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terça-feira, 8 de setembro de 2026

O Aramaico da Peshitta não é o de Yeshua - 1

 


O ARAMAICO DA PESHITTA NÃO É O MESMO ARAMAICO DE YESHUA (1)

 

Introdução

Tem crescido, nos últimos anos, o número de judaizantes e defensores da chamada teoria da primazia semítica que sustentam que o Novo Testamento teria sido originalmente escrito em hebraico e/ou aramaico. Entre os argumentos apresentados está o fato de que a maioria dos escritores do Novo Testamento era de origem judaica e, principalmente, a alegação de que a Peshitta, escrita em aramaico-siríaco, não seria uma tradução, mas o próprio texto original do Novo Testamento.

Entretanto, uma afirmação dessa magnitude precisa ser examinada à luz das evidências linguísticas e textuais, e não simplesmente pressuposta a partir da identidade étnica dos autores ou da língua falada por Jesus e pelos primeiros discípulos.

O fato de Yeshua e seus contemporâneos falarem aramaico não significa, por si só, que o Novo Testamento tenha sido originalmente escrito em aramaico. Da mesma forma, o fato de existir uma antiga tradução siríaca do Novo Testamento não demonstra que ela seja o seu autógrafo original.

Por isso, nesta série vamos colocar a própria Peshitta sob análise, comparando seu aramaico-siríaco com o aramaico da Judeia e, sobretudo, examinando sua relação com o texto grego do Novo Testamento.

Nossa proposta não será simplesmente afirmar que a Peshitta é uma tradução. Vamos procurar as marcas linguísticas que permitam demonstrá-lo a partir do próprio texto.

E começaremos por uma questão fundamental:

O aramaico da Peshitta é realmente o mesmo aramaico que Yeshua falava?

A resposta deverá ser encontrada não em argumentos de autoridade, mas na própria evidência linguística.

Nesta série vamos investigar, através do próprio texto da Peshitta, uma questão importante: o aramaico da Peshitta é realmente o mesmo aramaico que era falado por Yeshua (Jesus) e seus contemporâneos na Judeia e na Galileia?

Nossa investigação será feita principalmente através da linguística comparativa, examinando escrita, vocabulário, morfologia, sintaxe e, sobretudo, as diferenças entre o aramaico judaico palestinense e o siríaco da Peshitta. 

O argumento da série

Portanto, não queremos provar nossa tese apenas pela diferença dos alfabetos.

A investigação seguirá várias camadas:

1. Escrita

Hebraico/aramaico judaico × escrita siríaca.

2. Fonologia

Diferenças de pronúncia e evolução dos sons.

3. Vocabulário

Palavras empregadas pela Peshitta que não correspondem necessariamente ao aramaico palestinense.

4. Morfologia

Formação de substantivos, verbos, pronomes e partículas.

5. Sintaxe

Construção das frases e ordem dos elementos.

6. Topônimos e antropônimos

Jerusalém, Betesda, Gólgota, Gabatá, Abadom etc.

7. Comparação com o grego

Especialmente nos lugares em que a Peshitta parece reproduzir construções características do texto grego.

É nessa última camada que poderemos testar seriamente a hipótese de que determinados elementos da Peshitta são resultado de tradução do grego, e não simplesmente características do aramaico falado por Yeshua.

  

1. Os alfabetos não são os mesmos

Primeiramente, é necessário observar que os sistemas de escrita são diferentes.

Aramaico/hebraico judaico

א ב ג ד ה ו ז ח ט י כ ל מ נ ס ע פ צ ק ר ש ת

Siríaco da Peshitta

ܐ ܒ ܓ ܕ ܗ ܘ ܙ ܚ ܛ ܝ ܟ ܠ ܡ ܢ ܣ ܥ ܦ ܨ ܩ ܪ ܫ ܬ

O alfabeto siríaco não é simplesmente o alfabeto hebraico quadrático utilizado nos manuscritos judaicos. Trata-se de uma tradição gráfica distinta, desenvolvida historicamente a partir da escrita aramaica de Edessa da Síria.

Entretanto, uma ressalva é necessária: alfabetos diferentes não significam necessariamente idiomas diferentes. Portanto, a diferença gráfica é apenas o primeiro elemento da investigação. A demonstração principal deverá vir da gramática e do vocabulário.


2. A Peshitta chama palavras aramaicas de “hebraico”

Um fenômeno particularmente interessante aparece no texto da Peshitta.

É compreensível que os escritores do Novo Testamento grego empreguem a expressão “em hebraico” para designar expressões que, linguisticamente, pertenciam ao ambiente aramaico judaico do período.

