Nomes das letras:*
Alif ( *ا* ), Bāʾ ( *ب* ), Jīm ( *ج* ), Dāl ( *د* ), Hāʾ ( *ه* ), Wāw ( *و* ), Zāy ( *ز* ), Ḥāʾ ( *ح* ), Ṭāʾ ( *ط* ), Yāʾ ( *ي* ), Kāf ( *ك* ), Lām ( *ل* ), Mīm ( *م* ), Nūn ( *ن* ), Sīn ( *س* ), ʿAyn ( *ع* ), Fāʾ ( *ف* ), Ṣād ( *ص* ), Qāf ( *ق* ), Rāʾ ( *ر* ), Shīn ( *ش* ), Tāʾ ( *ت* ).
*Transliteração:*
➙ ʾ b g/j d h w z ḥ ṭ y k l m n s ʿ f ṣ q r š t
*Alfabeto Árabe completo:*
*ا ب ت ث ج ح خ د ذ ر ز س ش ص ض ط ظ ع غ ف ق ك ل م ن ه و ي*
*Nomes das letras:*
Alif ( *ا* ), Bāʾ ( *ب* ), Tāʾ ( *ت* ), Thāʾ ( *ث* ), Jīm ( *ج* ), Ḥāʾ ( *ح* ), Khāʾ ( *خ* ), Dāl ( *د* ), Dhāl ( *ذ* ), Rāʾ ( *ر* ), Zāy ( *ز* ), Sīn ( *س* ), Shīn ( *ش* ), Ṣād ( *ص* ), Ḍād ( *ض* ), Ṭāʾ ( *ط* ), Ẓāʾ ( *ظ* ), ʿAyn ( *ع* ), Ghayn ( *غ* ), Fāʾ ( *ف* ), Qāf ( *ق* ), Kāf ( *ك* ), Lām ( *ل* ), Mīm ( *م* ), Nūn ( *ن* ), Hāʾ ( *ه* ), Wāw ( *و* ), Yāʾ ( *ي* ).
Observe que esta é a ordem própria do *alfabeto árabe moderno*, com *28 letras*, portanto não deve ser confundida com a sequência semítica original de *22 consoantes* que usamos logo acima, como forma comparativa.
Há, porém, uma observação importante: a ordem histórica é preservada, mas a forma gráfica e a pronúncia de algumas letras árabes sofreram mudanças ao longo do desenvolvimento da escrita árabe. Por exemplo, *ج* corresponde historicamente a gīm, embora no árabe padrão moderno seja geralmente pronunciado jīm /d͡ʒ/ ou com realizações regionais diferentes.
É interessante que tanto as letras em *Siríaco Serto* (cursivo) quanto a escrita *Árabe* têm quatro formas distintas de letras conforme a sua posição em uma palavra.
O ponto principal é que *a escrita siríaca Serto e a escrita árabe compartilham uma característica que é própria das escritas cursivas: as letras podem assumir formas diferentes conforme sua posição na palavra*. Isso, porém, *não demonstra que o Árabe tenha vindo do Serto ou vice-versa.*
*A questão das quatro formas*
No árabe moderno, uma letra pode aparecer, dependendo do contexto, em formas:
*isolada → inicial → medial → final*
Por exemplo, ع:
ع — عـ — ـعـ — ـع
No Siríaco Serto encontramos o mesmo princípio geral. (impossível representar aqui)
Mas isso ocorre porque *ambas pertencem à tradição das escritas aramaicas cursivas*, e não necessariamente porque uma tenha sido copiada da outra.
*A relação histórica mais aceita da origem dos dois sistemas de escrita*
A sequência geralmente apresentada é aproximadamente:
*Aramaico imperial*
*↓*
*Aramaico nabateu*
*↓*
*Nabateu cursivo*
*↓*
*Árabe antigo / árabe*
Enquanto outra linha segue:
*Aramaico imperial*
*↓*
*Edessa / tradição aramaica oriental*
*↓*
*Siríaco*
*↓*
*Estrangelo → Serto → outras mãos siríacas*
Assim, *árabe e siríaco são parentes gráficos*, mas o *Serto não é considerado o ancestral direto da escrita árabe.*
E há um detalhe fascinante
O que se pode perceber: *a letra mudar de forma conforme sua posição* — é justamente uma característica que se torna muito importante nas escritas cursivas.
