quarta-feira, 24 de abril de 2019

Qual o dia da morte de Jesus?

Qual o dia da morte de Jesus?

A tradição da sexta-feira 

“A grande maioria das pessoas acredita que o Senhor Jesus morreu numa sexta-feira por causa de uma tradição que se consolidou desde a igreja antiga, que passou a chamar esse dia de ‘Sexta-feira Santa’ ou ‘Sexta-feira da Paixão’.

Mas essa interpretação surgiu, em grande parte, por causa de uma confusão entre duas “parasceves”: o dia da preparação do sábado semanal e o dia da preparação da Páscoa.

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(*) A crença da sexta-feira já aparece muito cedo: Irineu de Lion (Contra as Heresias V.23.2), século II e Tertuliano (Adversus Judaeos 8), século III, antes da centralização romana medieval.


O argumento do “terceiro dia”

Assim sendo, a maioria entende que Ele morreu numa sexta-feira. Como vários textos bíblicos dizem que Ele ressuscitou ao terceiro dia (Mt 16:21; 17:23; 20:19; 27:63; Mc 8:31; 10:34; Lc 24:46; Jo 2:19-21; At 10:40; 1Co 15:4), os que defendem essa tese contam:

  • sexta-feira
  • sábado
  • domingo

Alguns eruditos que defendem essa tese explicam que na cultura judaica existia o chamado cômputo inclusivo*¹, em que parte de um dia podia ser contada como um dia inteiro (cf. Ester 4:16; 5:1).

No judaísmo antigo existia o princípio:

parte de um dia é considerada como o dia inteiro.”

Isso aparece no Talmude (embora posterior):

“Um dia e uma noite formam um 'onah', e parte de um onah é como o todo.”*²

Mas o problema é: isso explica três dias, não explica tão bem três dias e três noites.

Por isso minha objeção quanto ao cômputo inclusivo: O Senhor Jesus disse que ao morrer estaria "três dias e três noites no coração da terra" (Mateus 12:40), ou seja, três partes claras do dia e três partes escuras do dia Ele estaria "morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito" (1Pe 3:18), desceria "às regiões inferiores da terra" (Ef. 4:9). Ele não disse que passaria "três dias no coração da terra". Aqui a expressão grega é:

τρεῖς ἡμέρας καὶ τρεῖς νύκτας

treîs hêméras kaì treîs nýktas

Literalmente: "três dias e três noites" 

Isso indica um período completo, não apenas partes de dias.

Por isso, sexta  domingo não poderia cumprir literalmente essa expressão.

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Fontes: 

(*¹) Alguns estudiosos que discutem esse costume:

  • Harold W. Hoehner – Chronological Aspects of the Life of Christ
  • Jack Finegan – Handbook of Biblical Chronology
  • Craig L. Blomberg – The Historical Reliability of the Gospels

(*²) Talmude de Jerusalém, Shabbat 9:3 e Talmude Babilônico, Pesachim 4a. 


A hipótese da quarta-feira

Uma minoria entende que Jesus morreu numa quarta-feira.

Assim contam:

  • quinta-feira
  • sexta-feira
  • sábado

E afirmam que Ele ressuscitou no início do primeiro dia da semana.

Mas essa tese enfrenta uma dificuldade: Marcos 16:9 afirma que Ele ressuscitou “de manhã cedo no primeiro dia da semana”.


O significado de “parasceve”

O Senhor Jesus Cristo foi crucificado no chamado “dia da preparação”.

O termo grego é:

παρασκευή (paraskeuê)

que significa literalmente “preparação”.

Alguns confundem com a preparação do sábado semanal (Mc 15:42), mas em João 19:14 aparece a expressão:

παρασκευή τοῦ πάσχα

paraskeuê    tu  páskha

“preparação da Páscoa”.

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Nota: O termo grego παρασκευή (paraskeuē) significa literalmente “preparação”, mas já no século I havia se tornado um nome técnico para sexta-feira, o dia de preparação para o sábado. Esse uso aparece em autores judeus como Flavius Josephus (Antiguidades 16.163; Guerra Judaica 2.317) e também em textos cristãos antigos como a Didakhê 8.1. 
Em grego moderno ainda existe Παρασκευή (paraskeui = “preparação”) como nome feminino, para o nome da sexta-feira.

O sábado festivo da Páscoa

A “parasceve da Páscoa” correspondia ao dia 14 de Nisã, quando se imolavam os cordeiros e se preparava a refeição pascal.

O dia seguinte, 15 de Nisã, era um sábado festivo, independentemente do dia da semana. Mas nesse dia a Páscoa se deu no sexto dia da semana (por isso, “sabado” ou feriado). 

Por isso podia haver dois sábados na mesma semana:

  1. sábado festivo da Páscoa
  2. sábado semanal.

O relato de Lucas

“⁵⁴ Era o dia da preparação [preparação pascal - João 19:14], e começava o sábado. ⁵⁵ As mulheres que tinham vindo da Galileia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. ⁵⁶ Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado [o sétimo dia da semana], descansaram, segundo o mandamento.” (Lc 23:54-56 ARAi+)

Lucas descreve:

  • preparação
  • início do sábado
  • observação do túmulo pelas mulheres.
  • a seguir foram preparar aromas e bálsamos

(Lc 23:54-56)

Isso sugere que as mulheres acompanharam o sepultamento antes do descanso sabático.

Note que, quando amanheceu o primeiro sábado, (v. 54) as mulheres saíram de Jerusalém e caminharam para fora da cidade até o túmulo onde o corpo do Senhor havia sido colocado. Não foi o sábado do sétimo dia, pois era proibido que se saísse da cidade de Jerusalém no dia de sábado (Neemias 13:19) e nem que se fizesse obra alguma das suas portas para dentro. (Deut. 5:14)

Abrindo um parênteses:

Os religiosos judeus deram um "jeito" de fazer uma longa caminhada "sem quebrar o mandamento": inventaram a "jornada de um sábado" para quem estivesse fora das muralhas de Jerusalém. 

Essa a tradição judaica posterior permitisse uma caminhada limitada chamada “jornada de um sábado” (cerca de 2.000 côvados ou aproximadamente 1 km), baseada em interpretações rabínicas de Êxodo 16:29, tal prática não se baseava diretamente na Lei mosaica.

