Os Pais da Igreja e a evolução do primado romano
1. Santo Inácio de Antioquia (c. 35–107)
A primeira ocorrência da expressão "Igreja Católica"
A famosa frase de Santo Inácio de Antioquia é frequentemente citada como prova de que, já no início do século II, existia a atual Igreja Católica Romana. Mas será que foi isso que Inácio realmente quis dizer?
Para responder corretamente, precisamos ler seus escritos dentro do contexto histórico, sem projetar sobre eles desenvolvimentos eclesiásticos que ocorreram muitos séculos depois.
Onde aparece a expressão "Igreja Católica"?
Na Carta aos Esmirniotas 8.2, Inácio escreveu:
"Onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica."
No texto grego:
Ὅπου ἂν ᾖ Ἰησοῦς Χριστός, ἐκεῖ ἡ καθολικὴ ἐκκλησία.
A palavra καθολική (katholikḗ) deriva da expressão κατὰ ὅλου (katà hólou), cujo sentido é "segundo o todo", "universal", "abrangente".
Assim, a expressão καθολικὴ ἐκκλησία significa literalmente:
"A Igreja Universal."
Em nenhum momento Inácio acrescenta a palavra "Romana".
Sua preocupação era distinguir a verdadeira Igreja de Cristo das seitas heréticas que começavam a surgir, especialmente os docetistas, e não identificar uma instituição sediada em Roma.
Por que Inácio escreveu às igrejas locais?
Durante sua viagem para o martírio em Roma, Inácio escreveu cartas às igrejas de:
- Éfeso
- Magnésia
- Trales
- Roma
- Filadélfia
- Esmirna
Além de uma carta pessoal a Policarpo.
Cada igreja possuía seu próprio bispo, seus presbíteros e seus diáconos.
Inácio exorta todas elas à unidade, à fidelidade apostólica e à obediência aos seus líderes locais.
Em nenhuma dessas cartas ele afirma que todas as igrejas estejam juridicamente subordinadas ao bispo de Roma.
O que Inácio diz sobre a Igreja de Roma?
Entre todas as igrejas, Inácio dedica palavras especialmente honrosas à igreja de Roma.
Ele a descreve com expressões de grande respeito, reconhecendo sua importância entre as comunidades cristãs.
Entretanto, um detalhe chama bastante atenção.
Enquanto nas demais cartas Inácio exorta, corrige, aconselha e dá instruções aos destinatários, na carta aos Romanos ele faz justamente o contrário.
Seu pedido é apenas este:
"Não impeçam meu martírio."
Ou seja, ele não escreve à igreja de Roma como alguém que estivesse dirigindo uma autoridade suprema da cristandade, nem menciona qualquer poder jurisdicional universal exercido por seu bispo.
Existe alguma referência ao bispo de Roma?
Não.
Essa observação costuma surpreender muitos leitores.
Nas cartas dirigidas a Éfeso, Magnésia, Trales, Filadélfia e Esmirna, Inácio enfatiza repetidamente a importância do bispo local.
Mas, na carta aos Romanos, ele sequer menciona o bispo daquela igreja.
Se já existisse um papado com autoridade universal semelhante ao definido muitos séculos depois, seria natural esperar alguma referência explícita ao bispo de Roma.
Essa referência simplesmente não aparece.
O contexto histórico
No início do século II, Roma era a capital do Império Romano e uma das mais importantes comunidades cristãs.
Sua importância era reconhecida por diversas igrejas.
Contudo, reconhecer a importância da igreja de Roma não é o mesmo que afirmar a existência de um bispo exercendo jurisdição universal sobre toda a Igreja.
Os próprios escritos de Inácio mostram uma estrutura formada por diversas igrejas locais, cada uma presidida por seu próprio bispo, vivendo em comunhão umas com as outras.
Conclusão
Santo Inácio de Antioquia foi o primeiro escritor cristão conhecido a utilizar a expressão "Igreja Católica".
Entretanto, no contexto de seus escritos, o termo significa "Igreja Universal", isto é, a totalidade da Igreja de Cristo espalhada pelo mundo.
Embora Inácio manifeste profundo respeito pela igreja de Roma, seus escritos não afirmam que o bispo romano exercesse supremacia jurisdicional sobre todas as igrejas.
A concepção posterior de um papado universal desenvolveu-se gradualmente ao longo dos séculos, sendo objeto de debates e definições posteriores na história da Igreja.
Inácio de Antioquia foi um dos cristãos primitivos que testificou que os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana para adoração.
Esse é um ponto muito importante, porque mostra que Inácio não era apenas uma testemunha da expressão "Igreja Católica", mas também da prática litúrgica da Igreja no início do século II.
O texto encontra-se na Carta aos Magnésios 9.1.
O grego diz:
μηκέτι σαββατίζοντες, ἀλλὰ κατὰ κυριακὴν ζῶντες...
Tradução literal:
"Não mais vivendo segundo o sábado, mas vivendo segundo o Dia do Senhor..."
Muitas traduções vertem:
"Não mais guardando o sábado, mas vivendo de acordo com o Dia do Senhor."
O contexto continua dizendo que foi nesse dia que "nossa vida surgiu por meio dele e de sua morte", uma clara referência à ressurreição de Cristo.
Esse testemunho é especialmente significativo porque foi escrito por volta de 107 d.C., quando ainda viviam pessoas que haviam conhecido os próprios apóstolos.
Um excelente complemento para o estudo
Você pode acrescentar um quadro como este:
Um testemunho sobre o Dia do Senhor
Santo Inácio também é uma importante testemunha da prática cristã primitiva de reunir-se no primeiro dia da semana.
Escrevendo aos cristãos de Magnésia, declarou:
"Não mais vivendo segundo o sábado, mas segundo o Dia do Senhor, no qual também nossa vida surgiu por meio dele e de sua morte."
(Carta aos Magnésios 9.1)
Esse testemunho confirma o que já aparece no Novo Testamento:
- Atos 20:7 — os discípulos reuniam-se no primeiro dia da semana para partir o pão;
- 1 Coríntios 16:2 — Paulo orienta que as ofertas fossem separadas no primeiro dia da semana;
- Apocalipse 1:10 — João menciona estar "no Dia do Senhor".
Assim, Inácio demonstra que, poucas décadas após os apóstolos, a comunidade cristã já identificava o primeiro dia da semana como o Dia do Senhor, em memória da ressurreição de Jesus.
Na minha opinião, esse tópico merece até um estudo próprio na série. Muitos conhecem Inácio apenas pela expressão "Igreja Católica", mas esquecem que ele também é uma das mais antigas testemunhas da transição da observância sabática judaica para a celebração cristã do Dia do Senhor, tema de grande importância para a história da liturgia cristã.
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