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domingo, 7 de junho de 2026

A Origem da Letra J


A ORIGEM DA LETRA "J"



A letra J é relativamente “nova” no alfabeto, embora sua origem esteja ligada à letra I. Durante
 muitos séculos, I e J eram a mesma letra, apenas escritas de formas diferentes.


Origem antiga

A história começa no alfabeto fenício, com a letra yod ( י /𐤉), que representava um som parecido com “y” (como o “y” inglês em yes). Essa letra passou para o grego como iota (Ι, ι) e depois para o alfabeto latino como I.

No latim clássico, não existia a letra J. Os romanos escreviam apenas I, tanto para vogal quanto para som consonantal.

Por exemplo:

IVLIVS (iulius) = Julius (Júlio)

IESVS (iesus) = Jesus

IAM = jam (depois “já” em português)

Ou seja, o “J” moderno era escrito com I (assim como o U moderno era escrito com V, como nos dois primeiros exemplos).


Como surgiu o J?

Na Idade Média, escribas começaram a fazer uma variação gráfica da letra I, especialmente quando ela aparecia no final de números romanos ou em certas posições nas palavras. Essa forma alongada acabou ficando assim: J.

No começo, era apenas uma variante caligráfica, não uma nova letra.

Exemplo medieval:

iiij = 4 (uma forma de escrever o número romano iiii)

Somente mais tarde, essa forma começou a distinguir um som consonantal da vogal I.


Quem consolidou a letra J?

Um passo importante ocorreu no século XVI com o humanista francês Gian Giorgio Trissino (1478–1550), que defendeu a distinção entre:

I = vogal ( )

J = consoante (som de “y” ou semelhante)

Essa separação tipográfica foi se espalhando gradualmente pela Europa após Trissino propor reformas na ortografia com a distinção de várias letras no alfabeto latino usado na Itália, mas só foram aceitas as distinções dos sons de U e V, bem como do I e J, que foram incorporados a vários alfabetos europeus. A primeira dessas reformas (1559) já havia sido recomendada por Antonio de Nebrija (1492) na Espanha, e pelo filósofo francês Pierre de la Ramée (Petrus Ramus - 1515-1572) — Louis Kukenheim: Contributions à l'histoire de la grammaire italienne: espagnole et française, pg. 35.) e Clóvis Monteiro em "Esboço de história literária", 1961 - pg. 20.


Diferenças conforme o idioma


Quanto à pronúncia em cada idioma, vale fazer algumas distinções fonéticas e históricas importantes.

No latim clássico, a letra I tinha dois valores:

1. Vogal = som de “*i*”

Ex.: filius = “fí-li-us”.

2. Semivogal/consoante = som de “y” (como o inglês yes)

Ex.: Iulius (Júlio) ≈ “Yulius”, Iesus ≈ “Yesus”.

Ou seja, o “I consonantal” não tinha ainda som de “J” português/francês (como em José ou Jean). O som original era mais próximo de Y.

Com isso quero dizer que o I consonantal originalmente tinha valor de semivogal (“y”), mas em algumas línguas românicas evoluiu posteriormente para o som moderno de J. Mas quando estava dependente de uma consoante na mesma sílaba, tinha o som de "i". Em outros idiomas, como o alemão, tinha o mesmo som de "y, i" (como ainda é no alemão moderno).

Essa observação sobre posição silábica é bastante pertinente, e vamos explicar melhor:

Quando o "i" iniciava uma sílaba diante de uma vogal, frequentemente tinha valor consonantal (ya/ye/yo):

  • iam ≈ “yam”
  • Iulius ≈ “Yulius”
  • Iesus ≈ “Yesus”
  
Quando o I estava após uma consoante ou funcionava como núcleo da sílaba, era vogal:

vir = “vir”
filius = “fí-li-us”
in = “in”

O detalhe importante é que, historicamente, o som consonantal do I J evoluiu de modo diferente em cada língua.


1. Alemão

O alemão preservou algo muito próximo do valor antigo:

 J = “Y”
  •  Johann = “Yohann”
  •  Ja = “Ya”

Isso é bem conservador em relação ao latim antigo.


2. Inglês

O inglês endureceu o som:
  •  John = “Djôn”
  •  Jesus = “Djízas”

3. Francês

O francês transformou o antigo som _y_ num som fricativo suave:
  •  Jean = “Jã”
  •  jour = “jur” (som de “j” francês)

Português

O português também evoluiu para o som moderno de J:
  •  José
  •  Jerusalém
  •  Jesus

Mas isso é uma evolução tardia. Se um romano do século I visse “Jesus” escrito como IESVS, ele provavelmente pronunciaria algo próximo de “Yesus”, não “Jezus”.