A tradição judaica posterior passou a permitir uma caminhada limitada chamada “jornada de um sábado” (cerca de 2.000 côvados ou aproximadamente 1 km), baseada em interpretações rabínicas de Êxodo 16:29, embora atal prática não se baseasse diretamente na Lei mosaica. Posteriormente o "caminho de um sábado" (ou jornada de um sábado) passou a refere-se a uma distância limitada, cerca de 1 km a 1,2 km (2.000 côvados).

Esse limite é mencionado no Novo Testamento em Atos 1:12 para descrever a distância entre o Monte das Oliveiras e Jerusalém. 

"Fechando parênteses". 

Assim sendo, as mulheres não poderiam sair de Jerusalém e fazer essa longa caminhada no sábado do sétimo dia. Logo foi no sábado pascal. Somente no sábado do sétimo dia que elas descansaram, segundo o mandamento.

Outra prova:

Mateus 27 - Quinta-feira dia da morte do Senhor Jesus:

59 E José, tomando o corpo, envolveu-o num pano limpo de linho

60 e o depositou no seu túmulo novo, que fizera abrir na rocha; e, rolando uma grande pedra para a entrada do sepulcro, se retirou.

61 Achavam-se ali, sentadas em frente da sepultura, Maria Madalena e a outra Maria.

Sexta-feira:

62 - No dia seguinte, que é o dia depois da preparação, reuniram-se os principais sacerdotes e os fariseus e, dirigindo-se a Pilatos,

63 - disseram-lhe: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, enquanto vivia, disse: Depois de três dias ressuscitarei.

64 - Ordena, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até ao terceiro dia, para não suceder que, vindo os discípulos, o roubem e depois digam ao povo: Ressuscitou dos mortos; e será o último embuste pior que o primeiro.

(Mateus 27:59-64) 

Compare com Lucas 23:

54 - Era o dia da preparação (QUINTA-FEIRA, MORTE DO CORDEIRO, ervas amargas, etc.), e começava o sábado (PÁSCOA, SEXTO DIA)

55 - As mulheres que tinham vindo da Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado.

56 - Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado (SÉTIMO DIA), descansaram, segundo o mandamento.

(Lucas 23:54-56)


A morte antes da Páscoa 

O evangelista João descreve a crucificação antes da Páscoa.

Por isso muitos estudiosos entendem que João quer mostrar que:

Jesus morre exatamente quando os cordeiros pascais estão sendo sacrificados

 

O simbolismo teológico

O quadro é impressionante:

No templo:

➡ cordeiros pascais sendo sacrificados

Fora da cidade:

➡ Cristo sendo crucificado

Isso conecta diretamente com:

1 Coríntios 5:7

“Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado.”

 
Outro detalhe curioso no evangelho de João

João 19:36 diz:

“Nenhum dos seus ossos será quebrado.”

Isso cita uma regra do cordeiro pascal.

Êxodo 12:46 determina:

“nenhum osso dele quebrareis.”

Ou seja, João constrói deliberadamente o retrato de Jesus como o verdadeiro cordeiro pascal.

Conexão cronológica

Jesus morreu na parasceve da Páscoa, então:

quinta-feira — morte

sexta-feira — sábado festivo (Páscoa)

sábado — sábado semanal

domingo — ressurreição

Isso reforça a tipologia:

Cristo morre no dia da preparação do cordeiro.

Conclusão teológica

Essa leitura faz a morte de Cristo cumprir três camadas simbólicas:

1️⃣ cordeiro pascal (Êxodo)

2️⃣ servo sofredor (Isaías 53)

3️⃣ sacrifício expiatório definitivo

Por isso João insiste tanto no tema do cordeiro.


O cordeiro pascal

Na narrativa de Êxodo 12, o sangue do cordeiro protege os israelitas do juízo.

O sangue:

  • marca as casas
  • impede o destruidor.

Esse evento se torna o modelo de redenção nacional de Israel.

Agora entra o evangelho de João

Observe como João liga três elementos:

1️⃣ Logos

2️⃣ Cordeiro de Deus

3️⃣ Páscoa

Logo no início do evangelho ele apresenta Jesus assim:

Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.” (João 1:29) 

Se juntarmos os temas:

  • Logos encarnado
  • Cordeiro pascal
  • redenção.

temos um quadro teológico completo.

A ideia implícita

A teologia joanina pode ser resumida assim:

  • o Logos é a Palavra eterna de Deus
  • essa Palavra se fez carne
  • essa Palavra se torna o Cordeiro sacrificial

Ou seja, o agente da criaçã2o se torna o agente da redenção.



A distinção entre dois sábados

 

A cronologia pode ser reconstruída assim:

• Quinta-feira — morte

• Sexta-feira — sábado festivo (15 de Nisã)

• Sábado — sábado semanal

Isso ajuda a explicar dois textos que parecem contraditórios:

Lucas 23:56

Marcos 16:1

Lucas afirma que as mulheres prepararam aromas antes do sábado.

Marcos diz que depois do sábado compraram aromas.

Se houver dois sábados, a sequência se torna lógica:

  1. morte
  2. sábado festivo
  3. mulheres compram aromas
  4. sábado semanal
  5. domingo — ressurreição.

Os sábados em Mateus 28:1
 

Vamos olhar o texto grego.

O versículo começa assim:

Ὀψὲ δὲ σαββάτων, τῇ ἐπιφωσκούσῃ εἰς μίαν σαββάτων…

Transliteração:

Opsé de sabbátōn, tē epiphōskousē eis mían sabbátōn…

Tradução literal:

“Depois dos sábados, ao amanhecer para o primeiro dos sábados…”

Observe duas coisas importantes.


1. Primeiro detalhe: “sábados” no plural

A palavra σαββάτων (sabbatōn) está no plural.

Portanto, o texto literalmente diz:

“depois dos sábados”

e não simplesmente:

“depois do sábado”.

A grande maioria das traduções modernizam para singular por tradição interpretativa e simplificam σαββάτων → sábado, ignorando o plural.

Mas, gramaticalmente, como dito acima

➡ o plural está no texto.

Mateus usa:

σαββάτων (plural)

não σαββάτου (singular).

Ou seja:

“dos sábados”.


2. Segundo detalhe: repetição do plural

A mesma palavra aparece novamente após o términos dos sábados:

μίαν σαββάτων

Literalmente:

“um (ou: primeiro) dos sábados”

Muitos interpretam que seria um hebraísmo para indicar o primeiro dia da semana, pois os dias eram contados a partir do sábado.

E exemplificam como equivalente em hebraico:

  • “primeiro do sábado”
  • “segundo do sábado”
  • etc.

