ALFABETOS SEMITAS
Introdução
O termo “semítico” pode se referir a uma família linguística, mas, neste estudo, o nosso foco não são propriamente as línguas semíticas, e sim os sistemas de escrita empregados para registrá-las.
É importante, portanto, distinguir três conceitos:
Língua semítica → refere-se à língua pertencente à família semítica, como hebraico, aramaico, fenício, árabe, ugarítico, acádio, geʿez, entre outras.
Sistema de escrita → refere-se ao conjunto de sinais e às regras utilizadas para representar uma língua por escrito.
Alfabeto → é um tipo específico de sistema de escrita no qual os sinais representam, predominantemente, unidades consonantais e/ou vocálicas da língua.
Assim, uma língua semítica não possui necessariamente um único sistema de escrita, e um mesmo sistema de escrita pode ser utilizado para registrar línguas diferentes.
Este estudo concentra-se principalmente na história e na comparação das escritas semíticas, observando suas formas gráficas, a ordem das letras, seus nomes tradicionais e suas correspondências fonéticas.
Entre as tradições aqui apresentadas estão o Ugarítico, Fenício, Paleo-hebraico, Samaritano, Aramaico Imperial, Hebraico Quadrado, Siríaco, Nabateu, Árabe, Mandaico e Geʿez, entre outras.
Também será necessário distinguir descendência linguística de descendência gráfica. Duas línguas podem ser parentes linguísticas sem utilizar a mesma escrita, enquanto duas escritas podem apresentar relações históricas mesmo quando utilizadas para línguas diferentes.
Por essa razão, a sequência apresentada neste estudo não deve ser entendida como uma única linha evolutiva na qual cada alfabeto simplesmente se transforma no seguinte. Em muitos casos, estamos diante de ramificações, influências, adaptações e desenvolvimentos paralelos.
Um exemplo particularmente importante é a tradição aramaica. A escrita aramaica desenvolveu diversas ramificações gráficas, entre elas as tradições que deram origem ou contribuíram para o desenvolvimento de formas como o hebraico quadrado, o siríaco e o nabateu. A tradição nabateia, por sua vez, possui papel importante na história da formação da escrita árabe.
Da mesma maneira, o Ugarítico deve ser tratado separadamente: embora seja uma escrita alfabética utilizada para uma língua semítica, seus sinais são cuneiformes e não constituem simplesmente uma etapa gráfica da escrita fenícia.
O Geʿez, por sua vez, pertence à história das escritas semíticas do Chifre da África e apresenta uma característica diferente: desenvolveu-se em direção a um sistema abugida, no qual os sinais consonantais são modificados para representar diferentes vogais.
(*) Abugida – Um sistema de escrita abugida (também chamado de alfassilabário ou alfabeto silábico) é um tipo de escrita em que cada símbolo base representa uma consoante acompanhada de uma vogal padrão (chamada de vogal inerente, geralmente o som /a/).
Mais detalhes: Wikipedia – Abugida.
Portanto, ao comparar essas tradições, procuraremos observar não apenas “qual letra corresponde a qual letra”, mas também:
forma gráfica → nome da letra → valor fonético → ordem alfabética → estrutura do sistema → relação histórica entre as escritas.
Dessa maneira, podemos observar como antigos sinais e valores consonantais foram preservados, modificados, adaptados e reorganizados ao longo de muitos séculos, sem confundir a história das línguas semíticas com a história das escritas utilizadas para registrá-las.
OS ALFABETOS
1. Alfabetos Proto-cananeu e Proto-sinaítico
𓃾 𐤕
O alfabeto proto-sinaítico (1850-1550 a.C.) surgiu na Península do Sinai (especialmente na região de Serabit el-Khadem), enquanto o proto-cananeu (1700-950 a.C.) desenvolveu-se na região de Canaã (atual área da Palestina, Israel e Líbano). Estes alfabetos precursores do fenício e do paleo-hebraico, que eram muito semelhantes entre si, sendo o alfabeto proto-cananeu, para a época em que surge, o principal candidato como a escrita original da Torá.

Sob a perspectiva bíblica, Moisés escreveu a Torá no segundo milênio a.C.. Ele a teria escrito em proto-cananita (ou proto-sinaítico), e não em páleo-hebraico, pois este alfabeto ainda não estava consolidado: O alfabeto páleo-hebraico clássico só se desenvolveu e se consolidou como uma escrita distinta a partir do século X a.C. (por volta do ano 1000 a.C.), durante o período da monarquia em Israel. Como Moisés viveu séculos antes (entre os séculos XVI a.C. e XIII a.C.), seria impossível ele ter utilizado essa escrita. No período do Êxodo, a escrita alfabética que existia na região do Sinai e de Canaã era o sistema proto-sinaítico (frequentemente chamado de proto-cananita quando encontrado na região do Levante). Esse sistema era uma forma primitiva de alfabeto pictográfico baseado nos hieróglifos egípcios, adaptado por povos semitas para registrar sua própria língua. Foi justamente dessa escrita proto-cananita que, séculos mais tarde, evoluíram o alfabeto fenício e o próprio páleo-hebraico. A polêmica e famosa tábua de maldição do Monte Ebal foi apresentada por seus descobridores como uma inscrição em escrita proto-alfabética, possivelmente relacionada à tradição proto-cananeia; contudo, sua leitura e até mesmo sua identificação como inscrição permanecem objeto de controvérsia acadêmica. Confira abaixo:
 |
| Interno "B" Interno "A" |
2. Alfabeto Fenício / Alfabeto Páleo-hebraico
O alfabeto fenício desenvolveu-se a partir da antiga tradição alfabética cananeia, cuja origem remonta às primeiras escritas alfabéticas semíticas conhecidas como Proto-Sinaítico/Proto-Canaanita. Os fenícios conservaram e adaptaram esse sistema, estabilizando progressivamente as formas gráficas e a ordem das letras.
