A diferença entre o Memra e a Shekiná nos Targuns Aramaicos
Explicação
O texto a seguir contém recortes de vários textos que publiquei nesse ano que falam sobre o Memra e a Shekiná onde em alguns casos expandi tais textos, e onde havia repetição, fiz uma síntese dos mesmos.
Agradeço ao meu bom Deus por grandiosas revelações. 🙏🏼 🙌🏼
É comum confundir três conceitos presentes na literatura judaica, mas no judaísmo eles representam realidades distintas.
• Memra (מימרא) — Refere-se à Palavra de Deus, Sua autoexpressão ativa, por meio da qual cria, fala, julga e estabelece alianças.
• Shekináh (שכינה) — Refere-se à Presença ou habitação manifesta de Deus, especialmente associada ao Tabernáculo, ao Templo e às manifestações visíveis de Sua glória.
- Metatron — Nos escritos judaicos posteriores (especialmente na literatura mística), aparece como um elevado anjo mediador. Diferentemente da Memra, não pertence à própria natureza divina. Entretanto, em algumas tradições judaicas posteriores, como no Machzor Ashkenazi para Yōm Kipur, Metatron é identificado como Yeshua, Anjo da Presença, por isso há a interpretação de alguns autores cristãos e messiânicos que o relacionam a Yeshua haMashíaḥ ( Jesus Cristo).
Memra e Shekináh nos Targuns
Neste estudo, porém, concentraremos nossa atenção apenas nos dois primeiros, que aparecem com frequência nos Targuns (traduções e paráfrases do Antigo Testamento para o aramaico produzidas durante e após o período do Segundo Templo).
Nos Targuns, Memra ("Palavra") e Shekináh ("Presença") funcionam como recursos teológicos para preservar a transcendência absoluta de Deus, evitando descrições antropomórficas.
Assim, observa-se um padrão:
- Quando o texto hebraico afirma que Deus fala, cria, julga, faz alianças ou age diretamente, o Targum frequentemente substitui por "o Memra de Adonai".
• Quando o texto hebraico afirma que Deus habita, desce, permanece ou manifesta Sua glória em determinado lugar, o Targum normalmente utiliza "a Shekináh de Adonai".
Memra (O Verbo)
O Memra representa Deus em ação.
Ela é a Palavra que cria o universo, revela-se aos profetas, estabelece alianças, julga os ímpios e salva o Seu povo.
Foco: Agência e autoridade.
Se há ação divina, decreto ou revelação, o Memra está presente.
Sob a perspectiva cristológica, corresponde naturalmente ao Lógos de João 1, "por quem todas as coisas foram feitas".
Shekináh (A Presença)
A palavra Shekináh deriva da raiz hebraica שכן (shakan), "habitar", da mesma raiz de Mishkan (Tabernáculo).
Seu foco não é a ação, mas a presença manifesta de Deus.
Ela repousa sobre o Tabernáculo, manifesta-se na nuvem da glória e entre os querubins.
Foco: Proximidade, habitação e manifestação visível da glória divina.
Enquanto o Memra age, a Shekinah permanece.
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A Shekináh em textos targúmicos
Gênesis 3:24 — Targum de Jerusalém
Texto aramaico
וּטְרַד יַת אָדָם וְאַשְׁרֵי יְקַר שְׁכִינְתֵּיהּ מִן לְקַדְמִין מִמַדְנַח לְגִנְתָא דְעֵדֶן מֵעִילַוֵי תְּרֵין כְּרוֹבַיָא קֳדָם עַד לָא נִבְרָא עַלְמָא תְּרֵין אַלְפִין שְׁנִין בָּרָא אוֹרַיְיתָא וְאַתְקִין גֵיהִנָם וְגִנְתָא דְעֵדֶן אַתְקִין גִנְתָא דְעֵדֶן לְצַדִיקַיָא דְיֵיכְלוּן וְיִתְפַּנְקוּן מִן פֵּירֵי אִילָנָא עַל דְנַטְרוּ מִצְוָותָא דְאוֹרַיְיתָא בְּעַלְמָא הָדֵין אַתְקֵן גֵיהִנָם לְרַשִׁיעַיָא דְהוּא מְדַמְיָא לְחַרְבָּא שִׁנוּנָא אָכְלָה מִתְּרֵין סִטְרָהּ אַתְקֵן בְּגַוָהּ זִיקוּקִין דְנוּרָא וְגוּמְרִין מְבַעֲרָן לְרַשִׁיעַיָא לְהִתְפָּרַע מִנְהוֹן לְעַלְמָא דְאָתֵי עַל דְלָא נְטָרוּ מִצְוָותָא דְאוֹרַיְיתָא בְּעַלְמָא הָדֵין אֲרוּם אִילַן דְחַיָיא הוּא אוֹרַיְיתָא כָּל דְנָטַר לָהּ בְּעַלְמָא הָדֵין הֱוֵי חַי וְקַיָים בְּאִילָנָא דְחַיֵי טָבָא הוּא אוֹרַיְיתָא לְפַלְחָהּ בְּעַלְמָא הָדֵין הֵיךְ פְּרִי אִילַן דְחַיֵי לְעַלְמָא דְאָתֵי.