Mas o ponto crucial é que Mateus usa o plural duas vezes.

 

3. Os dias bíblicos da semana

Em hebraico antigo numa contagem de números ordinais (primeiro, segundo, terceiro, etc.) o primeiro número iniciava como cardinal. 

Exemplo nos duas das criação em Gênesis 1 (tradução literal):

  • י֥וֹם אֶחָֽד (yōm ᵓeḥād ) = dia um (v. 5)
  • י֥וֹם שֵׁנִֽי (yōm shēnî ) = dia segundo (v. 8)
  • י֥וֹם שְׁלִישִֽׁי (yōm shəlîshî ) = dia terceiro (v. 13)
  • י֥וֹם רְבִיעִֽי (yōm rəvîᶜî ) = dia quarto (v. 19)
  • י֥וֹם חֲמִישִֽׁי (yōm ḥămîshî) = dia quinto (v. 23)
  • י֥וֹם הַשִּׁשִּֽׁי (yōm ha·shishî) = dia o sexto (v. 31)
  • י֥וֹם הַשְּׁבִיעִ֔י (yōm ha·shəvîᶜî) = dia o sétimo (cap. 2:2)

A Septuaginta, em Gênesis 1, segue essa mesma ordem do hebraico:

  • ἡμέρα μία (hēméra mía) = dia um (v. 5)
  • ἡμέρα δευτέρα (hēméra deutéra) = dia segundo (v. 8)
  • ἡμέρα τρίτη (méra trítē) = dia terceiro (v. 13)
  • ἡμέρα τετάρτη (méra tetár) = dia (v. 19)
  • ἡμέρα πέμπτη (méra pémptē) = dia (v. 23)
  • ἡμέρα ἕκτη (méra hék) = dia (v. 31)
  • ἡμέρᾳ τῇ ἑβδόμῃ (méra tê hebdómē) = dia o sétimo (cap. 2:2)

É por isso que em Mateus 28:1 o primeiro dia da semana em grego é chamado de μίαν σαββάτων (mían sabbátōn) = um (ou: primeiro) de sábados. 

Em Marcos 16.2:

μια των σαββάτων (mía tōn sabbátōn) = um (ou: primeiro) dos sábados. 

Também em Lucas 24:1 e João 20:1.

Assim sendo, em Mateus 28:1, o dia seguinte os sábados (pascal e do sétimo dia) foi também chamado de um (ou primeiro) dos sábados pelo fato de ser esse o primeiro de uma sequência. 

 

4. Ligação com Levítico 23


A ligação com Livro de Levítico 23:15 é muito interessante.

O texto hebraico diz:
” וּסְפַרְתֶּ֤ם לָכֶם֙ מִמָּחֳרַ֣ת הַשַּׁבָּ֔ת מִיּוֹם֙ הֲבִ֣יאֲכֶ֔ם אֶת־ עֹ֖מֶר הַתְּנוּפָ֑ה שֶׁ֥בַע שַׁבָּת֖וֹת תְּמִימֹ֥ת תִּהְיֶֽינָה׃“
“Contareis para vós outros desde o dia imediato ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete sábados inteiros serão.”
Embora a maioria das traduções reinterpretam com "sete semanas", mas o texto hebraico original diz literalmente:

שבע שבתות
shevaʿ shabbātōth
“sete sábados”.

Após o sábado da Páscoa começava a contagem rumo a Pentecostes.

Por isso, linguisticamente, a expressão:
μία τῶν σαββάτων (mía tôn sabbátōn) pode ser entendida como: primeiro dia da contagem rumo aos sete sábados mencionados em Levítico 23:15”.

Esse é um argumento realmente interessante e pouco conhecido.

A cronologia no quadro está assim:

quinta — crucificação
sexta — sábado pascal
sábado — sábado semanal
domingo — ressurreição

Isso harmoniza os evangelhos:
  • Evangelho de João 19:14
  • Evangelho de Lucas 23:54-56
  • Evangelho de Marcos 16:1
  • Evangelho de Mateus 28:1
Essa tabela deixa essa sequência muito clara visualmente.

Como o domingo da ressurreição é o primeiro da contagem dos sete sábados, então temos:

1️⃣ Páscoa — morte do cordeiro
2️⃣ Primícias — ressurreição
3️⃣ Pentecostes — descida do Espírito.

Isso conecta diretamente com 1ª Coríntios 15:20: Cristo ressuscitou como primícias.
Ou seja, o calendário de Livro de Levítico 23 se cumpre passo a passo.
🙌🏼 


5. Ainda em Levítico 23

“²⁹ E isto vos será por estatuto perpétuo: no sétimo mês, aos dez do mês, afligireis as vossas almas, e nenhum trabalho fareis nem o natural nem o estrangeiro que peregrina entre vós. 
³⁰ Porque naquele dia se fará expiação por vós, para purificar-vos; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o SENHOR. ³¹ É um sábado de descanso (שַׁבַּ֥ת שַׁבָּת֖וֹן  = shabath shabātōn) para vós, e afligireis as vossas almas; isto é estatuto perpétuo.”
(Lv. 16:29-31 ACF'11)
No uso bíblico, a palavra shabbat não se refere apenas ao sétimo dia da semana. O termo também designa dias festivos de descanso ligados às solenidades do calendário sagrado (Lv. 23), chamados shabbat shabātōn (שַׁבַּ֥ת שַׁבָּת֖וֹן) — ‘descanso solene’. Esses dias dependiam do calendário festivo e podiam ocorrer em qualquer dia da semana. 

O significado de שַׁבָּת (Shabbat) na Bíblia

A palavra hebraica שַׁבָּת (shabbath) deriva do verbo שׁבת (shavat), que significa:
cessar
parar
descansar.

Ou seja, originalmente a ideia é cessação, não necessariamente sábado semanal.

Por isso, no texto bíblico o termo pode designar:

1️⃣ o sábado semanal (Êxodo 20:8-11)
2️⃣ dias festivos de descanso
3️⃣ anos sabáticos
4️⃣ o jubileu

O termo Hebraico שַׁבַּ֥ת שַׁבָּת֖וֹן = shabath shabātōn) significa literalmente:

“descanso solene”
ou
“descanso completo”.

Esse termo é usado para dias festivos, não apenas para o sábado semanal.
Exemplos:

  • Levítico 16:31 — Dia da Expiação
  • Levítico 23:24 — Festa das Trombetas
  • Levítico 23:32 — Yom Kippur
  • Levítico 23:39 — Tabernáculos.
Ou seja:

➡ são “sábados festivos”, independentemente do dia da semana.