E há uma distinção muito importante
Proto-Sinaítico ≠ Fenício
Veja a diferença:
Proto-Sinaítico:
sinais ainda fortemente pictográficos, derivados/adaptados de formas egípcias, empregados para representar sons de uma língua semítica por princípio acrofônico. O corpus é pequeno e algumas identificações continuam discutidas.
Fenício:
uma escrita linear e plenamente alfabética, já bastante convencionalizada, utilizada pelos povos fenícios e posteriormente difundida por grande parte do Mediterrâneo.
A transformação não aconteceu de uma geração para outra. Houve um longo período de desenvolvimento das formas proto-cananeias. É justamente por isso que alguns especialistas preferem falar em “Early Alphabetic” (alfabeto inicial) para abranger essas primeiras manifestações, em vez de imaginar um único “alfabeto Proto-Sinaítico” perfeitamente definido que posteriormente foi simplesmente transmitido aos fenícios.
Essa é somente uma ilustração didática da derivação alfabética e da correspondência gráfica ao longo do tempo:
𓃾 ➙ ܐ ➙ א ➙ 𐤀
boi → ʾĀlep → ʾÁlef → ʾĀlap
Depois, o A (alfa grego) e o A (latino):
𓃾 ➙ ܐ ➙ א ➙ 𐤀 ➙ A ➙ A
sinal pictográfico jḥ → Fenício ʾĀlep → Hebraico ʾÁlef → Siríaco ʾĀlap → Grego Alfa → Latim A
Note que a partir do fenício os nomes das letras são os mesmos, mas com pequenas diferenças conforme o idioma.
O alfabeto fenício é um dos sistemas de escrita mais importantes da história humana, criado por volta de 1050 a.C. na região da Fenícia (atual Líbano, Síria e norte de Israel). Ele funcionava de forma fonética e simplificada para atender às necessidades do comércio marítimo. O sistema era um abjad (ou consonantário), composto por a a 22 símbolos que representavam sons consonantais. Os textos eram escritos e lidos no sentido da direita para a esquerda, assim como o hebraico, o aramaico, o siríaco, o árabe etc. Legado Histórico
O alfabeto fenício, desenvolvido a partir das antigas tradições alfabéticas cananeias, relacionadas às primeiras escritas alfabéticas conhecidas como proto-sinaíticas, revolucionou a comunicação no Mediterrâneo e serviu de base para diversas escritas alfabéticas posteriores, tanto no Ocidente quanto no Oriente, incluindo as tradições aramaica, grega, latina e outras.
Forma do Alfabeto Fenício:
𐤀 𐤁 𐤂 𐤃 𐤄 𐤅 𐤆 𐤇 𐤈 𐤉 𐤊 𐤋 𐤌 𐤍 𐤎 𐤏 𐤐 𐤑 𐤒 𐤓 𐤔 𐤕
Nomes das letras:
Alap ( 𐤀 ), Bēt ( 𐤁 ), Gāmal ( 𐤂 ), Dālat ( 𐤃 ), Hē ( 𐤄 ), Wāw ( 𐤅 ), Zayin ( 𐤆 ), Ḥēt ( 𐤇 ), Ṭēt ( 𐤈 ), Yōd ( 𐤉 ), Kāp ( 𐤊 ), Lāmad ( 𐤋 ), Mēm ( 𐤌 ), Nūn ( 𐤍 ), Sāmek ( 𐤎 ), ʿAyin ( 𐤏 ), Pē ( 𐤐 ), Ṣādē ( 𐤑 ), Qōp ( 𐤒 ), Rēsh ( 𐤓 ), Šīn ( 𐤔 ), Tāw ( 𐤕 ).
Obs.: O alfabeto Fenício e o alfabeto Paleo-hebraico, embora possam permanecer como título comparativo, historicamente não são exatamente a mesma escrita, pois há algumas diferenças entre os dois sistemas.
3. Alfabeto Samaritano
O alfabeto samaritano é o termo pelo qual se designa o abjad usado pelos samaritanos, para escrever seus textos sacros, como o Pentateuco samaritano, e para escrever em hebraico samaritano, aramaico samaritano ou árabe. É uma forma de escrita derivada desde a escrita paleo-hebraica, que é descendente do alfabeto fenício.
ࠀ ࠁ ࠂ ࠃ ࠄ ࠅ ࠆ ࠇ ࠈ ࠉ ࠊ ࠋ ࠌ ࠍ ࠎ ࠏ ࠐ ࠑ ࠒ ࠓ ࠔ ࠕ
Nomes correspondentes aos nomes das letras Paleo-hebraicas:
Ālef (ࠀ), Bēt (ࠁ), Gāmal (ࠂ), Dālat (ࠃ), Hē (ࠄ), Wāw (ࠅ), Zāyin (ࠆ), Ḥēt (ࠇ), Ṭēt (ࠈ), Yōt (ࠉ), Kāf (ࠊ), Lāmed (ࠋ), Mēm (ࠌ), Nūn (ࠍ), Sāmek (ࠎ), ʿAyin (ࠏ), Pē (ࠐ), Ṣādē (ࠑ), Qōf (ࠒ), Rēsh (ࠓ), Šīn (ࠔ), Tāw (ࠕ).
Os Nomes Próprios das Letras Samaritanas:
Alaf (ࠀ), Bit (ࠁ), Gaman (ࠂ), Dalat (ࠃ), IY (ࠄ), Baa (ࠅ), Zen (ࠆ), It (ࠇ), Tit (ࠈ), Yut (ࠉ), Kaaf (ࠊ), Labat (ࠋ), Mim (ࠌ), Nun (ࠍ), Singaat (ࠎ), In (ࠏ), Fi (ࠐ), Tsaadiy (ࠑ), Quf (ࠒ), Rish (ࠓ), Shan (ࠔ), Taaf (ࠕ).
4. Alfabeto Aramaico Imperial
O alfabeto aramaico imperial é um abjad (sistema de escrita que representa apenas consoantes) com 22 letras, escrito da direita para a esquerda, que serviu como padrão administrativo e oficial do Império Aquemênida (Persa) a partir do século V a.C. Foi desenvolvido a partir da escrita fenícia.