Tradução
"E Ele expulsou Adão e fez com que a glória de Sua Shekináh habitasse na parte oriental do jardim do Éden, acima dos dois querubins.
Dois mil anos antes de criar o mundo, criou a Lei e preparou o Geena e o Jardim do Éden.
Preparou o Jardim do Éden para os justos, para que comessem e se deleitassem do fruto da árvore, porque guardaram os mandamentos da Lei neste mundo.
Para os ímpios preparou o Geena, semelhante a uma espada afiada de dois gumes, com brasas e fogo consumidor para seu castigo no mundo vindouro.
Pois a Lei é a Árvore da Vida; quem a guarda nesta vida vive e permanece ligado à Árvore da Vida. A Lei é boa para ser guardada neste mundo, como o fruto da Árvore da Vida no mundo vindouro."
Nesse texto, a Shekináh não executa ações; ela habita no Éden como manifestação permanente da glória divina.
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Números 12:4–9 — Targum Jonathan
Verso 4
וַאֲמַר יְיָ לְמשֶׁה וּלְאַהֲרן וּלְמִרְיָם פּוּקוּ תְּלָתֵיכוֹן לְמַשְׁכַּן זִמְנָא וּנְפָקוּ תְּלָתֵיהוֹן
"E disse Adonai a Moisés, Arão e Miriã: 'Saíam vocês três para a Tenda da Congregação .' E os três saíram."
Verso 5
וְאִתְגְלֵי יְקָרָא דַיְיָ בְּעַמוּדָא דַעֲנַן יְקָרָא וְקָם בִּתְרַע מַשְׁכְּנָא וּקְרָא אַהֲרן וּמִרְיָם וּנְפָקוּ תַּרְוֵיהוֹן
"E a glória de Adonai revelou-se na coluna de nuvem e permaneceu à entrada do Tabernáculo."
Verso 6
וַאֲמַר שִׁמְעוּ בְּבָעוּ פִּתְגָמָי עַד דַאֲמַלֵיל אִין יֶהֱווֹן כָּל נְבִיָא דְקָמוּ מִן יוֹמַת עַלְמָא מִתְמַלֵיל עִמְהוֹן הֵיכְמָא דְמִתְמַלֵיל עִם משֶׁה דְמֵימְרָא דַיְיָ בְּחֵזְיוּ לְוַתְהוֹן מִתְגְלֵי בְּחֶלְמָא מְמַלֵילְנָא עִמְהוֹן
"Acaso algum dos profetas foi tratado como Moisés? A eles o Memra de Adonai era revelado em visão e lhes falava em sonhos."
Aqui, quem se revela aos profetas é a Memra.
Verso 8
מַמְלַל עִם מַמְלַל מַלֵילִית עִמֵיהּ... וּדְמוּ דְבָתַר שְׁכִינְתִּי חָזֵי
"Falei com ele face a face... e ele contemplou a semelhança da Minha Shekináh."
Neste verso aparecem lado a lado os dois conceitos:
• o Memra comunica a revelação;
• a Shekinah manifesta a glória visível de Deus.
Verso 9
וְאִסְתַּלֵק אִיקַר שְׁכִינְתָּא דַיְיָ מִנְהוֹן וְאָזִיל
"E a glória da Shekinah de Adonai retirou-se deles e partiu."
Novamente, a Shekinah é descrita como a presença gloriosa que permanece ou se retira.
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Comparação resumida
MEMRA (מימרא)
• Palavra de Deus.
• Age.
• Cria.
• Fala.
• Faz alianças.
• Julga.
• Revela-se aos profetas.
SHEKINÁH (שכינה)
• Presença de Deus.
• Habita.
• Permanece.
• Manifesta a glória.
• Enche o Tabernáculo.