Isso ocorre, por exemplo, em:

  • João 5:2
  • João 19:13
  • João 19:17
  • João 19:20
  • João 20:16
  • Apocalipse 9:11

Mas surge uma questão:

Por que a Peshitta, escrita em siríaco, reproduz esse mesmo procedimento e chama de “hebraico” palavras que apresentam forma aramaica?

A hipótese que investigaremos nesta série é:

A Peshitta preserva, nesses lugares, a terminologia linguística do texto grego que está traduzindo.

Vejamos um exemplo.


3. Yōḥanan — João 5:2

O texto da Peshitta diz:

”ܐܝܼܬ݂ ܗ݈ܘܵܐ ܕܹ݁ܝܢ ܬ݁ܲܡܵܢ ܒ݁ܐܘܿܪܹܫܠܸܡ ܕ݁ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܚܕ݂ܵܐ ܕ݁ܡܲܥܡܘܿܕ݂ܝܼܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܒܹ݁ܝܬ݂‌ܚܸܣܕ݁ܵܐ ܘܐܝܼܬ݂ ܗ݈ܘܵܐ ܒ݁ܵܗ ܚܲܡܫܵܐ ܐܸܣܛܘܝܼܢ“ (João 5:2 PeshED+)

Transliteração

ʾīṯ hwā dēn tamān b-ʾŌrēšlem dukṯā ḥdā d-maʿmūḏīṯā d-mitqaryā ʿeḇrāyīṯ bēṯ-ḥesdā, w-ʾīṯ hwā bāh ḥamšā ʾesṭūyīn.

Tradução literal

“Havia, porém, ali em Jerusalém um lugar de banho/batismo que era chamado em hebraico Betesda, e havia nele cinco pórticos.”

A expressão que nos interessa é:

ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂

ʿeḇrāyīṯ

“em hebraico / hebraicamente”

Observe o fenômeno:

o texto da Peshitta está escrito em siríaco, mas diz que o nome é chamado “em hebraico”.

Esse fenômeno merece investigação porque a forma linguística de ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ pertence ao próprio siríaco, enquanto sua referência é à língua hebraica.


4. Betesda

O nome aparece na Peshitta como:

ܒܹܝܬ݂ ܚܸܣܕ݁ܵܐ

Bēṯ ḥesdā

A expressão corresponde a aramaica:

בֵּית חֶסְדָּא

Bēṯ ḥesdāʾ

“Casa da Misericórdia.”

O elemento בֵּית / ܒܹܝܬ݂ significa “casa”, enquanto חֶסֶד / ܚܸܣܕ݁ܵܐ está relacionado ao conceito de “misericórdia, bondade, benevolência”.

Portanto, temos uma expressão de aparência claramente semítica e próxima às formações aramaicas/hebraicas.

Mas aqui está o ponto que deverá ser investigado:

Se o texto chama o nome de “hebraico”, por que a forma preservada na Peshitta apresenta características próprias do aramaico/siríaco?


5. O nome da Cidade Santa

Outro detalhe muito interessante aparece imediatamente no mesmo versículo acima.

O texto da Peshitta Oriental traz:

ܐܘܿܪܸܫܠܸܡ

ʾŌrešlem

enquanto a tradição siríaca ocidental apresenta:

ܐܽܘܪܺܫܠܶܡ

ʾūrīšlem

Comparemos com o hebraico bíblico:

יְרוּשָׁלַיִם

Yərūšālayim

“Jerusalém”.

Temos, portanto, uma diferença fonológica e morfológica interessante entre a forma hebraica e as formas encontradas no siríaco.

A questão não é simplesmente saber se um falante siríaco poderia pronunciar o nome “Jerusalém” dessa maneira. A questão é muito mais ampla:

Por que a tradição siríaca apresenta uma forma própria do nome, diferente da forma hebraica tradicional יְרוּשָׁלַיִם?

Esse será um dos elementos que examinaremos ao longo da série.


5. O Nome do Pórtico 

João 19:13 — Gabatá

Continuando nossa investigação sobre o aramaico da Peshitta, chegamos agora a João 19:13, um texto particularmente interessante para demonstrar que o siríaco da Peshitta não deve ser simplesmente identificado com o aramaico judaico falado por Yeshua e seus contemporâneos.