Isso explica por que nomes bíblicos mudam tanto entre idiomas:

Yeshuaʿ (hebraico/aramaico)

Iēsous (grego)

Iesus (latim)

Jesus (português)

E o mesmo ocorre com:

Iacobus ➟ Jacó/Tiago/James

Iohannes ➟ João/John/Jean/Johann

Para quem estuda línguas bíblicas, isso ajuda muito a entender por que “Javéoriginalmente era mais próximo deYahwehdo que doJportuguês moderno, pois o J antigo europeu frequentemente ainda tinha valor de Y.

 


O som da letra J mudou conforme a língua


Como já referido acima, o J não tem o mesmo som em todos os idiomas:

Latim eclesiástico antigo / alemão  som de “y” (Johann ≈ “Yohann”)

Inglês ⇒ som de “dj” (John)

Francês ⇒ som de “j” suave (Jean)

Português ⇒ som de “j” forte (José)

Espanhol ⇒ som gutural (Juan, pronúncia: rruan, som gutural semelhante ao “r” forte aspirado do espanhol castelhano.

Isso afeta até nomes bíblicos. Por exemplo:

Jesus em latim era IESVS, pronunciado aproximadamente “Yesus”.

O nome divino reconstruído como “Yahweh” nunca começaria com som de “J”, porque o hebraico usa a letra י (yod ), equivalente a um som de Y, não de J.

Assim, formas como “Jeová” surgiram muito mais tarde, quando o J europeu antigo ainda tinha som de “Y”.

Um detalhe interessante para os estudos bíblicos: nas traduções antigas, você verá frequentemente Iesus, Ierusalem, Iacobus e Iohannes, porque o J ainda não havia sido plenamente separado do I. Isso é muito comum em textos da Vulgata e em impressos renascentistas. Também podemos comprovar isso em aplicativos de Bíblias que contenham textos originais de Bíblias como a Vulgata (e Nova Vulgata), King James de 1611, entre outras. 

• Vulgata latina:

1. “Liber generationis Iesu Christi filii David filii Abraham.” (Evangelium secundum Matthaeum 1:1 – VUL)


2. Tradução Inglesa King James, 1611:

“The booke of the generation of Iesus Christ, the sonne of Dauid, the sonne of Abraham.” (Matthew 1:1 – KJV1611)


Entre a Baixa Idade Média e o Renascimento, o “I” vocálico começou a ser distinguido graficamente do “I” consonantal, que gradualmente se tornou a letra “J”. Essa diferenciação consolidou-se sobretudo entre os séculos XV e XVI. Isso é uma evolução normal de um idioma e em seu sistema de escrita, pois muitas palavras em português arcaico que eram escritas com ph (exemplo: pharmacia, photo) são escritas com "f" (farmácia, foto), sem falar na letra y também usada no antigo português.


Já com a letra J:

1. Tradução de Martin Luther (Martinho Lutero, 1545):

“DJs ist das Buch von der geburt Jhesu Christi / Der da ist ein son Dauids / des sons Abraham.” (Euangelium S. Mattheus 1:1 – L1545LH+) ⇒ J = Y, ou seja: Jhesu ≈ “Yhesu”.

Nota: No alemão de Lutero, a letra J ainda conservava valor fonético semelhante ao “Y”, razão pela qual “Jhesu” seria pronunciado aproximadamente “Yhesu”.


2. Tradução de Reina-Valera, 1602):

“LIBRO de la generación de Jesucristo, hijo de David, hijo de Abraham.” (Mateo 1:1 – RVA'1602)


3. Tradução de João Ferreira de Almeida de 1681:

“ Livro da geraçaõ de Jeſu Chriſto, filho de David, filho de Abraham.” (Mateus 1:1 – JFA'1681)


Porque escrevi este artigo?


Este artigo é a junção de vários outros que escrevi há alguns anos em grupos do antigo Orkut, e depois no Facebook e no WhatsApp e também em meu Blog (link abaixo) contra as ideias dos membros de seitas heréticas neojudaizantes que demonizam o nome "JESUS" e argumentam que nem em hebraico e nem em grego existe a letra J, e que essa letra foi inventada na Idade Média.

O que esses ignorantes não têm capacidade intelectual e espiritual para compreenderem é que, quando ocorre a transliteração de um sistema de escrita para outro idioma, frequentemente são necessárias adaptações fonéticas, especialmente quando a língua receptora não possui letras equivalentes nem a mesma estrutura fonológica do idioma original.

Em outras palavras: nomes próprios são normalmente adaptados ao sistema sonoro e ortográfico da língua receptora. Foi exatamente isso que ocorreu com nomes bíblicos no próprio texto das Escrituras.