O capítulo 23 lista as festas do calendário bíblico.

Ele distingue dois tipos de descanso:
1️⃣ sábado semanal

v.3

2️⃣ dias de descanso festivos
ligados às festas.

Esses dias são chamados de shabbat, mesmo quando não caem no sétimo dia da semana.

6. Isso harmoniza perfeitamente os dois Evangelhos

Eis a sequência:

1️⃣ Sexta — crucificação
2️⃣ Sábado festivo (primeiro dia dos pães ázimos)
3️⃣ Dia intermediário — mulheres compram/preparam aromas
4️⃣ Sábado semanal — descanso conforme o mandamento
5️⃣ Domingo — visita ao túmulo

Isso resolve a tensão entre:

  •  Marcos 16:1
    (compraram aromas depois do sábado, -– não  o sétimo dia)

  • Lucas 23:56
    (prepararam aromas antes do sábado – o sétimo dia)

Com dois sábados, ambos ficam em harmonia.

Isso aparece claramente em João 19:31

O evangelho diz que o sábado daquela semana era:

“um grande sábado”.

No grego:

ἦν γὰρ μεγάλη ἡ ἡμέρα ἐκείνου τοῦ σαββάτου

Isso ocorre porque o sábado coincidiu com o início da festa dos Pães Asmos.


7. Um detalhe filológico interessante

A expressão ὀψὲ σαββάτων pode significar:

  • “tarde dos sábados”
  • “depois dos sábados”
  • “no fim dos sábados”

Mas o plural continua presente.

Muitos comentaristas reconhecem isso, embora expliquem como:

➡ plural semítico para “semana”.

Contudo, na semana da Páscoa, o plural se encaixa perfeitamente na existência de mais de um sábado.



O grande dia de sábado 

Esse detalhe aparece em Evangelho de João 19:31, e ele é extremamente importante para a cronologia da crucificação.

O texto grego diz:

οἱ οὖν Ἰουδαῖοι, ἐπεὶ παρασκευὴ ἦν,
ἵνα μὴ μείνῃ ἐπὶ τοῦ σταυροῦ τὰ σώματα
ἐν τῷ σαββάτῳ
(ἦν γὰρ μεγάλη ἡ ἡμέρα ἐκείνου τοῦ σαββάτου)

Transliteração fonética:

hoi un iudáioi, epê paraskeuê ên,
hina mê meinê epì tu stauru tà sômata
en tô sabbátô
(ên gàr megálê hê heméra ekeínu tu sabbátu)

Tradução literal da parte final:

“(pois grande era o dia daquele sábado).”


1. A expressão-chave

A frase:

μεγάλη ἡ ἡμέρα τοῦ σαββάτου

significa literalmente:

“grande era o dia daquele sábado”.

Algumas traduções modernas vertem:

“aquele sábado era um grande dia”.

Mas o sentido no contexto judaico é mais específico.


2. O que significa “grande sábado”

Entre os judeus, quando um sábado semanal coincidia com uma festa solene, ele era considerado um sábado especial ou grande.

Isso acontecia quando:

  • o primeiro dia dos Pães Asmos caía junto ao sábado semanal.

Esse dia é chamado em Levítico 23:7 de:

“santa convocação”.


3. O ponto importante para a cronologia

João não diz simplesmente:

“era o sábado”.

Ele enfatiza:

“grande era aquele sábado”.

Isso indica que:

  • não era um sábado comum
  • era um sábado festivo ligado à Páscoa.

4. Como isso se encaixa na sequência proposta acima

A reconstrução fica assim:

Quinta-feira
crucificação
preparação da Páscoa

Sexta-feira
sábado festivo (1º dia dos Pães Asmos)

Sábado
sábado semanal

Domingo
ressurreição (μία σαββάτων).

Assim aparecem dois sábados consecutivos, exatamente como já demonstrado.


5. Isso explica algo curioso nos evangelhos

Compare:

Evangelho de Lucas 23:56

“descansaram no sábado”.

Mas em Evangelho de Marcos 16:1:

“passado o sábado, compraram aromas”.

Como houve dois sábados, tudo se encaixa:

1️⃣ sábado festivo
2️⃣ dia intermediário para comprar especiarias
3️⃣ sábado semanal.


6. Resultado

Esse pequeno detalhe de João 19:31 sustenta três coisas:

1️⃣ o sábado era festivo
2️⃣ havia mais de um sábado naquela semana
3️⃣ isso ajuda a explicar a cronologia dos evangelhos.

7. As três festas 

Vamos a uma conexão teológica clássica muito importante.

As três festas da primavera são:

1️⃣ Pêssach (Páscoa)

➡ sacrifício do cordeiro.

Cumprimento cristológico:

✅ o sacrifício do Messias.

 

2️⃣ Pães Asmos

➡ remoção do fermento

➡ pureza.

Simbolismo cristão tradicional:

✅ a sepultura.

 

3️⃣ Primícias

➡ oferta dos primeiros frutos.

Cumprimento:

✅ a ressurreição.

Essa interpretação aparece inclusive em Primeira Epístola aos Coríntios 15:20, onde Paulo de Tarso chama Cristo de:

  • “as primícias dos que dormem”.
Um detalhe que passa despercebido por muitos sobre a oferta das primícias:
  • o primeiro feixe da colheita era apresentado
  • antes da colheita completa.
Ou seja: ele representava o começo da ressurreição futura.

Isso encaixa perfeitamente com a teologia de Paulo:

Cristo = primeira ressurreição
humanidade = colheita futura


8. O texto das Primícias em Levítico 23

O ritual das primícias é descrito em Livro de Levítico 23:10-11.

O verso diz:
“E moverá o molho perante o Senhor, para que sejais aceitos; no dia seguinte ao sábado o sacerdote o moverá.”
Hebraico: מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת (mimmōḥorat ha-shabath

Significado literal:

➡ “no dia depois do sábado”
ou
➡ “no dia seguinte ao sábado”.

9. Conclusão linguística e teológica

O calendário de Levítico cria uma sequência profética:

1️⃣ Pêssach → morte
2️⃣ Pães Asmos → sepultura
3️⃣ Primícias → ressurreição.

E a ressurreição ocorre justamente:

➡ “no dia seguinte ao sábado”.

O "dia seguinte ao sábado" é chamado de domingo em nosso idioma português. 