Confira o texto:

”¹³ ܟ݁ܲܕ݂ ܫܡܲܥ ܕܹ݁ܝܢ ܦ݁ܝܼܠܲܛܘܿܣ ܗܵܕ݂ܹܐ ܡܸܠܬ݂ܵܐ ܐܲܦ݁ܩܹܗ ܠܝܼܫܘܿܥ ܠܒ݂ܲܪ ܘܝܼܬ݂ܸܒ݂ ܥܲܠ ܒ݁ܝܼܡ ܒ݁ܕ݂ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܪܨܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ ܕ݁ܟ݂ܹܐܦ݂ܹܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܦ݂ܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ“
(João 19:13 — PeshED+)

Transliteração acadêmica:

Kaḏ šəmaᶜ dēn Pīlāṭōs hāḏē mellṯā, appqēh ləYišōᶜ ləḇar, wīṯeḇ ᶜal bīm bəḏōkkəṯā dəmeṯqaryā reṣīp̄tā dəkēp̄ē ᶜeḇrāyīṯ dēn meṯamrā Gəp̄īp̄tā.

Transliteração simplificada:

Kadh sh'maʿ dēn Pīlāṭōs hādhē melthā, appqēh l-Yishōʿ l-var, w-īthev ʿal bīm b-dōkthā d-mithqaryā retsīpftā d-khēfē ʿevrāyīth dēn methamrā G'fīftā.

Obs.:  (aspirado) = bh, v;   (aspirado) = dh;   (aspirado) = ph (f);  š = sh;    (aspirado) = th. 

Tradução literal

“Mas, quando Pilatos ouviu essa palavra, trouxe Yeshua para fora e sentou-se no tribunal, no lugar que é chamado Pavimento de Pedras; em hebraico, porém, é chamado Gəpīp̄tā.”

Observe a expressão:

ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ

“em hebraico”

E imediatamente depois:

ܓ݁ܦ݂ܝܼܦ݂ܬ݁ܵܐ — Gəp̄īp̄tā

“Gabatá/Gfifta”

Aqui encontramos um detalhe linguístico extremamente importante.


O que o grego diz?

O texto grego de João 19:13 apresenta:

ὃ λέγεται Ἑβραϊστὶ Γαββαθᾶ

ho légεται Hebraïstì Gabbathá

“que é chamado em hebraico Gabatá.”

Temos, portanto:

Ἑβραϊστί — Hebraïstí
“em hebraico”

Γαββαθᾶ — Gabbathá
“Gabatá”

A Peshitta conserva a mesma estrutura:

ܥܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ
“em hebraico”

seguido de:

ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ — Gəpīp̄tā


A questão linguística

O nome relacionado ao grego Γαββαθᾶ (Gabbathá) corresponde a uma forma aramaica judaica tradicionalmente reconstruída como:

גַּבְּתָא

Gabbəṯā / Gabthā

Entretanto, observe o que acontece na Peshitta.

Em vez de simplesmente conservar a forma judaica גבתא, encontramos:

ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ

Gəp̄īp̄tā

Ou seja, o tradutor siríaco transmite o nome segundo o sistema fonológico e morfológico do siríaco, e não do aramaico judaico

Temos, portanto, uma diferença significativa:

Aramaico palestinense:
גבתא
Gabbəṯā

Grego:
Γαββαθᾶ
Gabbathá

Peshitta:
ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ
Gəpīp̄tā

Não estamos simplesmente diante de uma diferença de alfabeto. A forma do vocábulo sofreu uma adaptação linguística ao sistema siríaco.


E surge uma pergunta importante

Se a Peshitta fosse simplesmente o mesmo aramaico falado por Yeshua e seus contemporâneos, por que encontramos uma forma siríaca como:

ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ — Gəpīp̄tā

em vez de simplesmente preservar a forma judaica:

גבתא — Gabbəṯā?

Esse é precisamente o tipo de evidência que devemos examinar ao longo desta série.

Não estamos afirmando que o siríaco e o aramaico judaico sejam línguas sem qualquer relação. Pelo contrário: ambos pertencem à grande família das línguas aramaicas.

A questão é outra:

São exatamente a mesma variedade de aramaico?

João 19:13 indica que a resposta é não.


A questão fica ainda mais interessante

O texto da Peshitta diz que ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ (Gəpīp̄tā) é chamado:

ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂

ʿeḇrāyīṯ

“em hebraico”.

Portanto, temos um fenômeno muito interessante:

Texto grego:
“em hebraico” → Γαββαθᾶ

Peshitta:
“em hebraico” → ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ

O tradutor siríaco está transmitindo para seu próprio sistema linguístico um nome semítico associado ao ambiente judaico.

Isso é perfeitamente compatível com a tese de que estamos diante de uma tradução siríaca de um texto grego que já continha termos semíticos judaicos.


Conclusão

João 19:13 nos fornece uma importante peça para nossa investigação.

A Peshitta:

  1. está escrita em siríaco;
  2. emprega ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ (ʿeḇrāyīṯ) para “em hebraico”;
  3. reproduz o nome aramaico-judaico Gabatá através da forma siríaca ܓܦܝܼܦ݂ܬܵܐ (Gəpīp̄tā);
  4. não simplesmente preserva a forma aramaica judaica גבתא (Gabbəṯā).