𐡀 𐡁 𐡂 𐡃 𐡄 𐡅 𐡆 𐡇 𐡈 𐡉 𐡊 𐡋 𐡌 𐡍 𐡎 𐡏 𐡐 𐡑 𐡒 𐡓 𐡔 𐡕
Nomes das letras:
Alap (𐡀), Bēt (𐡁), Gāmal (𐡂), Dālat (𐡃), Hē (𐡄), Waw (𐡅), Zayn (𐡆), Ḥēth (𐡇), Ṭēth (𐡈), Yōḏ (𐡉), Kāp (𐡊), Lāmaḏ (𐡋), Mīm (𐡌), Nūn (𐡍), Semkaṯ (𐡎), ʿĒ (𐡏), Pē (𐡐), Ṣāḏē (𐡑), Qōp (𐡒), Rēsh (𐡓), Shīn (𐡔), Taw (𐡕).
5. Alfabeto Hebraico Quadrado
Embora aprendido e começado a ser adotado pelos judeus no período do Cativeiro Babilônico, o agora chamado de alfabeto hebraico quadrado não surgiu de uma mudança repentina após o dito cativeiro. Ele se desenvolveu gradualmente a partir da tradição da escrita aramaica no período do cativeiro, e os judeus passaram a utilizá-la regularmente durante o período persa e do Segundo Templo. O paleo-hebraico, de tradição cananeia/fenícia, continuou sendo empregado em determinados contextos, mas foi gradualmente sendo substituído pela forma quadrática que também é escrita da direita para a esquerda como todos alfabetos derivados do fenício.
Os hebreus adotaram o alfabeto fenício entre os séculos XII e XI a. C, e logo fizeram suas adaptações, constituindo o que ficou conhecido como o paleo-hebraico.
Assim sendo, esse antigo alfabeto hebraico, próximo do alfabeto fenício, tinha essa forma aproximada, com algumas poucas diferenças: ⬇
𐤀 𐤁 𐤂 𐤃 𐤄 𐤅 𐤆 𐤇 𐤈 𐤉 𐤊 𐤋 𐤌 𐤍 𐤎 𐤏 𐤐 𐤑 𐤒 𐤓 𐤔 𐤕
que foi substituído pelo atual Alfabeto Hebraico Quadrático:
א ב ג ד ה ו ז ח ט י כ ל מ נ ס ע פ צ ק ר ש ת
Nomes das letras:
Álef (א), Bēt (ב), Guímel (ג), Dálet (ד), Hē (ה), Wāw (ו), Záyin (ז), Ḥēt (ח), Ṭēt (ט), Yōd (י), Kāf (כ), Lāmed (ל), Mēm (מ), Nūn (נ), Sāmek (ס), ʿÁyin (ע), Pē (פ), Ṣādē (צ) , Qōf (ק), Rēsh (ר), Shīn (ש), Tāw (ת).
Um dado histórico sobre a mudança de alfabeto adotado pelos judeus
Antes e durante o período do Primeiro Templo, os judeus utilizavam o antigo alfabeto hebraico, hoje chamado Paleo-hebraico, derivado da antiga tradição cananeia/fenícia. Entretanto, durante os períodos assírio e, especialmente, babilônico, os judeus estiveram em intenso contato com o aramaico, que se tornara uma importante língua internacional da região.
Como consequência desse processo, a antiga escrita hebraica foi progressivamente substituída, em grande parte dos usos judaicos, pela escrita aramaica. Essa tradição aramaica sofreu transformações e deu origem à forma que conhecemos como escrita hebraica quadrada. Como dito acima, essa transição não ocorreu de maneira instantânea, mas desenvolveu-se ao longo dos períodos persa e do Segundo Templo. (Confira na Enciclopédia Judaica, link ao final em "Referências")
Na tradição judaica, essa escrita passou a ser chamada de כְּתָב אַשּׁוּרִי (Ketav Ashuri, “escrita assíria”). O nome provavelmente preserva uma associação antiga com a região e com a tradição aramaica oriental, embora sua interpretação exata seja discutida. Graficamente, porém, a escrita quadrada deriva da tradição aramaica, e não da escrita cuneiforme assíria.
Segundo a tradição judaica (Talmude, em Sanhedrin 21b), a substituição da antiga escrita hebraica, hoje chamada paleo-hebraica (antiga hebraica), pela escrita Ketav Ashuri (“escrita assíria”), correspondente à escrita hebraica quadrada, começou com Esdras, após o exílio babilônico. Os livros proféticos pós-exílicos, como Ageu, Zacarias e Malaquias, surgiram justamente nesse período de transição. Contudo, a mudança não foi instantânea: durante o Segundo Templo, a escrita paleo-hebraica e a escrita quadrada coexistiram, até que a última se tornou predominante. Ver Apêndice ao final.
A grosso modo, podemos dizer que os judeus foram abandonando gradualmente sua antiga escrita hebraica, hoje chamada Paleo-hebraica, e adotando a escrita pagã aramaica quadrática, utilizada no ambiente dos impérios que os dominaram (assírio e babilônico). Essa nova escrita passou a ser conhecida na tradição judaica como Ketav Ashuri (כתב אשורי), “escrita assíria”, e posteriormente passaram a chamá-la de escrita hebraica. A própria tradição judaica associa essa mudança aos dias de Esdras. Durante o período do Segundo Templo, as duas escritas ainda coexistiram, até que a escrita quadrada se consolidou como a forma predominante das Escrituras. Posteriormente todas as Escrituras do Antigo Testamento que estavam na escrita hebraica antiga (Paleo-hebraica), em novas cópias, foram transliteradas para essa nova escrita ashurit.
Então, historicamente, temos:
Paleo-hebraico → período de Esdras/exílio → adoção progressiva da escrita aramaica → Ketav Ashuri → escrita hebraica quadrada.