O DOMINGO

Porque o primeiro dia da semana em nosso idioma (e em outros) é chamado de Domingo ou Dia do Senhor? 

O vocábulo domingo vem do latim dies dominicus, que significa: “dia do Senhor”, considerado como o primeiro dia da semana em diversos outros idiomas, principalmente devido à influência cristã, incluindo:

  • Italiano: Domenica
  • Francês: Dimanche
  • Galego: Domingo
  • Romeno: Duminică
  • Romanche: Dumengia

A palavra latina dominus significa “Senhor”, originando diversas palavras em português, como:

  • domingo
  • dominical
  • dominar
  • dominador.

Essa expressão latina (dies dominicus) é equivalente à expressão grega encontrada em Apocalipse 1:10:

Κυριακῇ ἡμέρᾳ
(kyriakē hēmera), literalmente:

“dia do Senhor”.

De modo semelhante, a palavra grega κύριος (“Senhor”) originou o adjetivo κυριακός / κυριακή, que significa:

“pertencente ao Senhor”.

Por isso κυριακή ἡμέρα significa literalmente:

“dia pertencente ao Senhor”.

Desde a antiguidade, os cristãos de língua grega passaram a usar Κυριακή como nome do primeiro dia da semana.

Os dias da semana em grego moderno são:

1º Κυριακή (Kyriakí)
2º Δευτέρα (Deftéra)
3º Τρίτη (Tríti)
4º Τετάρτη (Tetárti)
5º Πέμπτη (Pémpti)
6º Παρασκευή (Paraskeví)
7º Σάββατο (Sávvato)

É importante observar que a palavra grega para “Senhor” é κύριος, enquanto κυριακή é um adjetivo derivado dessa palavra. O gênero feminino ocorre porque concorda com o substantivo feminino ἡμέρα (“dia”).

Essa mesma raiz aparece em Primeira Epístola aos Coríntios 11:20, onde o apóstolo Paulo usa a expressão:

κυριακὸν* δεῖπνον
(kyriakon deipnon)

“ceia do Senhor”.

 ________________________________

(*) κυριακὸν é forma acusativa de Κυριάκος 


Comparação importante

Há uma diferença entre duas expressões gregas semelhantes:

1. Κυριακή ἡμέρα

“dia do Senhor” (domingo)

Ex.: Apocalipse 1:10

2. ἡμέρα Κυρίου

“dia do Senhor” no sentido escatológico

Exemplos:

  • Livro de Sofonias 1:14
  • Atos dos Apóstolos 2:20
  • Segunda Epístola de Pedro 3:10

Nesse caso a expressão refere-se ao dia do juízo ou à parusia (vinda) de Cristo.


 

O NOME DO PRIMEIRO DIA DA SEMANA

O primeiro dia da semana recebeu diferentes nomes ao longo da história e nas diversas línguas:

  1. Grego moderno: Κυριακή (Kyriakí), “Dia do Senhor”.

  2. Latim: dies dominicus, “Dia do Senhor”, de onde deriva o português domingo.

  3. Português: domingo, proveniente do latim dominicus.

  4. Hebraico:
    יֹום רִאשׁוֹן (Yōm Rishōn) — “primeiro dia [da semana]”.

  5. Aramaico-siríaco:

  • ܚܕ ܒܫܒܐ
    (oriental: ḥaḏ bəshabā / ocidental: ḥaḏ bəshabō)
    literalmente: “um/primeiro da semana”.

  • ܝܘܡܐ ܡܪܢܝܐ
    (oriental: Yaumā Māranāyā / ocidental: Yaumō Mōrōnōyō)
    significado: “Dia do Nosso Senhor”.

Um detalhe interessante é que a Peshitta, em Apocalipse 1:10, apresenta a forma:

ܚܕܒܫܒܐ (ḥaḏbəshabā / ḥaḏbəshabō),

como se fosse uma única palavra, enquanto nas demais ocorrências do Novo Testamento siríaco a expressão aparece normalmente separada:

ܚܕ ܒܫܒܐ (ḥaḏ bəshabā / ḥaḏ bəshabō).

Entre essas ocorrências estão:

  • Evangelho de Mateus 28:1
  • Evangelho de Marcos 16:2, 9
  • Evangelho de Lucas 24:1
  • Evangelho de João 20:1, 19
  • Atos dos Apóstolos 20:7
  • Primeira Epístola aos Coríntios 16:2.

Essa forma semítica — “um da semana” — reflete a maneira tradicional judaica antiga de contar os dias, iniciando a sequência a partir do sábado. 

Mas atualmente em hebraico moderno o primeiro dia da semana é chamado: 

יום רישון (Yōm rîshōn) = dia primeiro (primeiro dia). 

O Dia do Senhor na igreja primitiva e nos escrito patrísticos

Esse ponto histórico é realmente muito interessante porque mostra como os cristãos dos primeiros séculos entenderam o domingo. Eles começaram a usar duas expressões diferentes:

1️⃣ “primeiro dia da semana” (linguagem judaica)
2️⃣ “dia do Senhor” (linguagem teológica cristã).

Vamos a alguns testemunhos antigos.


 

A transição do “primeiro dia” para “dia do Senhor”

Como estudado acima, nos próprios escritos do Novo Testamento aparecem as duas formas.

1. “Primeiro dia da semana

Exemplos:

  • Evangelho de João 20:1
  • Atos dos Apóstolos 20:7
  • Primeira Epístola aos Coríntios 16:2

Forma grega:

μία τῶν σαββάτων
“um (primeiro) dos sábados, também interpretado como "primeiro [dia] da semana”.

2. “Dia do Senhor”

Aparece em:

  • Apocalipse 1:10

Forma grega:

κυριακῇ ἡμέρᾳ
“dia do Senhor”.

 

Testemunhos extra bíblicos dos primeiros séculos

 

1. Didaquê – um testemunho muito antigo (século I)

O documento cristão chamado Didakhê (Didaquê) já menciona o domingo.

Cap. 14:

Mas no dia Domingo do Senhor reuni-vos, parti o pão e dai graças.”

Texto grego:

κατὰ κυριακὴν δὲ κυρίου συναχθέντες

Transliteração:

kata kyriakēn de kyriou synachthentes

Aqui já aparece κυριακή (kyriakê) como nome do dia, mesma palavra usada em Apocalipse 1:10.

✔ Portanto, é um dos primeiros textos cristãos que usa esse termo.

Isso mostra que o termo já era usado no final do século I ou início do II.