A Septuaginta (tradução judaica do Antigo Testamento para o grego) e o Novo Testamento (escrito em grego) não preservam a forma hebraica/aramaica Yēshūaʿ ( יֵשׁוּעַ ), inclusive o nome de Josué que é Yəhoshūaʿ ( יְהוֹשׁוּעַ ), mas as adaptam à fonologia grega como Iēsous ( Ἰησοῦς ), assim como Yirmeyahu tornou-se Jeremias, Yohanan tornou-se Ioannes/João, e Mosheh tornou-se Μωϋσῆς (Mōusēs) = Moisés. Ou seja, os próprios judeus helenistas da Septuaginta e os autores inspirados do Novo Testamento utilizaram formas gregas adaptadas para nomes próprios, e não a pronúncia hebraica original.

O próprio nome Nabucodonosor, que em hebraico aparece como נְבוּכַדְרֶאצַּר (Nəvū-khadreʾtstsar — 23 ocorrências em Jeremias e 3 em Esdras) e נְבוּכַדְנֶאצַּר (Nəvū-khadneʾtstsar — 13 ocorrências, inclusive 3 em Jeremias), além de pequenas variantes, totalizando 88 ocorrências no Texto Massorético, já representa adaptações feitas pelos escritores judaicos do nome babilônico original 𒀭𒀝𒆪𒁺𒌨𒊑𒋀 (Nabû-kudurri-uṣur = Nabû-kudurri-utsur).

Compare:

👉🏼 Acadiano/Babilônico:

Nabû-kudurri-uṣur

Hebraico bíblico: נְבוּכַדְנֶאצַּר (Nəvū-khadneʾtstsar) / variante: נְבוּכַדְרֶאצַּר (Nəvū-khad·reʾtstsar)

Aramaico-siríaco Oriental: ܢܒ̣ܘܼܟܲܕ݂ܢܵܨܲܪ (Nəvū-kadh·nātsar)

Aramaico-siríaco Ocidental: ܢܰܒܽܘܟܰܕܢܳܨܰܪ (Nabū-kadnōtsar)

➟ Grego da Septuaginta: Ναβουχοδονοσορ (NabouKHodonosor)

Latim: Nabuchodonosor

Português: Nabucodonosor

Ou seja, nem mesmo os autores bíblicos preservaram rigidamente a forma fonética original de nomes estrangeiros, mas os adaptaram à fonologia e ao sistema de escrita hebraico. O mesmo princípio ocorre com inúmeros nomes bíblicos transliterados entre hebraico, aramaico, grego, latim e línguas modernas, isto é, o mesmo personagem tem nomes grafados de formas diferentes dentro da própria tradição bíblica dos seus textos originais, sem que isso altere sua identidade.

Além do mais, nenhuma das nossas letras existem no alfabeto hebraico e vice-versa e a maioria não existe nem no alfabeto grego, e é por isso que o J não está nem em hebraico e nem em grego, pois são sistemas distintos de escrita.

Assim sendo, a adaptação fonética de nomes próprios para outro idioma não começou nem na Idade Média e nem com traduções modernas; ela já ocorre dentro das próprias Escrituras.

Além do mais, originalmente TAMBÉM as letras G e U não existiam originalmente no alfabeto latino que nós usamos.

Portanto, argumentar que somente a forma hebraica do nome seria legítima ignora o testemunho do próprio texto bíblico.



Fontes e referências consultadas:

• Anotações e textos pessoais produzidos em debates e grupos de estudos bíblicos em redes sociais (grupos do antigo Orkut, Facebook e WhatsApp);

• Aplicativo de Bíblia MyBible (consultas textuais em versões bíblicas antigas, Vulgata, King James 1611, Lutero 1545, Reina-Valera, Almeida etc.).

• Blog Estudos Bíblicos e Linguísticos do Cacerege: https://cacerege.blogspot.com/2025/06/o-nome-jesus-e-os-neojudaizantes.html?

• KUKENHEIM, Louis. Contributions à l'histoire de la grammaire italienne: espagnole et française, p. 35.

• MONTEIRO, Clóvis. Esboço de História Literária. 1961, p. 20.

• Consultas complementares em materiais linguísticos, históricos e documentais disponíveis online (por serem de pesquisas antigas, perdi as referências).




Por: 𝓛𝓾𝓲𝓼 𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮 ܠܘܝܣ - לואיס - 𐤋𐤅𐤀𐤉𐤎 - ࠋࠅࠀࠉࠔ - Ⲗⲟⲩⲓⲥ Λουίς✍🏼 ܞ ☧ ✞

Manaus-AM, 7 (Dom.) de Junho/2026.

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Em 𝕮𝖗𝖎𝖘𝖙𝖔: Luís Antônio Lima dos Remédios

WhatsApp: 92 99122-816

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Obs.: É permitido a cópia para republicações, desde que cite o autor e as respectivas fontes principais e intermediária.



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