• Repousa entre os querubins.
• Manifesta a presença divina.
Em termos cristológicos, a Memra corresponde naturalmente ao Logos do prólogo de João, enquanto a Shekináh corresponde à manifestação visível da glória e da presença divina entre o Seu povo.
Assim, os Targuns apresentam duas categorias complementares: Deus se revela e age por meio da Memra, e habita e manifesta Sua glória por meio da Shekináh.
Mas é de suma importância observar que no Evangelho de João o Memra, que em grego é Lógos, é identificado com o Filho de Deus, Jesus Cristo, em notável sintonia com a leitura preservada pelo Targum Neofiti:
”¹ מִלְּקַדְמִין בְּחָכְמָה בְּרָא דַּייָ שִׁכְלֵל יָת שְׁמַיָּא וְיָת אַרְעָא :“
Transliteração:
”¹ Milqadmin bəḤokhmāh Bərāᵓ da-YəYā Shikhlēl Yāth Shᵊmayyāᵓ wəYāth ᵓarᶜāᵓ.”
Tradução literal:
”¹ No princípio, com sabedoria, o Filho de Adonai [YaHWeH] formou os céus e a terra.”
Por isso, não soou estranho quando o apóstolo João escreveu, no prólogo de seu Evangelho:
”¹ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. ² Ele estava no princípio com Deus. ³ Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (Jo 1:1-3)...
"E o Verbo se fez carne e habitou (tabernaculou) entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, glória como do Unigênito do Pai." (João 1:14)
As pessoas acostumadas a ouvir as Escrituras explicadas em aramaico nas sinagogas já estavam familiarizadas com expressões como o Memra (Palavra, Verbo, Lógos), a Shekiná (Habitação, Presença Divina, Tabernáculo), a Yeqará (Glória) e outras expressões características da tradição targúmica.
E assim podemos ver que João 1:14 reúne, em um único versículo, três conceitos centrais da teologia targúmica:
• Ὁ Λόγος (Lógos) → מֵימְרָא (Memra);
• ἐσκήνωσεν (eskēnōsen, "tabernaculou, habitou") → שכינה (Shekiná);
• δόξα (dóxa, "glória") → יְקָרָא (Yeqará).
Ou seja, João não fala apenas do Lógos. No mesmo versículo aparecem também ideias que correspondem à Shekiná e à Yeqará, três conceitos muito presentes na linguagem dos Targumim que convergem em Yeshua (Jesus), o Messias!
À luz do Targum Neofiti (e também pelos outros Targumim) podemos compreender melhor que o Memra não aparece apenas como uma figura literária, mas como o agente da criação, da revelação e da ação divina. Essa antiga tradição aramaica fornece um importante pano de fundo para compreender por que o Evangelho de João identifica o Lógos eterno com Jesus Cristo, o Verbo/Memra que se fez carne e tabernaculou entre nós.
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Fontes primárias
1. Targum Neofiti 1. Ed. Alejandro Díez Macho. Neophyti 1: Targum Palestinense MS de la Biblioteca Vaticana. 6 vols. Madrid/Barcelona: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1968–1979.
2. Targum Onkelos.
3. Targum Jonathan
4. Targum Fragmentário (Fragment Targums).
5. Martin McNamara. Targum Neofiti 1: Genesis. The Aramaic Bible, vol. 1A. Collegeville: Liturgical Press, 1992.
6. Manuscrito utilizado para o Targum Neofiti: manuscrito do Vaticano, Manuscrito Neofiti 1 (Biblioteca Apostólica Vaticana), disponível em fac-símile digital:
https://digi.vatlib.it/view/MSS_Neofiti.1
7. Tradução dos textos aramaicos: este autor com auxílio dos programas BibleWorks.9 e BibleWorks.10, agora com revisão pelo ChatGPT.
8. Capa (figura) arte do ChatGPT onde a IA que ele utilizou errou várias vezes o nome שכינה (Shekinah), inclusive os textos aramaicos dos pergaminhos (quando acertava uma palavra, errava outras), onde este autor teve que inseri-los manualmente através de um editor de textos.
Por: 𝓛𝓾𝓲𝓼 𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮 ܠܘܝܣ - לואיס - 𐤋𐤅𐤀𐤉𐤎 - ࠋࠅࠀࠉࠔ - Ⲗⲟⲩⲓⲥ - Λουίς✍🏼 ܞ ☧ ✞
Manaus-AM, (sex.-sáb) 24-25/Jul/2026.

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