2. Inácio de Antioquia (cerca de 110 d.C.)

O bispo Inácio de Antioquia escreveu:

“Aqueles que viviam segundo a ordem antiga das coisas voltaram-se para a nova esperança, não mais sabatizando [observando o sábado], mas vivendo segundo o dia do Senhor, no qual a nossa vida foi abençoada, por Ele e por sua morte.(…) É absurdo falar de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, judaizar. Não foi o cristianismo que acreditou no judaísmo, e sim o judaísmo no cristianismo, pois nele se reuniu toda língua que acredita em Deus” (Carta aos Magnésios 9:1)

No grego ele escreve:

μηκέτι σαββατίζοντες, ἀλλὰ κατὰ κυριακὴν ζῶντες

Transliteração:

mēketi sabbatízontes*, alla kata kyriakēn zōntes

Tradução:

“Não mais "sabatizando" [vivendo segundo o sábado] , mas vivendo segundo o Dia do Senhor” (literalmente: "vivendo segundo o domingo"). 

O texto continua dizendo que foi nesse dia que a vida surgiu por meio da ressurreição de Cristo.

Ele conecta o domingo com:

a ressurreição de Cristo.

O que torna esse testemunho tão importante são três razões principais.

1️⃣ Proximidade com os apóstolos

Inácio foi discípulo de João Apóstolo segundo a tradição antiga.

Ou seja:

ele pertence à geração imediatamente posterior aos apóstolos.

2️⃣ Data extremamente antiga

A carta foi escrita cerca de 70 anos após a ressurreição de Cristo.

Isso mostra que a prática dominical não surgiu séculos depois, mas já existia muito cedo.

3️⃣ Linguagem litúrgica

Ele usa a expressão:

κυριακή (kyriakē) = “Domingo”, “Dia do Senhor” -– até hoje essa palavra em grego moderno significa: Domingo! 

A mesma raiz aparece no Livro do Apocalipse 1:10.

Isso indica que o termo já era conhecido nas igrejas.

Isso comprova que no início do século II, Inácio de Antioquia, discípulo dos apóstolos, testemunha que os cristãos ‘não mais sabatizavam, mas viviam segundo o Dia do Senhor’, mostrando que o culto dominical era uma prática estabelecida nas igrejas primitivas.

Um detalhe histórico importante:

Esse verbo σαββατίζω também aparece na Septuaginta.

Por exemplo em Livro do Êxodo 16:30, indicando:

“³⁰ και εσαββατισεν ο λαος τη ημερα τη εβδομη” (Έξ 16:30 LXX)

“e sabatizou (descansou) o povo no sétimo dia”.

Ou seja:

Inácio está usando vocabulário bíblico tradicional, mas aplicando-o ao debate cristão.

✔ Aqui também aparece κυριακή.

_________________________________

(*) A forma σαββατίζοντες (sabbatízontes) está no particípio presente ativo plural, ou seja: “praticando o sábado”, “observando o sábado”. 

Inácio não diz apenas “não guardar o sábado”.

Ele usa um verbo que significa viver segundo o sistema sabático judaico.

Isso sugere algo mais amplo: não apenas o dia da semana, mas o modo de vida religioso judaico baseado no sábado.

Inácio estabelece um paralelismo muito forte:

vida segundo o sábado

versus

vida segundo o Dia do Senhor.

E ele explica o motivo:

Porque nesse dia “a vida surgiu por meio dele e de sua morte” — referência clara à ressurreição de Cristo.


3. Justino Mártir (✝165) d.C.)

O apologista Justino Mártir explica detalhadamente por que os cristãos se reuniam no domingo.

Na Primeira Apologia 67 ele escreve:

“Reunimo-nos todos no dia do sol, porque é o primeiro dia após o sábado dos judeus, mas também o primeiro dia em que Deus, extraindo a matéria das trevas, criou o mundo e, neste mesmo dia, Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dentre os mortos” (Apologia 1:67)

Aqui ainda aparece o latim equivalente ao domingo (dies solis = dia do sol), mas o motivo cristão é:

a ressurreição.

 

Observação: Na época de Justino, assim como acontece em alguns idiomas atuais, o primeiro dia da semana era chamado de "dia do sol", assim como o sétimo dia era chamado de "dia de saturno". Mais exemplos logo abaixo. 

Os próprios cristãos do século II reconheciam que o domingo era chamado “dia do Sol” na cultura romana.

 

4. A Epístola de Barnabé 

A Epístola de Barnabé (em grego: Επιστολή Βαρνάβα = Epistolê Barnába, em hebraico: איגרת בארנבס = ᵓiguéret Barnabas) é uma epístola grega contendo vinte e um capítulos, preservadas inteiramente no Codex Sinaiticus, do século IV d.C., onde ela aparece no final do Novo Testamento. Comumente datada por especialistas por volta de 100 d.C., ou em um intervalo entre 96 d.C. e 135 d.C., depois de se referir ao sétimo dia guardado (observado) pelos judeus, nos diz: 

“Guardamos o oitavo dia [o Domingo] com alegria, o dia em que Jesus levantou-se dos mortos” (Barnabé 15,6-8).

Aqui aparece uma expressão teológica muito usada na igreja antiga:

➡ “oitavo dia”

Isso significa: depois do ciclo da semana judaica, início da nova criação.

Por isso o domingo era visto simbolicamente como:

➡ dia da nova criação em Cristo.

❌ Barnabé não usa a palavra Κυριακή.

O texto diz:

τὴν ὀγδόην ἡμέραν

Transliteração:

tēn ogdoēn hēmeran

Significado:

“o oitavo dia”.

Ou seja, Barnabé descreve o domingo teologicamente, mas não usa o termo κυριακή.

 

5. Tertuliano: 160-220:

Nós nada temos a haver com o Sábado, nem com outras festas judaicas e menos ainda com as celebrações dos pagãos. Nós temos as nossas próprias solenidades: O Dia do Senhor... (De Idolatria 14) – Destaques acrescentados. Em “De Oratione” (23). 

Tertuliano instou o povo de Deus a cessar o trabalho no Domingo por ser este um dia de culto ao Senhor.
Esse testemunho é importante porque mostra que, no final do século II, os cristãos já distinguiam claramente:
sábado ➙ judaísmo 
domingo ➙ dia do Senhor. 

Ou seja, o domingo já era entendido como dia próprio do culto cristão.

❌ Tertuliano não usa κυριακή, porque escreve em latim, não em grego.

Ele usa:

dies dominica
“Dia do Senhor”.

Esse termo latino é equivalente a κυριακή.