O árabe levou isso a um nível extremamente desenvolvido. Porém, *a escrita nabateia já apresentava formas cursivas e conexões entre letras antes da consolidação da escrita árabe.*
*OUTROS ALFABETOS E ESCRITAS SEMÍTICA*
Ampliando esta relação, podemos incluir:
*8. Ugarítico*
O ugarítico é particularmente interessante porque, embora seja uma escrita cuneiforme, registra uma língua semítica e possui uma ordem alfabética relacionada à tradição levantina:
𐎀 𐎁 𐎂 𐎃 𐎄 𐎅 𐎆 𐎇 𐎈 𐎉 𐎊 𐎋 𐎍 𐎎 𐎏 𐎐 𐎑 𐎒 𐎓 𐎔 𐎕 𐎖 𐎗 𐎘 𐎙 𐎚 𐎛 𐎜 𐎝
*Nomes das letras:*
ʾAlpa ( *𐎀* ), Bēta ( *𐎁* ), Gamla ( *𐎂* ), Ḫa ( *𐎃* ), Dālta ( *𐎄* ), Hō ( *𐎅* ), Waw ( *𐎆* ), Zēta ( *𐎇* ), Ḥēta ( *𐎈* ), Ṭēta ( *𐎉* ), Yōda ( *𐎊* ), Kappa ( *𐎋* ), Lāmda ( *𐎍* ), Mēma ( *𐎎* ), Nūna ( *𐎏* ), Sāmg(a) ( *𐎐* ), ʿAyn ( *𐎑* ), Pē ( *𐎒* ), Ṣāda ( *𐎓* ), Qōpa ( *𐎔* ), Rēša ( *𐎕* ), Šīna ( *𐎖* ), Ṯa ( *𐎗* ), ʿA ( *𐎘* ), Ḍa ( *𐎙* ), Tāw ( *𐎚* ), Ẓa ( *𐎛* ), Ḏa ( *𐎜* ), Ġa ( *𐎝* ).
*Nomes convencionais dos sinais:*
Alpa ( *𐎀* ), Beta ( *𐎁* ), Gamla ( *𐎂* ), Kha ( *𐎃* ), Delta ( *𐎄* ), Ho ( *𐎅* ), Wo ( *𐎆* ), Zeta ( *𐎇* ), Hota ( *𐎈* ), Tet ( *𐎉* ), Yod ( *𐎊* ), Kaf ( *𐎋* ), Shin ( *𐎌* ), Lamda ( *𐎍* ), Mem ( *𐎎* ), Dhal ( *𐎏* ), Nun ( *𐎐* ), Zu ( *𐎑* ), Samka ( *𐎒* ), Ain ( *𐎓* ), Pu ( *𐎔* ), Sade ( *𐎕* ), Qopa ( *𐎖* ), Rasha ( *𐎗* ), Thanna ( *𐎘* ), Ghain ( *𐎙* ), To ( *𐎚* ), I ( *𐎛* ), U ( *𐎜* ), Ssu ( *𐎝* ).
Um detalhe importante:
As últimas três — I, U e Ssu — são particularmente importantes. I e U são sinais de oclusão glotal associados às vogais /i/ e /u/, e Ssu representa /ś/. O _site_ Oracc transcreve-os como ʾi, ʾu e ś, respectivamente. Por isso, o alfabeto ugarítico possui mais letras que o sistema de 22 consoantes tradicionalmente associado ao fenício/hebraico, ou seja, 30 sinais, e não simplesmente 30 consoantes.
Um dos aspectos mais interessantes do alfabeto ugarítico é a semelhança com os nomes das letras fenícias/hebraicas e gregas, e não é apenas gráfica.
E há um caso especialmente interessante: *Qopa → Qōp → Qoppa (Ϙ)*. O grego chegou a possuir a letra *Ϙ (Qoppa)*, que posteriormente caiu em desuso no alfabeto grego clássico. Isso mostra de maneira muito clara a relação histórica entre essas tradições alfabéticas.
Também é importante observar que *não significa que o grego simplesmente "copiou" o ugarítico*. O mais provável é que ugarítico, fenício e grego estejam relacionados dentro de uma história mais ampla de *alfabetos semíticos do Levante*, com transmissão, adaptação e reorganização dos sinais ao longo do tempo. (IA ChatGPT)
E há algo que combina muito bem com o seu estudo anterior: quando colocamos *Ugarítico → Fenício → Paleo-hebraico → Aramaico → Hebraico → Grego → Siríaco*, começamos a enxergar não apenas alfabetos isolados, mas uma espécie de árvore histórica dos sistemas de escrita. (IA ChatGPT)
*9. Árabe Antigo / Safaítico*
As escritas árabes setentrionais antigas, especialmente safaítica, hismaica e dadanítica, representam importantes estágios anteriores ou paralelos ao desenvolvimento da escrita árabe.
*10. Palmírico*
Escrita aramaica utilizada em Palmira, apresentando uma evolução própria das formas aramaicas.