O alfabeto siríaco
6. Alfabeto Siríaco
O alfabeto siríaco é um sistema de escrita do tipo abjad — que anota majoritariamente consoantes — derivado diretamente do alfabeto aramaico. Ele surgiu por volta do século I d.C., na região da Alta Mesopotâmia (no Crescente Fértil), especificamente na antiga cidade-estado de Edessa, território que hoje corresponde à cidade de Şanlıurfa (Urfa), no sudeste da Turquia. Foi amplamente difundido com a expansão do cristianismo siríaco no Oriente Médio e em partes da Ásia. É escrito da direita para a esquerda.
O Alfabeto:
ܐ ܒ ܓ ܕ ܗ ܘ ܙ ܚ ܛ ܝ ܟ ܠ ܡ ܢ ܣ ܥ ܦ ܨ ܩ ܪ ܫ ܬ
Nomes das letras:
Alap (ܐ), Bēth (ܒ), Gāmal (ܓ ), Dālat (ܕ), Hē (ܗ), Waw (ܘ), Zayn (ܙ), Ḥēth (ܚ), Ṭēth (ܛ), Yōḏ (ܝ), Kāp (ܟ), Lāmaḏ (ܠ), Mīm (ܡ), Nūn (ܢ ), Semkaṯ (ܣ), ʿĒ (ܥ), Pē (ܦ), Ṣāḏē ( ܨ), Qōp (ܩ), Rēsh (ܪ), Shīn (ܫ), Taw (ܬ).
Atualmente, esse alfabeto não possui status oficial em nenhum país, mas continua vivo no uso litúrgico de diversas igrejas orientais e é mantido por comunidades assírias ao redor do mundo.
6. Alfabeto Nabateu
O alfabeto nabateu é um sistema de escrita consonantal (abjad) derivado do aramaico que deu origem ao alfabeto árabe moderno. Foi usado entre o século II a.C. e o século IV d.C. pelo povo nabateu, famoso por construir a cidade de Petra.
𐢀 𐢁 𐢂 𐢃 𐢄 𐢅 𐢆 𐢇 𐢈 𐢉 𐢊 𐢋 𐢌 𐢍 𐢎 𐢏 𐢐 𐢑 𐢒 𐢓 𐢔 𐢕
Nomes das letras:
Alap (𐢀), Bēt (𐢁), Gāmal (𐢂), Dālat (𐢃), Hē (𐢄), Waw (𐢅), Zayn (𐢆), Ḥēth (𐢇), Ṭēth (𐢈), Yōḏ (𐢉), Kāp (𐢊), Lāmaḏ (𐢋), Mīm (𐢌), Nūn (𐢍), Semkaṯ (𐢎), ʿĒ (𐢏), Pē (𐢐), Ṣāḏē (𐢑), Qōp (𐢒), Rēsh (𐢓), Shīn (𐢔), Taw (𐢕).
A escrita nabateia é especialmente importante para a história da escrita porque está entre as tradições aramaicas e o desenvolvimento da escrita árabe.
7. Alfabeto Árabe
O alfabeto árabe, derivado do alfabeto nabateu, é o principal abjad usado para representar a língua árabe, além de diversos outros idiomas, como o persa, algumas línguas berberes, o turco tomano, o urdu e o uigur. É o segundo alfabeto mais utilizado no mundo, atrás somente do alfabeto latino, e possui 28 letras.
O Alfabeto Árabe (na mesma ordem semítica correspondente às anteriores acima, e não todas as letras)
⇐ ا ب ج د ه و ز ح ط ي ك ل م ن س ع ف ص ق ر ش ت
Nomes das letras:
Alif (ا), Bāʾ (ب), Jīm (ج), Dāl (د), Hāʾ (ه), Wāw (و), Zāy (ز), Ḥāʾ (ح), Ṭāʾ (ط), Yāʾ (ي), Kāf (ك), Lām (ل), Mīm (م), Nūn (ن), Sīn (س), ʿAyn (ع), Fāʾ (ف), Ṣād (ص), Qāf (ق), Rāʾ (ر), Shīn (ش), Tāʾ (ت).
Transliteração:
➙ ʾ b g/j d h w z ḥ ṭ y k l m n s ʿ f ṣ q r š t
Alfabeto Árabe completo:
ا ب ت ث ج ح خ د ذ ر ز س ش ص ض ط ظ ع غ ف ق ك ل م ن ه و ي
Nomes das letras
Alif (ا), Bāʾ (ب), Tāʾ (ت), Thāʾ (ث), Jīm (ج), Ḥāʾ (ح), Khāʾ (خ), Dāl (د), Dhāl (ذ), Rāʾ (ر), Zāy (ز), Sīn (س), Shīn (ش), Ṣād (ص), Ḍād (ض), Ṭāʾ (ط), Ẓāʾ (ظ), ʿAyn (ع), Ghayn (غ), Fāʾ (ف), Qāf (ق), Kāf (ك), Lām (ل), Mīm (م), Nūn (ن), Hāʾ (ه), Wāw (و), Yāʾ (ي).
Observe que esta é a ordem própria do alfabeto árabe moderno, com 28 letras, portanto não deve ser confundida com a sequência semítica original de 22 consoantes que usamos logo acima, como forma comparativa.
Há, porém, uma observação importante: a ordem histórica é preservada, mas a forma gráfica e a pronúncia de algumas letras árabes sofreram mudanças ao longo do desenvolvimento da escrita árabe. Por exemplo, ج corresponde historicamente a gīm, embora no árabe padrão moderno seja geralmente pronunciado jīm /d͡ʒ/ ou com realizações regionais diferentes.
É interessante que tanto as letras em Siríaco Serto (cursivo) quanto a escrita Árabe têm quatro formas distintas de letras conforme a sua posição em uma palavra.
O ponto principal é que a escrita siríaca Serto e a escrita árabe compartilham uma característica que é própria das escritas cursivas: as letras podem assumir formas diferentes conforme sua posição na palavra. Isso, porém, não demonstra que o Árabe tenha vindo do Serto ou vice-versa.