 

6. Eusébio de Cesaréia (265-339)


Eusébio fala do costume da seita herética ebionita que "esforçavam-se por honrar demasiadamente a observância da lei e acreditavam também que era necessário a todo custo rechaçar as Cartas do Apóstolo, a quem chamavam apóstata da lei":

v. 5. "Da mesma forma que aqueles, observavam o sábado e tudo o mais da disciplina judaica. No entanto, aos domingos celebravam ritos semelhantes aos nossos em memória da ressurreição do Salvador." (História Eclesiástica, cap. XXVII:5 (Da heresia dos ebionitas

 Esse testemunho é muito interessante porque mostra que até mesmo grupos judaizantes reconheciam a importância do domingo.

Na História Eclesiástica, Eusébio normalmente usa expressões como:

  • κυριακὴ ἡμέρα
  • τῇ κυριακῇ

Ou seja:

✔ usa κυριακή, mas no seu trecho citado sobre os ebionitas o termo pode aparecer apenas como domingo na tradução.

 

7. Testemunho de Jerônimo 

Jerônimo (✝420), doutor da Igreja e responsável por traduzir a Sagrada Escritura para o latim (Vulgata), nos diz: 

O Dia do Senhor, o Dia da Ressurreição, o Dia dos Cristãos, é o nosso dia. Por isso se chama Dia do Senhor. Foi nesse dia que o Senhor subiu vitorioso para junto do Pai. Se os pagãos o denominam Dia do Sol, também nós o confessamos de bom grado: pois, hoje, levantou-se a Luz do mundo; hoje, apareceu o Sol de Justiça, cujos raios trazem a salvação” (CCL 78,550,52).

Esse testemunho aparece em seus comentários e sermões.

Ele também explica por que os cristãos não se incomodavam com o nome “dia do sol”:

porque Cristo é chamado de:

  • luz do mundo
  • sol de justiça. 

Interessante que o próprio Senhor Jesus é chamado de Sol nascente das alturas, pelo sacerdote Zacarias, pai de João Batista:

“Graças à entranhável misericórdia de nosso Deus, pela qual nos visitará o sol nascente das alturas” (Lc. 1:78). 

Essa imagem messiânica também aparece no Antigo Testamento.

Por exemplo em Livro de Malaquias 4:2:

“o sol da justiça nascerá trazendo salvação”. 

Livro dos Salmos 84:11 também usa essa metáfora:

“Porque o SENHOR Deus é sol e escudo; o SENHOR dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente.” (Salmo 84:11)

 ❌ Jerônimo também não usa κυριακή porque escreve em latim.

Ele usa:

dies dominica.


A linha histórica que seus testemunhos mostram

Se organizarmos os textos cronologicamente, surge uma sequência muito forte:

Data aproximada Testemunho
c. 100 Epístola de Barnabé
107 Inácio de Antioquia
150 Justino Mártir
200 Tertuliano
300 Eusébio
400 Jerônimo

Todos eles reconhecem o domingo como dia cristão.


Conclusão apologética

Esses testemunhos demonstram que:

❌ o domingo não surgiu na Idade Média
❌ não foi criado por Constantino
❌ não é invenção tardia.

Mas aparece:

✔ no Novo Testamento
✔ nos discípulos dos apóstolos
✔ na igreja do século II.


7. Resumo filológico

Autor  Usa Κυριακή?
Didache  ✔
Inácio de Antioquia  ✔
Barnabé  ❌
Tertuliano  ❌ (latim)
Eusébio  ✔
Jerônimo  ❌ (latim)

O ponto histórico importante

Os dois testemunhos mais antigos fora do Novo Testamento que usam κυριακή são:

  • Didache
  • Inácio de Antioquia

Ambos do final do século I / início do século II.

Isso mostra que o termo “Dia do Senhor” já estava estabelecido muito cedo na igreja.


Resumo

Os testemunhos da igreja primitiva mostram que o domingo já era reconhecido como o ‘Dia do Senhor’ desde o final do século I. Escritores como Barnabé, Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Tertuliano testemunham que os cristãos celebravam nesse dia a ressurreição de Cristo.

 

9. Testemunho do Novo Testamento 

Mas a observância do primeiro dia da semana não começou após a morte dos apóstolos como enganam os sabatistas, pois a Igreja, desde o tempos dos Apóstolos, se reunia aos Domingos para celebrar o culto, como está narrado em Atos dos Apóstolos 20,7:

 “No primeiro dia da semana, estávamos reunidos a fim de partir o pão.”

Aqui aparecem três elementos litúrgicos claros:

  • reunião da igreja
  • fração do pão (Eucaristia / Ceia)
  • ensino apostólico.

Isso mostra uma reunião regular, não um evento casual. 

Primeira Epístola aos Coríntios 16,2:

“Quanto à coleta em favor dos irmãos… Todo primeiro dia da semana, cada qual separe livremente o que tenha conseguido economizar, de modo que não se espere a minha chegada para recolher os donativos.”

Isso sugere que:

➡ o primeiro dia era o momento em que os cristãos se reuniam.

Caso contrário, a instrução perderia sentido. 

E também a Epístola aos Colossenses 2,16:

“¹⁶ Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, ¹⁷ porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo. (Cl. 2:16-17 )

Nessa Epístola aos Colossenses Paulo menciona três categorias judaicas:

  • festas anuais
  • luas novas (mensais)
  • sábados.

Essa sequência corresponde exatamente ao calendário judaico de Livro de Levítico 23.

Ou seja:

Paulo está falando de observâncias cultuais judaicas.

 
Conclusão 

Essa sequência histórica mostra claramente que:

❌ o domingo não foi criado por Constantino

❌ não surgiu na Idade Média

❌ não foi invenção da Igreja Católica.

Mas aparece:

✔ no Novo Testamento

✔ nos discípulos dos apóstolos

✔ na igreja do século II.