*11. Alfabeto Mandaico:*
Alfabeto utilizado para escrever o mandaico, uma língua aramaica. Sua tradição gráfica apresenta características próprias:
*ࡀ ࡁ ࡂ ࡃ ࡄ ࡅ ࡆ ࡇ ࡈ ࡉ ࡊ ࡋ ࡌ ࡍ ࡎ ࡏ ࡐ ࡑ ࡒ ࡓ ࡔ ࡕ ࡖ ࡗ ࡘ ࡙*
*Nomes das letras:*
Alaf ( *ࡀ* ), Biṭ ( *ࡁ* ), Ga ( *ࡂ* ), Daḏ ( *ࡃ* ), A ( *ࡄ* ), Wa ( *ࡅ* ), Zain ( *ࡆ* ), Ē ( *ࡇ* ), Ḥa ( *ࡈ* ), Ṭa ( *ࡉ* ), Ka ( *ࡊ* ), La ( *ࡋ* ), Ma ( *ࡌ* ), Na ( *ࡍ* ), Sa ( *ࡎ* ), ʿA ( *ࡏ* ), Pa ( *ࡐ* ), Ṣa ( *ࡑ* ), Qa ( *ࡒ* ), Ra ( *ࡓ* ), Ša ( *ࡔ* ), Ta ( *ࡕ* ), Ḏa ( *ࡖ* ), Ğa ( *ࡗ* ), Ḥaḏ ( *ࡘ* ), ʿAin ( *࡙* ).
*12. Geʿez / Etíope*
A tradição etíope é diferente dos alfabetos anteriores porque desenvolveu um sistema abugida, no qual cada símbolo representa uma consoante associada a uma vogal.
Exemplo:
*ሀ ለ ሐ መ ሠ ረ ሰ ሸ ቀ በ ተ ቸ ነ ኘ አ ከ ወ ዐ ዘ ዠ የ ደ ጀ ገ ጠ ጨ ጰ ጸ ፀ ፈ ፐ*
*Nomes das letras:*
Hä ( *ሀ* ), Lä ( *ለ* ), Ḥä ( *ሐ* ), Mä ( *መ* ), Śä ( *ሠ* ), Rä ( *ረ* ), Sä ( *ሰ* ), Šä ( *ሸ* ), Qä ( *ቀ* ), Bä ( *በ* ), Tä ( *ተ* ), Čä ( *ቸ* ), Nä ( *ነ* ), Ñä ( *ኘ* ), ʾä ( *አ* ), Kä ( *ከ* ), Wä ( *ወ* ), ʿä ( *ዐ* ), Zä ( *ዘ* ), Žä ( *ዠ* ), Yä ( *የ* ), Dä ( *ደ* ), Ǧä ( *ጀ* ), Gä ( *ገ* ), Ṭä ( *ጠ* ), Č̣ä ( *ጨ* ), P̣ä ( *ጰ* ), Ṣä ( *ጸ* ), Ṣ́ä ( *ፀ* ), Fä ( *ፈ* ).
É usado para línguas como geʿez, amárico e tigrínia, embora cada língua tenha seu próprio desenvolvimento ortográfico.
*Observação:*
O *Ugarítico* deve ficar à parte como uma tradição semítica alfabética em escrita cuneiforme, e *Geʿez* deve ser tratado separadamente dentro da história das escritas semíticas da região do Chifre da África.
Essa será uma distinção especialmente útil para seus estudos: *“semítico” descreve a família linguística; “alfabeto” descreve o sistema de escrita; e “descendência gráfica” descreve a história específica dos sinais.* São três níveis diferentes que não devemos misturar.
Podemos visualizar a grande transformação assim:
*Egípcio → Proto-Sinaítico → Fenício → Paleo-Hebraico → Samaritano → Aramaico → Hebraico Quadrado → Siríaco → Nabateu → Árabe*
Por exemplo:
*ʾAlef*:
*𓃾* → 𐤀 → 𐤀 → ࠀ → 𐡀 → א → ܐ → 𐢀 → ا
*Bet*:
*𓉐* → [sinal Proto-Sinaítico] → 𐤁 → 𐤁 → ࠁ → 𐡁 → ב → ܒ → 𐢁 → ب
*Ayin*:
*𓂀* → [sinal Proto-Sinaítico] → 𐤏 → 𐤏 → ࠏ → 𐡏 → ע → ܥ → 𐢏 → ع
Aqui vemos algo impressionante: *o desenho original desaparece gradualmente, mas a identidade fonológica da letra permanece reconhecível durante milênios.*
*E existe uma questão ainda mais interessante*
Os sinais Proto-Sinaíticos *não eram simplesmente “hieróglifos egípcios usados como letras*”.
A inovação foi conceitual:
*hieróglifo → imagem → palavra semítica → primeiro som da palavra → consoante*
Isso é uma mudança enorme na história da escrita.