A questão das quatro formas
No árabe moderno, uma letra pode aparecer, dependendo do contexto, em formas:
isolada → inicial → medial → final
Por exemplo, ع:
ع — عـ — ـعـ — ـع
No Siríaco Serto encontramos o mesmo princípio geral. (impossível representar aqui)
Mas isso ocorre porque ambas pertencem à tradição das escritas aramaicas cursivas, e não necessariamente porque uma tenha sido copiada da outra.
A relação histórica mais aceita da origem dos dois sistemas de escrita
A sequência geralmente apresentada é aproximadamente:
Aramaico Imperial
↓
Aramaico Nabateu
↓
Nabateu cursivo
↓
Árabe antigo / árabe
Enquanto outra linha segue:
Aramaico Imperial
↓
Edessa / tradição aramaica oriental
↓
Siríaco
↓
Estrangelo → Serto → outras mãos siríacas
Assim, árabe e siríaco são parentes gráficos, mas o Serto não é considerado o ancestral direto da escrita árabe.
E há um detalhe fascinante:
O que se pode perceber: a letra mudar de forma conforme sua posição — é justamente uma característica que se torna muito importante nas escritas cursivas.
O árabe levou isso a um nível extremamente desenvolvido. Porém, a escrita nabateia já apresentava formas cursivas e conexões entre letras antes da consolidação da escrita árabe.
Alfabetos Semitas — sequência comparativa
| Nº | Alfabeto | Sequência |
|---|
| 1 | Fenício / Paleo-hebraico | 𐤀 𐤁 𐤂 𐤃 𐤄 𐤅 𐤆 𐤇 𐤈 𐤉 𐤊 𐤋 𐤌 𐤍 𐤎 𐤏 𐤐 𐤑 𐤒 𐤓 𐤔 𐤕 |
| 2 | Samaritano | ࠀ ࠁ ࠂ ࠃ ࠄ ࠅ ࠆ ࠇ ࠈ ࠉ ࠊ ࠋ ࠌ ࠍ ࠎ ࠏ ࠐ ࠑ ࠒ ࠓ ࠔ ࠕ |
| 3 | Aramaico Imperial | 𐡀 𐡁 𐡂 𐡃 𐡄 𐡅 𐡆 𐡇 𐡈 𐡉 𐡊 𐡋 𐡌 𐡍 𐡎 𐡏 𐡐 𐡑 𐡒 𐡓 𐡔 𐡕 |
| 4 | Hebraico Quadrado | א ב ג ד ה ו ז ח ט י כ ל מ נ ס ע פ צ ק ר ש ת |
| 5 | Siríaco | ܐ ܒ ܓ ܕ ܗ ܘ ܙ ܚ ܛ ܝ ܟ ܠ ܡ ܢ ܣ ܥ ܦ ܨ ܩ ܪ ܫ ܬ |
| 6 | Árabe | ا ب ج د ه و ز ح ط ي ك ل م ن س ع ف ص ق ر ش ت |
Mantendo exatamente a sequência tradicional das 22 consoantes semíticas estabelecidas, completamos o quadro com o árabe.
OUTROS ALFABETOS E ESCRITAS SEMÍTICAS
8. Ugarítico
O alfabeto ugarítico é um sistema de escrita usado por volta de 1500 AC na língua ugarítica, uma extinta língua semítica, usada na cidade perdida de Ugarite, na atual Síria, redescoberta em 1928. Pertencia a um povo de cultura cananaica desde o Neolítico, embora se cite Ugarite, frequentemente, como uma cidade fenícia.
O ugarítico é particularmente interessante porque, embora seja uma escrita cuneiforme, registra uma língua semítica e possui uma ordem alfabética relacionada à tradição levantina: 𐎀 𐎁 𐎂 𐎃 𐎄 𐎅 𐎆 𐎇 𐎈 𐎉 𐎊 𐎋 𐎌 𐎍 𐎎 𐎏 𐎐 𐎑 𐎒 𐎓 𐎔 𐎕 𐎖 𐎗 𐎘 𐎙 𐎚 𐎛 𐎜 𐎝
Nomes reconstruídos/tradicionais das letras:
ʾAlpa (𐎀), Bēta (𐎁), Gamla (𐎂), Ḫa (𐎃), Dālta (𐎄), Hō (𐎅), Waw (𐎆), Zēta (𐎇), Ḥēta (𐎈), Ṭēta (𐎉), Yōda (𐎊), Kappa (𐎋), Shīna (𐎌), Lāmda (𐎍), Mēma (𐎎), Dhala (𐎏), Nūna (𐎐), Zu (𐎑), Sāmg(a) (𐎒), ʿAyn (𐎓), Pē (𐎔), Ṣāda (𐎕), Qōpa (𐎖), Rēsha (𐎗), Ṯanna (𐎘), Ġayn (𐎙), Tāw (𐎚), ʾI (𐎛), ʾU (𐎜), Ssu (𐎝).
Nomes convencionais dos sinais segundo o Unicode:
Alpa (𐎀), Beta (𐎁), Gamla (𐎂), Kha (𐎃), Delta (𐎄), Ho (𐎅), Wo (𐎆), Zeta (𐎇), Hota (𐎈), Tet (𐎉), Yod (𐎊), Kaf (𐎋), Shin (𐎌), Lamda (𐎍), Mem (𐎎), Dhal (𐎏), Nun (𐎐), Zu (𐎑), Samka (𐎒), Ain (𐎓), Pu (𐎔), Sade (𐎕), Qopa (𐎖), Rasha (𐎗), Thanna (𐎘), Ghain (𐎙), To (𐎚), I (𐎛), U (𐎜), Ssu (𐎝).
Um detalhe importante
As últimas três — I, U e Ssu — são particularmente importantes. I e U são sinais de oclusão glotal associados às vogais /i/ e /u/, e Ssu representa /ś/. O site Oracc transcreve-os como ʾi, ʾu e ś, respectivamente. Por isso, o alfabeto ugarítico possui mais letras que o sistema de 22 consoantes tradicionalmente associado ao fenício/hebraico, ou seja, 30 sinais, e não simplesmente 30 consoantes.