 

Aconteceu no DOMINGO:

  1. JESUS RESSUSCITOU (Mar. 16:2, 6, 9);
  2. Falou com Maria Madalena que depois foi a primeira a anunciar as Boas Novas (Jo. 20:11-18);
  3. Apareceu a dois discípulos no caminho de Emaús (Mar. 16:12, 13; Luc. 24:13,ss);
  4. Apareceu aos seus dez discípulos (Jo. 20:19);
  5. Uma semana depois aos onze (Jo. 20:26);
  6. No Dia do Pentecostes: a vinda do Espírito Santo (At.2:1-4, compare com Lev. 23:15,16);
  7. O primeiro sermão evangelístico (Atos 2:14);
  8. Quase 30.000 conversos (verso 41);
  9. O primeiro Batismo Cristão (versos 38 a 41);
  10. O culto cristão com a Ceia do Senhor (Atos 20:7);
  11. A coleta cristã (1Cor. 16:2);
  12. Cristo revelou o Apocalipse (Apoc. 1:10)
Obs.: Note que nos parágrafos de 1 a 5 e 12, acima, demonstram que o Senhor se reuniu com os crentes somente no Primeiro Dia da Semana, simbolizando a reunião cristã do culto dominical. Os parágrafos de 6-11 são conseqüência dos primeiros.

 
Sábado e Domingo nos idiomas europeus

Nos idiomas europeus de origem românica (latina), por influência do antigo império romano, os nomes dos dias da semana, em sua maioria, eram dedicados aos sete principais astros visíveis a olho nu. O dia que corresponde ao nosso “primeiro dia da semana” era chamado “dia do Sol”; o segundo, “dia da Lua”; o terceiro “dia de Marte”; o quarto, “dia de Mercúrio”; o quinto, ‘dia de Júpiter”; o sexto, “dia de Vênus” e o sétimo “dia de Saturno”. 

Por influência da igreja católica romana, somente os nomes do primeiro e do sétimo dia da semana foram mudados para “Domingo” e “Sábado”, e o galego são exceções, pois todos os nomes da semana foram mudados). 

Exemplo para sábado e domingo:

  1. Português: Sábado - Domingo;

  2. Galego: Sábado - Domingo

  3. Espanhol: Sábado - Domingo;

  4. Italiano: Sabato - Doménica;

  5. Romeno: Sȃmbӑtӑ - Duminicӑ

  6. Catalão: Dissabte - Diumenge

  7. Francês: Samedi - Dimanche

  8. Esperanto: Ŝabato – Dimanĉo

Nas línguas de origens germânicas, a maioria dos nomes dos dias da semana era dedicada aos deuses nórdicos, à exceção do segundo dia dedicado à Lua e em alguns idiomas o primeiro e o sétimo dia que, por influência romana, foram chamados de “dia do sol” e “dia de Saturno”, respectivamente.

Eis alguns exemplos:

1. Domingo: 
  • Inglês: Sunday (dia do sol)
  • Saxão: Sun's Day;
  • Holandês: Zondag (dia do sol)
  • Galês: Sul (sol)
  • Escandinavo: Sunnudagr;
  • Sueco: Söndag;
  • Irlandês (Gaélico): Dé Domhnaigh
  • Bretão: Sul (ou disul)
Latim (Origem): Dies solis

2. Sábado
  • Inglês: Saturday (Saturn + day).
  • Saxão: Saturn's day
  • Holandês: Zaterdag (Dia de Saturno).
  • Galês: Dydd Sadwrn (Dia de Saturno).
  • Irlandês (Gaélico): Satharn (Saturno).
  • Bretão: Sadorn (Saturno)
  • Latim (Origem): Saturni dies. Curiosidade:

Curiosidade:
 
Nos países escandinavos, o sétimo dia da semana é chamado de "dia de banho" devido à prática Viking de tomar banho no dia anterior ao 'dia do sol':
  • Escandinavo: Langardagr;
  • Sueco: Lördag;
  • Finlandês: Lauantai;
  • Dinamarquês: Lørdag;
  • Islandês: Laugardagur.
A conclusão a que chegamos é essa: 

Se o nome ‘Sunday’ prova culto ao sol, então ‘Saturday’ provaria culto a Saturno e ‘Thursday’ culto a Thor. Evidentemente, trata-se apenas de herança linguística, não de prática religiosa.

O motivo de eu ter colocado esses exemplos é o fato de que algumas seitas sabatistas, de forma desonesta, usarem alguns desses exemplos do nome do "primeiro dia da semana" em alguns desses idiomas como apoio à sua tese que o Domingo é pagão onde se adora o sol, é a marca da besta, que foi criado pelo imperador Constantino, pelo Papa, pela igreja católica, etc., mas não colocam nesses mesmos idiomas o nome do "sétimo dia da semana". 

 

5. A teologia que surgiu daí

Como podemos constatar, a prática da adoração cristã no primeiro dia da semana é bem antiga, começando ainda na era apostólica e continuando na era dos pais apóstolos (pais da igreja). Por isso os cristãos passaram a ver o domingo como:

1️⃣ dia da ressurreição

  • Evangelho de Mateus 28:1


2️⃣ início da nova criação

Assim como:

  • criação começou com “dia um” em Livro de Gênesis 1:5

os cristãos viam a ressurreição como

novo começo da criação.


3️⃣ primeiro dia escatológico

Por isso alguns escritores chamaram o domingo de:

“oitavo dia”.

Porque ele vem depois do sétimo.

Essa ideia aparece em Justino Mártir e outros pais da igreja.


Algo que reforça muito o nosso estudo

Nesse capítulo mostramos três fases históricas:

Fase Nome do dia
judaica      primeiro da semana
igreja primitiva      dia do Senhor
latim medieval      domingo

Isso forma uma linha histórica muito coerente.


Conclusão

Como pudemos observar, esse estudo conecta:

  • hebraico יום ראשון
  • grego μία σαββάτων
  • siríaco ܚܕ ܒܫܒܐ
  • grego cristão κυριακή
  • latim dies dominicus
  • português domingo.

Isso é raro em estudos desse tipo, pois mostra essa cadeia linguística completa.

Mas tudo isso é para o desfecho da obra redentora dAquele que é a razão da nossa salvação e fe: Jesus Cristo. 

Jesus ressuscita no dia das primícias.

Isso aparece na Primeira Epístola aos Coríntios 15:20

“Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dos que dormem.”

E a festa das Primícias era celebrada exatamente:

no dia após o sábado da Páscoa

(Levítico 23:11).

Ou seja:

  • cordeiro pascal → morte
  • primícias → ressurreição
  • pentecostes → derramamento do Espírito.

Assim sendo, Jesus Cristo, nosso Cordeiro Pascal (1Co 5:7), em Sua morte cumpriu as Escrituras e permaneceu “três dias e três noites no coração da terra” (Mt 12:40; Ef 4:9), estando “morto na carne, mas vivificado no espírito” (1Pe 3:18), mas só terceiro dia ressuscitou, sendo Ele as primícias dos que dormem! (1Co. 15:20)



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