O documento de Pandey destaca justamente que o Proto-Sinaítico representa um sistema consonantal alfabético muito antigo, atestado em Wadi el-Hol e Serabit el-Khadim, e que seus sinais pictográficos sofreram transformação progressiva até formas lineares que deram origem a outras tradições, incluindo a fenícia.
E há um detalhe que combina perfeitamente com nossa investigação anterior: *𐤀 não é o Proto-Sinaítico*. É fenício. O Proto-Sinaítico original era muito mais próximo de desenhos/pictogramas.
Portanto:
*Hieróglifo egípcio → sinal Proto-Sinaítico → valor acrofônico → Fenício/Paleo-hebraico → Samaritano → Aramaico → Hebraico → Siríaco → Nabateu → Árabe.*
Essa é, de fato, uma linha evolutiva da história das letras semíticas, e não apenas uma comparação de alfabetos.
*Mas há uma descoberta ainda mais importante*
Observe a diferença entre:
Ugarítico:
𐎀 𐎁 𐎂 𐎃 𐎄 𐎅 𐎆 𐎇 𐎈 𐎉 𐎊 𐎋 𐎌 𐎍 𐎎 𐎏 𐎐 𐎑 𐎒 𐎓 𐎔 𐎕 𐎖 𐎗 𐎘 𐎙 𐎚 𐎛 𐎜 𐎝
e:
*Fenício:*
𐤀 𐤁 𐤂 𐤃 𐤄 𐤅 𐤆 𐤇 𐤈 𐤉 𐤊 𐤋 𐤌 𐤍 𐤎 𐤏 𐤐 𐤑 𐤒 𐤓 𐤔 𐤕
O *Shin ugarítico 𐎌 aparece na posição 13*, enquanto o *Samekh 𐎒 aparece na posição 19*. Já no fenício, *Samekh 𐤎 vem antes de Ayin 𐤏, Pe 𐤐, Ṣade 𐤑, Qof 𐤒, Rosh 𐤓, Shin 𐤔 e Tau 𐤕*. Essa diferença de ordenação é precisamente uma das razões pelas quais devemos evitar uma tabela que simplesmente alinhe as 30 posições ugaríticas com as 22 posições fenícias.
Além disso, os quatro sinais ugaríticos que não possuem correspondente fenício/hebraico direto nessa série — *𐎃 Kha, 𐎏 Dhal, 𐎑 Zu e 𐎘 Thanna*, juntamente com *𐎙 Ghain* e os três sinais finais — são extremamente importantes para mostrar que o ugarítico *não é simplesmente um "fenício em cuneiforme"*. É um sistema alfabético semítico próprio, embora intimamente relacionado à tradição levantina.
A documentação comparativa de alfabetos antigos também confirma que a tradição aramaica de 22 letras corresponde ao mesmo núcleo fenício de 22 sinais, do Aleph ao Taw.
*E assim, temos a evolução em várias ramificações:*
*Escrita egípcia → Proto-Sinaítico / Proto-Canaanita → Escritas cananeias antigas → Fenício*
E, a partir daí, podemos representar:
*Fenício → Paleo-hebraico / Samaritano*
e, em outra ramificação:
*Fenício → Aramaico → Aramaico Imperial → Nabateu → Árabe*
enquanto:
*Aramaico → tradição siríaca → Estrangelo → Serto*
Isso combina muito melhor com a ideia central desse artigo: não uma única linha evolutiva, mas uma árvore de ramificações gráficas.
*Referências*
1- Composição dos cinco primeiros alfabetos: 𝓛𝓾𝓲𝓼𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮
2- Composição e observação sobre os alfabetos: 𝓒𝓱𝓪𝓽𝓖𝓟𝓣
3- Ugarítico https://www.unicode.org/charts/nameslist/n_10380.html?utm_source=chatgpt.com
4- https://oracc.museum.upenn.edu/doc/help/languages/ugaritic/?utm_source=chatgpt.com
5- Revisitando a codificação do Proto-Sinaitico no Unicode (em inglês) https://www.unicode.org/L2/L2019/19299-revisiting-proto-sinaitic.pdf
6- Aramaico Imperial/Unicode https://www.unicode.org/Public/18.0.0/charts/nameslist/10840/
6- Samaritano/Unicode https://www.unicode.org/wg2/docs/n3291.pdf
7- Jewish Encyclopedia - Semítico Languages https://www.jewishencyclopedia.com/articles/13415
Por: 𝓛𝓾𝓲𝓼 𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮 &̷ 𝓒𝓱𝓪𝓽𝓖𝓟𝓣 ܠܘܝܣ - לואיס - 𐤋𐤅𐤀𐤉𐤎 - ࠋࠅࠀࠉࠔ - Ⲗⲟⲩⲓⲥ - Λουίς✍🏼 ܞ ☧ ✞
Manaus-AM, 22-24 (Ter.-Qui.) de Set/2026.