Um dos aspectos mais interessantes do alfabeto ugarítico é a semelhança com os nomes das letras fenícias/hebraicas e gregas, e não é apenas gráfica.
E há um caso especialmente interessante: Qopa → Qōp → Qoppa (Ϙ). O grego chegou a possuir a letra Ϙ (Qoppa), que posteriormente caiu em desuso no alfabeto grego clássico. Isso mostra de maneira muito clara a relação histórica entre essas tradições alfabéticas. Também é importante observar que não significa que o grego simplesmente "copiou" o ugarítico. O mais provável é que ugarítico, fenício e grego estejam relacionados dentro de uma história mais ampla de alfabetos semíticos do Levante, com transmissão, adaptação e reorganização dos sinais ao longo do tempo.
Observação: quando colocamos Ugarítico → Fenício → Paleo-hebraico → Aramaico → Hebraico → Grego → Siríaco, começamos a enxergar não apenas alfabetos isolados, mas uma espécie de árvore histórica dos sistemas de escrita.
Aqui precisamos colocar um cuidado especial:
O ugarítico é uma língua semítica, mas sua escrita é cuneiforme alfabética. Portanto, não devemos colocá-lo simplesmente como um antepassado gráfico direto do fenício.
9. Geʿez / Etíope
A tradição etíope é diferente dos alfabetos anteriores porque desenvolveu um sistema abugida, no qual cada símbolo representa uma consoante associada a uma vogal.
Exemplo:
ሀ ለ ሐ መ ሠ ረ ሰ ሸ ቀ በ ተ ቸ ነ ኘ አ ከ ወ ዐ ዘ ዠ የ ደ ጀ ገ ጠ ጨ ጰ ጸ ፀ ፈ ፐ
Nomes das letras:
Hä (ሀ), Lä (ለ), Ḥä (ሐ), Mä (መ), Śä (ሠ), Rä (ረ), Sä (ሰ), Šä (ሸ), Qä (ቀ), Bä (በ), Tä (ተ), Čä (ቸ), Nä (ነ), Ñä (ኘ), ʾä (አ), Kä (ከ), Wä (ወ), ʿä (ዐ), Zä (ዘ), Žä (ዠ), Yä (የ), Dä (ደ), Ǧä (ጀ), Gä (ገ), Ṭä (ጠ), Č̣ä (ጨ), P̣ä (ጰ), Ṣä (ጸ), Ṣ́ä (ፀ), Fä (ፈ). É usado para línguas como geʿez, amárico e tigrínia, embora cada língua tenha seu próprio desenvolvimento ortográfico.
Observação:O Ugarítico deve ficar à parte como uma tradição semítica alfabética em escrita cuneiforme, e o Geʿez deve ser tratado separadamente dentro da história das escritas semíticas da região do Chifre da África.
Essa será uma distinção especialmente útil para nossos estudos: “semítico” descreve a família linguística; “alfabeto” descreve o sistema de escrita; e “descendência gráfica” descreve a história específica dos sinais. São três níveis diferentes que não devemos misturar.
Assim como o Ugarítico, o Geʿez também deve ficar separado:
10. Árabe Antigo / Safaítico
As escritas árabes setentrionais antigas, especialmente safaítica, hismaica e dadanítica, representam importantes estágios anteriores ou paralelos ao desenvolvimento da escrita árabe.
11. Palmírico
Escrita aramaica utilizada em Palmira, apresentando uma evolução própria das formas aramaicas.
12. Alfabeto Mandaico
Alfabeto utilizado para escrever o mandaico, uma língua aramaica. Sua tradição gráfica apresenta características próprias:
ࡀ ࡁ ࡂ ࡃ ࡄ ࡅ ࡆ ࡇ ࡈ ࡉ ࡊ ࡋ ࡌ ࡍ ࡎ ࡏ ࡐ ࡑ ࡒ ࡓ ࡔ ࡕ ࡖ ࡗ ࡘ ࡙
Nomes das letras:
Alaf (ࡀ), Biṭ (ࡁ), Ga (ࡂ), Daḏ (ࡃ), A (ࡄ), Wa (ࡅ), Zain (ࡆ), Ē (ࡇ), Ḥa (ࡈ), Ṭa (ࡉ), Ka (ࡊ), La (ࡋ), Ma (ࡌ), Na (ࡍ), Sa (ࡎ), ʿA (ࡏ), Pa (ࡐ), Ṣa (ࡑ), Qa (ࡒ), Ra (ࡓ), Ša/Sha (ࡔ), Ta (ࡕ), Ḏa (ࡖ), Ğa (ࡗ), Ḥaḏ (ࡘ ), ʿAin ( ࡙ ).
A grande transformação das escritas
Podemos visualizar a grande transformação assim:
Egípcio → Proto-Sinaítico → Fenício → Paleo-Hebraico → Samaritano → Aramaico → Hebraico Quadrado → Siríaco → Nabateu → Árabe
Por exemplo:
ʾAlef
𓃾 → 𐤀 → 𐤀 → ࠀ → 𐡀 → א → ܐ → 𐢀 → ا
Bet
𓉐 → [sinal Proto-Sinaítico] → 𐤁 → 𐤁 → ࠁ → 𐡁 → ב → ܒ → 𐢁 → ب
Ayin
𓂀 → [sinal Proto-Sinaítico] → 𐤏 → 𐤏 → ࠏ → 𐡏 → ע → ܥ → 𐢏 → ع
Aqui vemos algo impressionante: o desenho original desaparece gradualmente, mas a identidade fonológica da letra permanece reconhecível durante milênios.
E existe uma questão ainda mais interessante
Os sinais Proto-Sinaíticos não eram simplesmente “hieróglifos egípcios usados como letras”.
A inovação foi conceitual:
hieróglifo → imagem → palavra semítica → primeiro som da palavra → consoante
Isso é uma mudança enorme na história da escrita.