Portanto, João 19:13 constitui mais uma evidência de que não devemos identificar automaticamente o aramaico-siríaco da Peshitta com o aramaico judaico falado por Yeshua.

E ainda há outros textos muito mais reveladores.


  

6. O LUGAR DA CRUCIFICAÇÃO

João 19:17 — Calvário / Gólgota

Continuando nossa investigação sobre o aramaico da Peshitta, chegamos agora a João 19:17.

Este versículo é particularmente importante porque apresenta novamente a fórmula “em hebraico”, mas agora podemos observar com clareza a diferença entre o vocabulário siríaco empregado pela Peshitta e o nome semítico judaico transmitido pelo texto.

Confira:

”ܟ݁ܲܕ݂ ܫܩܝܼܠ ܙܩܝܼܦ݂ܹܗ ܠܕ݂ܘܿܟ݁ܬ݂ܵܐ ܕ݁ܡܸܬ݂ܩܲܪܝܵܐ ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ“
(João 19:17 — PeshED+)

Transliteração acadêmica:

Kaḏ šəqīl zəqīpēh ləḏōkkəṯā dəmiṯqaryā Qarqap̄ṯā, ʿeḇrāyīṯ dēn meṯʾamrā Gāgōltā.

Transliteração simplificada:

Kadh shqīl zəqīpēh l-dōkthā dəmithqaryā Qarqapfthā, ʿevrāyīth dēn methʾamrā Gāgōltā.

Tradução literal

“E, levando a sua cruz, foi para o lugar que é chamado Crânio; em hebraico, porém, é chamado Gāgūltā.”

Observe novamente a expressão:

ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ — ʿeḇrāyīṯ

“em hebraico”

E depois:

ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ — Gāgūltā

“Gólgota”


O “Crânio” em siríaco

Antes de apresentar o nome “Gólgota”, a Peshitta utiliza:

ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ

Qarqapfthā

“Crânio” / “lugar do crânio”

Essa é uma forma pertencente ao vocabulário siríaco.

A raiz está relacionada ao conceito de crânio, cabeça, e encontramos formas cognatas nas demais línguas aramaicas.

Portanto:

Peshitta: ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ — Qarqapfthā

“Crânio”

Mas o versículo continua:

ܥܸܒ݂ܪܵܐܝܼܬ݂ ܕܹ݁ܝܢ ܡܸܬ݂ܲܐܡܪܵܐ

ʿeḇrāyīṯ dēn methʾamrā

“mas em hebraico é chamado...”

E então aparece:

ܓ݁ܵܓ݂ܘܿܠܬ݁ܵܐ

Gāgōltā

“Gólgota”


Compare as formas

Aqui está o ponto que queremos observar:

Siríaco da Peshitta:

ܩܲܪܩܲܦ݂ܬ݂ܵܐ
Qarqafthā

“Crânio”

Forma aramaico-judaica:

גָּלְגֹּתָּא
Galgôtā / Golgôtā

“Gólgota”

Grego:

Γολγοθᾶ
Golgothá

“Gólgota”

Temos, portanto, três formas linguísticas relacionadas, mas não idênticas.

Grego → Γολγοθᾶ (Golgothá)

Aramaico judaico → גָּלְגֹּתָּא (Galgôtā)

Peshitta → ܓܵܓܘܿܠܬܵܐ (Gāgōltā)

E o detalhe mais importante é que a Peshitta utiliza seu próprio vocabulário siríaco para traduzir o significado:

ܩܪܩܦܬܐ — Qarqap̄tā

“Crânio”

e depois preserva/adapta o nome:

ܓܓܘܠܬܐ — Gāgōltā

“Gógolta”


O que isso demonstra?

Mais uma vez encontramos a mesma estrutura que observamos em João 19:13.

O grego apresenta:

“o lugar chamado Crânio, que em hebraico é chamado Gólgota.”

E a Peshitta reproduz essa estrutura:

“o lugar chamado Crânio, mas em hebraico é chamado Gāgūltā.”

Isso é extremamente significativo.

Se o texto da Peshitta fosse simplesmente o próprio aramaico palestinense de Yeshua, esperaríamos que o vocabulário e as formas linguísticas correspondessem naturalmente ao aramaico palestinense.

Entretanto, encontramos:

ܩܪܩܦܬܐ — Qarqap̄tā

como o termo siríaco para “Crânio”, enquanto o nome palestinense é apresentado separadamente como:

ܓܓܘܠܬܐ — Gāgūltā.

Assim, o próprio texto estabelece uma distinção entre o vocabulário siríaco utilizado pelo tradutor e o nome semítico que ele apresenta como “em hebraico”.