O documento de Pandey destaca justamente que o Proto-Sinaítico representa um sistema consonantal alfabético muito antigo, atestado em Wadi el-Hol e Serabit el-Khadim, e que seus sinais pictográficos sofreram transformação progressiva até formas lineares que deram origem a outras tradições, incluindo a fenícia.
E há um detalhe que combina perfeitamente com nossa investigação anterior: 𐤀 não é o Proto-Sinaítico. É fenício. O Proto-Sinaítico original era muito mais próximo de desenhos/pictogramas.
Portanto:
Hieróglifo egípcio → sinal Proto-Sinaítico → valor acrofônico → Fenício/Paleo-hebraico → Samaritano → Aramaico → Hebraico → Siríaco → Nabateu → Árabe.
Essa é, de fato, uma linha evolutiva da história das letras semíticas, e não apenas uma comparação de alfabetos.
A evolução gráfica dos alfabetos semíticos
Proto-sinaítico / Proto-cananeu
↓
Fenício
↙︎ ↘︎
Paleo-hebraico Aramaico
↓ ↓
Samaritano Aramaico Imperial
↙︎ ↓ ↘︎
Hebraico Quadrado — Siríaco — Nabateu
↓
Árabe
E, separadamente:
Ugarítico — tradição cuneiforme semítica paralela
Geʿez — ramo meridional/etiópico
Mandaico — ramo aramaico oriental
Isso evita dar a impressão de que todos esses alfabetos descendem diretamente uns dos outros. Alguns são tradições paralelas, enquanto outros possuem uma relação histórica mais direta.
Mas há uma descoberta ainda mais importante
Observe a diferença entre:
Ugarítico:
𐎀 𐎁 𐎂 𐎃 𐎄 𐎅 𐎆 𐎇 𐎈 𐎉 𐎊 𐎋 𐎌 𐎍 𐎎 𐎏 𐎐 𐎑 𐎒 𐎓 𐎔 𐎕 𐎖 𐎗 𐎘 𐎙 𐎚 𐎛 𐎜 𐎝
Fenício:
𐤀 𐤁 𐤂 𐤃 𐤄 𐤅 𐤆 𐤇 𐤈 𐤉 𐤊 𐤋 𐤌 𐤍 𐤎 𐤏 𐤐 𐤑 𐤒 𐤓 𐤔 𐤕
O Shin ugarítico 𐎌 aparece na posição 13, enquanto o Samek (Samkha) 𐎒 aparece na posição 19. Já no fenício, Samekh 𐤎 vem antes de Ayin 𐤏, Pe 𐤐, Ṣade 𐤑, Qof 𐤒, Rosh 𐤓, Shin 𐤔 e Tau 𐤕. Essa diferença de ordenação é precisamente uma das razões pelas quais devemos evitar uma tabela que simplesmente alinhe as 30 posições ugaríticas com as 22 posições fenícias.
Além disso, os quatro sinais ugaríticos que não possuem correspondente fenício/hebraico direto nessa série — 𐎃 Kha, 𐎏 Dhal, 𐎑 Zu e 𐎘 Thanna, juntamente com 𐎙 Ghain e os três sinais finais — são extremamente importantes para mostrar que o ugarítico não é simplesmente um “fenício em cuneiforme”. É um sistema alfabético semítico próprio, embora intimamente relacionado à tradição levantina.
A documentação comparativa de alfabetos antigos também confirma que a tradição aramaica de 22 letras corresponde ao mesmo núcleo fenício de 22 sinais, do Aleph ao Taw.
E assim, temos a evolução em várias ramificações
Escrita egípcia → Proto-Sinaítico / Proto-Canaanita → Escritas cananeias antigas → Fenício
E, a partir daí, podemos representar:
Fenício → Paleo-hebraico / Samaritano
e, em outra ramificação:
Fenício → Aramaico → Aramaico Imperial → Nabateu → Árabe
enquanto:
Aramaico → tradição siríaca → Estrangelo → Serto
Isso combina muito melhor com a ideia central desse artigo: não uma única linha evolutiva, mas uma árvore de ramificações gráficas.
Os 22 caracteres semíticos — comparação gráfica
Agora vamos à tabela das correspondências gráficas, mantendo as 22 posições tradicionais e, ao mesmo tempo, deixando claro que a tabela mostra correspondência histórica das letras, não uma afirmação de que cada alfabeto seja descendente direto do anterior.
| # | Nome tradicional | Fenício / Paleo-hebraico | Samaritano | Aramaico Imperial | Hebraico quadrado | Siríaco | Nabateu | Árabe |
|---|
| 1 | ʾĀlep | 𐤀 | ࠀ | 𐡀 | א | ܐ | 𐢀 | ا |
| 2 | Bēt | 𐤁 | ࠁ | 𐡁 | ב | ܒ | 𐢁 | ب |
| 3 | Gīmel | 𐤂 | ࠂ | 𐡂 | ג | ܓ | 𐢂 | ج |
| 4 | Dālet | 𐤃 | ࠃ | 𐡃 | ד | ܕ | 𐢃 | د |
| 5 | Hē | 𐤄 | ࠄ | 𐡄 | ה | ܗ | 𐢄 | ه |
| 6 | Wāw | 𐤅 | ࠅ | 𐡅 | ו | ܘ | 𐢅 | و |
| 7 | Zayin | 𐤆 | ࠆ | 𐡆 | ז | ܙ | 𐢆 | ز |
| 8 | Ḥēt | 𐤇 | ࠇ | 𐡇 | ח | ܚ | 𐢇 | ح |
| 9 | Ṭēt | 𐤈 | ࠈ | 𐡈 | ט | ܛ | 𐢈 | ط |
| 10 | Yōd | 𐤉 | ࠉ | 𐡉 | י | ܝ | 𐢉 | ي |
| 11 | Kāp | 𐤊 | ࠊ | 𐡊 | כ | ܟ | 𐢊 | ك |
| 12 | Lāmed | 𐤋 | ࠋ | 𐡋 | ל | ܠ | 𐢋 | ل |
| 13 | Mēm | 𐤌 | ࠌ | 𐡌 | מ | ܡ | 𐢌 | م |
| 14 | Nūn | 𐤍 | ࠍ | 𐡍 | נ | ܢ | 𐢍 | ن |
| 15 | Sāmek | 𐤎 | ࠎ | 𐡎 | ס | ܣ | 𐢎 | س |
| 16 | ʿAyin | 𐤏 | ࠏ | 𐡏 | ע | ܥ | 𐢏 | ع |
| 17 | Pē | 𐤐 | ࠐ | 𐡐 | פ | ܦ | 𐢐 | ف |
| 18 | Ṣādē | 𐤑 | ࠑ | 𐡑 | צ | ܨ | 𐢑 | ص |
| 19 | Qōp | 𐤒 | ࠒ | 𐡒 | ק | ܩ | 𐢒 | ق |
| 20 | Rēš | 𐤓 | ࠓ | 𐡓 | ר | ܪ | 𐢓 | ر |
| 21 | Šīn | 𐤔 | ࠔ | 𐡔 | ש | ܫ | 𐢔 | ش |
| 22 | Tāw | 𐤕 | ࠕ | 𐡕 | ת | ܬ | 𐢕 | ت |
Observação importante sobre a coluna Nabateia
Aqui temos que fazer uma pequena ressalva acadêmica: não devemos tratar o Nabateu como se tivesse simplesmente 22 sinais perfeitamente equivalentes aos 22 sinais fenícios. A correspondência acima é uma tabela comparativa de letras, útil para visualizar a continuidade gráfica, mas a escrita nabateia possui particularidades epigráficas e formas variantes.
E aqui aparece algo muito bonito
Podemos acompanhar visualmente, por exemplo, a primeira letra:
𐤀 → ࠀ → 𐡀 → א → ܐ → 𐢀 → ا
ʾĀlep / Alef
E a segunda:
𐤁 → ࠁ → 𐡁 → ב → ܒ → 𐢁 → ب
Bēt / Bet
E assim por diante.
Isso permite visualizar uma coisa que às vezes se perde quando estudamos apenas as línguas: o nome e a posição das letras preservaram uma continuidade extraordinária, enquanto a aparência gráfica foi se transformando profundamente.
Uma ressalva sobre o árabe
A coluna árabe representa as correspondências tradicionais, não necessariamente uma equivalência fonética moderna perfeita. Por exemplo:
𐤂 → 𐡂 → ג → ܓ → ج
representa Gīmel/Gimel, mas o ج árabe moderno tem pronúncia que varia conforme a região e não deve ser simplesmente igualada ao ג hebraico moderno.
Apêndice
Texto do Talmude, Sanhedrin (Sinédrio) 21b, versos 22 e 23
| Sanhedrin 21b:22–23 — Hebraico |
Tradução em português |
| (כב) אמר מר זוטרא ואיתימא מר עוקבא בתחלה ניתנה תורה לישראל בכתב עברי ולשון הקודש חזרה וניתנה להם בימי עזרא בכתב אשורית ולשון ארמי ביררו להן לישראל כתב אשורית ולשון הקודש והניחו להדיוטות כתב עברית ולשון ארמי |
(22) Disse Mar Zutra — e alguns dizem que foi Mar Ukva: “No princípio, a Torá foi dada a Israel em escrita hebraica (ketav ʿIvri) e na Língua Santa (leshon ha-qodesh). Depois, ela lhes foi dada novamente, nos dias de Esdras, em escrita assíria (ketav Ashuri) e em língua aramaica (leshon Arami). Israel escolheu para si a escrita assíria e a Língua Santa, e deixou para os hedyotot [הדיוטות] a escrita hebraica e a língua aramaica.” |
| (כג) מאן הדיוטות אמר רב חסדא כותאי מאי כתב עברית אמר רב חסדא כתב ליבונאה |
(23) “Quem são os hedyotot?” Disse Rav Hisda: “Os Kutim [samaritanos].” “E o que é a ‘escrita hebraica’?” Disse Rav Hisda: “Escrita Libona'a.” |
Nota: כתב ליבונאה (Ketav Libona'a) — “escrita Libona'a”, termo talmúdico utilizado por Rav Hisda para designar a antiga Ketav ʿIvri (escrita hebraica/paleo-hebraica). O significado etimológico de ליבונאה (Libona'a) é discutido; uma interpretação tradicional relaciona o termo à raiz לבן, “branco”, entendendo-o como “escrita branca”, isto é, "pura".
Palavras e frases principais nesse texto tã
Talmúdico :
כתב עברי → escrita hebraica
לשון הקודש → Língua Santa
בימי עזרא → nos dias de Esdras
כתב אשורית → escrita assíria
לשון ארמי → língua aramaica
הדיוטות → comuns / leigos
כותאי → Kutim / samaritanos
כתב ליבונאה → escrita Libona'a
E há uma vantagem importante nessa apresentação: fica evidente que “nos dias de Esdras” (בימי עזרא) está efetivamente no texto hebraico, assim como a distinção explícita entre כתב עברי (Kətav ʿivrî) e כתב אשורית (Kətav ʾashūrî).
REFERÊNCIAS
1. Composição dos cinco primeiros alfabetos: 𝓛𝓾𝓲𝓼𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮.
2. Composição dos demais alfabetos e algumas observação sobre os alfabetos e revisão do texto: 𝓒𝓱𝓪𝓽𝓖𝓟𝓣.
Por: 𝓛𝓾𝓲𝓼 𝓐𝓷𝓽𝓸𝓷𝓲𝓸𝓒𝓪𝓬𝓮𝓻𝓮𝓰𝓮 &̷ 𝓒𝓱𝓪𝓽𝓖𝓟𝓣 ܠܘܝܣ - לואיס - 𐤋𐤅𐤀𐤉𐤎 - ࠋࠅࠀࠉࠔ - Ⲗⲟⲩⲓⲥ - Λουίς✍🏼 ܞ ☧ ✞
Manaus-AM, 22-24 (Ter.-Qui.) de Set/2026.